11 - AS TESES EM CONFRONTO

01.02.2004

11º ) ANÁLISE GLOBAL DO 3º PLENÁRIO DO COMITÉ CENTRAL O VERDADEIRO SIGNIFICADO DOS CINCO MINUTOS QUE ENTRARAM NA HISTÓRIA DO MPLA. AS TESES EM CONFRONTO

É absolutamente mister, isto é, necessariamente importante proceder à análise do que terá sido no essencial, no fundamental, o 3º Plenário do Comité Central. Na verdade, a redacção marxista-leninista que penetra na larga maioria dos textos que constituem, no conjunto, as resoluções finais do referido Plenário encobrem, num fetichismo aparentemente espantoso, a essência, em relação à luta encarniçada travada em torno das questões mais candentes escritas na ordem do dia do nosso processo revolucionário. Há que levantar o véu que esconde esta essência.

O método é único Só a análise objectiva das intervenções mais importantes pode dar a verdadeira imagem desta luta e , para tal, importa reconstruir aqui, corajosamente, o verdadeiro rosto de cada orador mais destacado, dizer em nome de que classe falou realmente cada um de nós. Importa pois revelar o que cada um disse, isto é, partir da superfície das coisas e dos fenómenos e realizar um mergulho até à profundidade com vista a descobrir a essência dessas mesmas coisas e fenómenos. A essência está pois no fundo, na profundidade de cada coisa., de cada processo ou fenómeno, quer se trate da natureza quer se trate da vida social.

Duas posições essencialmente falando, travam uma árdua e acesa luta em torno da questão da Organização, do problema da unidade no seio do MLPA, do tema da ditadura democrática revolucionária e do Podre Popular. Estes, camaradas militantes e quadros dirigentes, foram os pontos centrais, os pontos quentes da polémica.

Muito superficialmente a polémica abarcou também o problema da DISA (Segurança), a questão da doutrina leninista das Forças Armadas (FAPLA) e a questão do sistema executivo-administrativo do Governo. Marcou-se a data do Congresso constituinte do partido.

Em cada um desses casos concretos encontramos a luta entre os pontos de vista do revisionismo, do eclectismo, do menchevismo, do sectarismo e voluntarismo dum lado, e o ponto de vista da defesa dos interesses da revolução com base no marxismo-leninismo doutro. A correlação de forças real foi naturalmente desfavorável a este último e mais adiante se explica as causas e condições que condicionaram o resultado final.

Para cada uma das posições em presença pode dizer-se que eram objectivos do 3º Plenário: para as forças conservadoras, para os oportunistas de direita com todos os seus matizes, o objectivo era, o início da preparação de condições internas que culminariam, algum dia, com o afastamento do fantasma”Grupo Nito” (Designação dos dossiers secretos da DISA), era conseguir o processo desse pretenso e perigoso”grupo”. A suspensão representaria por conseguinte, um momento e um objectivo táctico. Para nós outros, o objectivo era a denúncia da santa-aliança reaccionária entra a direita e os ultra-revolucionários, os pretensiosos representantes da”nova esquerda” ou seja os maoístas, do anti-sovietismo.

Não houve debate aceso em relação à aprovação e adopção abstractas dos textos formais cuja redacção deveria primar pelo estilo da frase revolucionária. A divergência, que originou a luta, revelou-se na interpretação e caracterização do conteúdo essencial de determinados conceitos inclusos nos textos, a exemplo, o da ditadura democrática revolucionária.

Como é que se explica o facto de a linha oportunista de direita, a ala revisionista e representantes do chauvinismo nacional estrito pequeno-burguês, os ideólogos do socialismo, do”MPLA como ideologia nacional”, como é que todos estes votaram resoluções formais de tipo marxista-leninista? perguntaram e continuaram a perguntar alguns militantes.

A resposta é simples. A popularidade do socialismo científico e das suas palavras de ordem fazem com que a santa-aliança adopte, também a frase revolucionária, sob pena de não ser acreditada pelas massas. Aceitar o marxismo-leninismo em palavras, mas esvaziando o seu conteúdo na prática da luta de classes, eis a táctica do revisionismo moderno, a característica dominante da”nova” social-democracia. Com efeito, embora contrariados, os ideólogos da pequena-burguesia não podem governar nem influir sobre as massas sem este método oportunista: a utilização pequeno-burguesa e burguesa da doutrina de Marx, Engels e Lénine.

Quando, nas fábricas, hoje, em Angola, nas escolas, colégios, liceus e universidades as amplas massas trabalhadoras e os intelectuais revolucionários, se sentem irreversivelmente atraídos pela ideologia marxista-leninista, não faria sentido (e seria sinal de pouca inteligência) que a ala direitista não apoiasse formalmente a terminologia dos fundadores da teoria revolucionária. Contudo é vê-los em Angola, em intervenções públicas e nas assembleias de militantes, nas reuniões com a UNTA, OMA, JMLPA, e pioneiros como é que manifestam, com toda a evidência a sua desconfiança em relação ao socialismo científico, caso do Secretário Administrativo do Bureau Político. (Leia-se o seu discurso na Conferência da Organização dos Pioneiros, em Benguela, só a título de incontestável exemplo).

Abro aqui um parêntesis para patentear aqui uma flagrante oposição, uma contradição frontal entre o pensamento e estratégia do Secretário Administrativo do Bureau Político, dum lado, e o pensamento e estratégia do camarada Presidente do MPLA, doutro lado, que é sem equívocos pelo socialismo objectivado – o socialismo científico.

Impotente, redondamente impotente para insurgir-se contra Marx, Engels e Lénine, o Secretário Administrativo descarrega sobre os sectores revolucionários o seu ódio ao socialismo científico. Com efeito, os fundadores do socialismo científico não viam a palavra científico o seu lado gramatical, como mera categoria morfológica, mas sim como conceito rigoroso e objectivamente ideológico, como expressão mais profunda da concepção proletária do mundo e da perspectiva da sua transformação, ponto de essencial demarcação com todos os demais”socialismos”, os utópicos e companhia limitada. Mas voltemos ao assunto.

A nota verdadeiramente curiosa e interessante observada ao longo dos debates no 3º Plenário, é a deslocação condicionada do oportunismo de certos camaradas que preferiram uma aliança com o revisionismo, numa gritante manifestação de cobardia porque, também sentem necessidade premente do meu afastamento – para o qual aliás trabalham intensa e febrilmente quer estando na DISA, ou intervindo na reunião com o Comité Central da JMPLA , ou em inflamante discurso no largo 1º de Maio por ocasião do 20º aniversário da fundação do MPLA. Estes camaradas são até dos que aprenderam em bancos de Universidade Socialista a teoria revolucionária e não se pode dizer de alguns deles tratar-se de militantes direitistas. Mas obrigam-se naturalmente a fundamentar a sua posição e afirmar que os camaradas Nito e Zé Van-Dúnen, Bakalof e Monstro são sectários.

Eu penso que alguns destes camaradas adoptaram, oportunisticamente condicionados, as posições do menchevismo moderno, do ponto de vista teórico e ideológico, e no campo da prática , as suas análises reflectem um”marxismo” sem alvo nem força; eles oferecem ao proletariado e amplas massas trabalhadoras angolanas uma arma sem mecanismo de disparo nem atirador, querem oferecer à classe operária uma espada sem gume nesta luta de classes.

Para passarmos à sistematização dos temas e debates, ficamos unicamente pela análise das posições predominantes, em presença no 3º Plenário. A moral revolucionária exige da nossa parte, uma demarcação nítida das posições defendidas por muitos camaradas membros do Comité Central, por deficiente análise dos problemas reais do contexto político do País e principalmente no seio da organização, relativamente às posições dos oportunistas de direita e que agiram cegamente contra mim.

1º) DEBATE SOBRE O MOVIMENTO DE ORGANIZAÇÃO OS CINCO MINUTOS SILÊNCIOSOS

Nota curiosa: logo no início da 1ª sessão, por inabilidade e diante das Comissões Directivas, não podendo conter o seu ódio, o membro do Comité Central Pacavira precipita o seu ataque contra o camarada Nito.

A 2ª sessão do dia 24 começou com o seguinte ponto da ordem do dia – Análise do Movimento de Organização.

O Camarada Presidente abriu a sessão e pediu que os membros do Comité Central se pronunciassem. Estavam presentes excepcionalmente, as Comissões Directivas Provinciais.

Decorridos os cinco minutos (rigorosamente contados pelo camarada Presidente) e apesar de repetidos apelos do”primus inter pares” no MPLA, nenhum, mas nenhum membro do Comité Central pediu a palavra à presidência. Ao findar o quinto minuto, o camarada Presidente deu por terminada a discussão para todo o Comité Central, após o que concedeu a palavra às Comissões Directivas (o primeiro a falar foi o representante da Lunda, seguido pelas intervenções dos representantes do Kuanza-Norte, Zaire, Huíla e o de Malange; (a ordem aqui não é arbitrária). Alguns membros do Comité Central quiseram novamente reivindicar a discussão. O problema viria a ser posteriormente reposto por outras vias.

Os cinco minutos esvaíram-se silenciosamente e o Comité Central não se mostrou à altura de abordar a complexa problemática da Organização. Este foi, quanto a mim, um dos acontecimentos mais marcantes e significativos deste 3º Plenário.

O que significam cinco minutos silenciosos num Plenário do Comité Central, os cinco minutos silenciosos sobre o problema do Movimento de Organização, quando sabemos que sem organização não há capacidade de direcção e controle do movimento de massa, não há centralismo democrático, não há nada de unidade de acção, não há disciplina interna? Sem organização não há nada de sério nem de significativo, não há absolutamente nada. E como é que se pode compreender que um Comité Central, reunido em sessão Plenária , e que traça um programa marxista-leninista definindo uma opção socialista, que marca a realização de um Congresso, fixa estas tarefas tão importantes como decisivas e não discute a questão da Organização? Qualquer coisa vai mal!

Duas hipótese para a interpretação do fenómeno: a maioria absoluta do Comité Central ou desconhece pura e simplesmente a teoria da Organização, não a compreende e nem se esforça por estuda-la; ou tem um grave desconhecimento do que é, no concreto, o MPLA de hoje como organização à luz dos seus estatutos. A realidade diz-nos contudo, que reina na Organização uma profunda desorganização, manifestação evidente do oportunismo de direita. Muitos camaradas não devem ter estudado como se forma um Comité de Acção ou um grupo ou uma Assembleia de 1º escalão. A circular nº 1 é desconhecida em absoluto, pela maioria absoluta do Comité Central. Se não a conhecem é porque não conhecem nada do que é hoje o MPLA, de que se é o Comité Central pela força histórica da Inter-Regional.

Do ponto de vista teórico dir-se-ía pois que a maioria absoluta do Comité Central não conhece o MPLA, por mais paradoxal que possa parecer esta afirmação.

Ora, como é que esta maioria tem moral para suspender outros camaradas? Quem não conhece uma coisa acaso pode decidir sobre o futuro desta mesma coisa? Quem já viu um professor que não sabe álgebra e vai reprovar o aluno que domina as regras de solução duma equação? Como é aberrante e perigoso o oportunismo”honesto”.

Para evidenciar um exemplo de arrogância e abuso de mandato, faço referência ao maquiavélico relatório apresentado ao Plenário com o título”Análise do Movimento de Organização”. Mas, analisar o quê e a partir de que critérios ?

O conteúdo do pretensioso documento é uma adição aritmética de mentiras escandalosamente grosseiras. Como é que se pode mentir assim tanto a um Comité Central? Uma réplica a este documento arrasa-lo-ía até às raízes.

O documento foi propositadamente apresentado como pretexto na intenção de se provar que o Secretariado do DOM Nacional – que constituí com o aval do camarada Presidente – era o pai do”fraccionismo” , era o instrumento da criação dum fantasma, o”segundo MPLA”.

De forma oportunista e, em subtil defesa dos maoístas, o autor do documento é impotente em responsabilizar os CAC’s pela tentativa de criar o verdadeiro segundo MPLA. É nisto bastante eufemístico. Ora, todos os militantes sabem que os CAC’s se infiltraram no DIP, DOP, e DOM e foram mesmo alguns CAC’s ( como Pena Pires, hoje em Portugal ) que estiveram na base da inspiração e elaboração da Circular nº 1. Este documento anti-MPLA por oposição rotunda aos Estatutos da nossa Organização é aprovada no Bureau Político sob proposta do então coordenador daqueles departamentos, o camarada Dilolwa. Os COP’s, patrocinados igualmente pelo Bureau Político foram na verdade, instrumentos de acção dos CAC’s. Neste sentido, tínhamos de facto um outro MPLA dentro do próprio MPLA, com os seus princípios e métodos de organização, com o seu programa de acção, com as suas regras disciplinares, com a sua hierarquia, com os seus métodos conspirativos até. Tínhamos os CAC’s infiltrados no MPLA, e eles inspiraram esta Circular nº 1 que não tem, nada a ver com o MPLA, é o seu oposto. Entretanto, o camarada Dilolwa, na altura coordenador do DOP, DIP e DOM não foi ouvido, não foi responsabilizado, não foi punido, nem suspenso,”por ser um dirigente exemplar”! Ninguém o acusou de chefe dos CAC’s, dos fraccionistas e dos divisionistas que foram os CAC’s!

Que vergonhosa hipocrisia. Camarada Presidente, camaradas do Comité Central, nunca assisti a tanta injustiça, dentro dum regime democrático revolucionário.

Mas o que conta é o conteúdo ideológico dos CAC’s e Comités similares, e este é, em sua verdadeira essência, o anti-sovietismo, uma das variantes do anti-comunismo. Ora em termos de essência ideológica não há contradição entre estes comités e o ponto de vista do Secretário Administrativo do Bureau Político, posto que , a ampla plataforma anti-soviética fá-los entender. Neste sentido, ainda que o Secretário Administrativo do Bureau Político condene os CAC’s, o máximo que faz é condenar o nome do comité e não o seu conteúdo. Por isso é que os maoístas continuam pululando à vontade por aí.

O Secretário da Coordenação do DOM que dirigi defendeu o Programa e os estatutos do MPLA. Combateu vigorosamente todos os oportunistas, (entre eles os CAC’s), ocupou lugar na trincheira contra o anti-sovietismo. E é por esta razão que o Secretário Administrativo não perdoou nem perdoa o Secretariado, porque este, na sua acção revolucionária, atingiu as posições da guarnição do anti-sovietismo. Todo o comandante que perdeu os seus homens, tem que realizar acções de revanche.

O Secretário fez muitas baixas no exército do anti-sovietismo e o Secretário Administrativo do Bureau Político não pôde deixar de ripostar com toda a virulência possível.

2º) DEBATE SOBRE A UNIDADE NO SEIO DO MPLA A EXPOSIÇÃO DOS “PROCESSO 50″ E “4 DE FEVEREIRO”

O objectivo dos revisionistas e conservadores era processar-me como”fraccionista”e”divisionista”. Nos capítulos anteriores desfiz em pó este argumento próprio dos divisionistas. Por isso não repito aqui o mesmo argumento.

Interessa-me analisar aqui, a tese com que me brindaram os camaradas que adoptaram, por comodismo mental e outros condicionalismos, as posições do oportunismo. Falou-se de sectarismo e eu era o visado.

Inclino-me a pensar que tais camaradas esqueceram as lições que aprenderam sobre sectarismo.”Constatou-se que o Movimento, nesta fase, sofreu de sectarismo”, disse, o camarada Onambwa. Estamos de acordo que houve sectarismo nesse período, mas daí se conclui que fui o genearca do sectarismo? Vou demonstrar que não e a afirmação do camarada Onambwa carece de conteúdo e sistematização, única condição de a tornar inteligível.

Será sectarismo demarcar em termos de análise científica qual a composição de frente anti-imperialista? Não será antes, sectarismo defender o alargamento desta frente de modo a nele estarem englobados desde ex-elementos da OPVDCA, PIDE, passando por traidores ao nosso Movimento como os da Revolta Activa, até aos fraccionistas, e divisionistas como os CAC’s, OCA’s, FUA e outros?

Não é evidente, que é esta última atitude aquela que conduz à divisão da verdadeira frente anti-imperialista, pelo afastamento de revolucionários consequentes? Ora, eu não agi assim, pelo contrário e por isso o rótulo não me serve. E a máscara deveis vesti-la vós, tenham coragem de o reconhecer. E o sectarismo assim entendido, é simultaneamente um desvio de direita e de esquerda.

Outro orador, que ainda sofre odaxismo de quem se inicia na aprendizagem do marxismo-leninismo (vale mais tarde que nunca), recordou palavras que ouviu dizer em qualquer parte e acusou-me de”populista” e”demagogo”. Se o membro do Comité Central Pacavira, digno representante do nacionalismo estreito ou adepto do cosmopolitismo (antítese do internacionalismo proletário), ler bem o que atrás eu disse acerca da demagogia, fácil ser-lhe-há concluir que a sua própria e crassa ignorância em relação a Marx, Engels e Lénine faz dele um perigoso demagogo e um populista sem paralelo . Segundo José Van-Dúnen, Valentim, Pedro Fortunato, David Aires Machado e tantos outros, o actual membro do Comité Central Manuel Pedro Pacavira foi um dos fundadores do jornal da PIDE / DGS”Tribuna dos Muceques”, colaborando activamente na elaboração completa daquele jornal fascista. Como se vê, embora se trate de um nacionalista a quem os fascistas prenderam e meteram na prisão por muitos anos, o que é respeitável, Pacavira é um destes casos dos que falharam pelo caminho e adoptaram as posições do capitulacionismo. É de notar que o Comité Central nunca se debruçou sobre o dossier dos que traíram quer nas prisões quer traindo as guerrilhas.

E a unidade foi assim genericamente recomendada. Mas, unidade com quem? Unidade sob que plataforma ? Unidade com os ex-PIDES? Com os oportunistas? Com os que militaram na FRA, FUA, FNLA, OPVDCA.

Não, evidentemente. Os Marxistas-Leninistas, prevenindo-se contra o revisionismo e o esquerdismo, propõem uma unidade de acção e vontade com base em princípios revolucionários.

Se não vejamos: um ex-PIDE pode, por milagre, transformar-se em revolucionário e defensor das amplas massas? Os que durante a primeira e segunda guerras de libertação nacional nunca se identificaram com o nosso Povo e com os ideais da nossa revolução podem dirigir departamentos do MPLA?

A EXPOSIÇÃO DOS COMITÉS DO”PROCESSO 50″ E “4 DE FEVEREIRO”

Vejamos, já agora como é que a manipulação pode ir tão longe.

Um documento tão importante como foi (e é) a Exposição dos Comités”Processo dos 50″e”4 de Fevereiro” a Reunião do Comité Central do MPLA dá-nos a clara imagem de desinformação propositada, do anquilosamento de muitos e da mais aberrante manipulação de massa e quadros. Este documento feito em 10 folhas, é assinado por uma série de ex- presos políticos, nomeadamente os do”Processo dos 50″ e”4 de Fevereiro”. A análise primária e profunda de alguns nomes - há no meio da lista nomes honrosos e velhos militantes do MPLA – levou-nos a duvidar que todos eles em consciência, soubessem dos verdadeiros propósitos maquiavélicos que, no papel de manipuladores, nomes como os de Hélder Neto, Agostinho Mendes de Carvalho, Carlos Alberto (Beto) Van-Dúnen se propunham como objectivo político. Se pensarmos ainda noutros nomes que assinaram pelo”4 de Fevereiro”, logicamente ficamos com nítida hipótese duma flagrante como reaccionária manipulação.

Mas, passo imediatamente à análise do que interessa.

O documento apontava seis”factores de divisão de unidade nacional”. O ponto dois destaca claramente um desses factores e a redacção integral é do teor seguinte:

2º Contestação ou desrespeito da linha política do MPLA, em consequência do aparecimento de uma linha ideológica que considera a luta de classes como aspecto fundamental para a instauração da Democracia Popular , fim de citação. (pág. 7).

Depois de constatar o perigo que representa para o MPLA a existência no seu seio de camaradas defensores da teoria da luta classes (difusora do marxismo-leninismo, dito em termos mais exactos, penso eu) a exposição debruça-se sobre as medidas que julga convenientes a fim de debelar o mal pela raiz. Assim, no ponto dois, cujo título é”Reforço da Linha Política do MPLA e o do Papel Dirigente” propõe a aplicação de um princípio correcto – cito:

b )”Afastar do seio da organização, ou despromover , todos os militantes, qualquer que seja o seu grau de responsabilidade, que, na teoria e na prática , se revelem contrários à linha política do MPLA”.

Porém o princípio exposto, princípio repita-se que é em abstracto, indiscutivelmente justo destina-se na intenção dos autores da Exposição a ser aplicado não aos que de facto violam a linha política do MPLA mas aqueles que, defendendo a luta de classes, defendem na verdade essa linha, a do marxismo-leninismo.

A quem é que deve ser aplicada, a medida concreta proposta ?

Não será exactamente aos autores da trama que produziram o documento em análise?
Não será pelo menos de averiguar se há elementos de entre os que assinaram o documento que ainda mantenham aquela posição teórica contra-revolucionária?

Como é que se constrói, em Angola, concretamente, uma Democracia Popular sem luta de classes? O que é que me pretendem ensinar, camaradas que assinaram a Exposição? Onde é que foram aprender esta tão novíssima como velhíssima lição? Qual a fonte em que se inspiraram professores, conselheiros e alunos? Então, atacar a teoria da luta de classes não é atacar violentamente, negar o marxismo-leninismo, não é negar o socialismo científico? Negar o marxismo-leninismo, não é ir e lutar manifestamente contra as decisões do 3º Plenário do Comité Central? Não é ir contra o pensamento do camarada Presidente , cuja fidelidade evocam hipócrita e demagogicamente? Ir contra a teoria e a prática da luta de classes, em Angola, não é colocar-se nas posições objectivas da contra revolução? Não é ir contra o Povo, a classe operária e seus aliados? Pelo método da lógica formal diríamos, em síntese, que a dita Exposição dos Comités do” Processo 50″ e” 4 de Fevereiro” é a negação do MPLA.

Vamos demonstrar ainda a demagogia refinada e o mais violento oportunismo desses camaradas. Na alínea d) do mesmo ponto 2, página 8 pode-se ler:

d )”Afastar no seio da Organização todos os elementos oportunistas, divisionistas, ou fraccionistas que, servindo-se de uma linguagem dogmática, não pretendem senão destruir a organização”, fim da transcrição integral.

Nem sequer vestir a máscara sabem. O oportunismo é tão grosseiro que não pode ser escamoteado.

Se não pergunto: querem maior prova demonstrativa de oportunismo do que esta? Não é a vossa própria Exposição que denuncia claramente a vossa demagogia, o vosso fraccionismo, o vosso divisionismo aberta e descaradamente? Pela boca se apanha e morre o peixe.

Este documento deve ser dado ao conhecimento geral dos militantes e de toda a organização.

A quem é que esta luta dos Comités do” Processo 50″ e” 4 de Fevereiro” era dirigida? A resposta é simples: o alvo principal daquele documento, desse ataque de forças conservadoras era e o fantasma do” Grupo Nito Alves”.”Sob outro nome esta parábola fala de ti” dizem os latinos.

Eis um quadro vivo, uma imagem viva da luta que se trava no seio do MPLA. Para as forças conservadoras, para as forças do anti-comunismo, os marxistas-leninistas são fraccionistas, são demagogos, são divisionistas, etc, etc.

Está aqui, inequivocamente, a prova provada de como, no processo histórico, algumas forças fundadoras do movimento de libertação nacional podem, no acontecer da revolução, transformar-se seus inimigos reais. Eis a dialéctica do movimento revolucionário e mundial.

O aspecto mais importante que nos deve preocupar basicamente é a análise do que é decisivo nesta exposição, cheia de contradições, pois até tem regiões revolucionárias nesta ou naquela página. E a questão decisiva consiste em saber quem precisa e exactamente desempenhou o papel activo e inspirador deste verdadeiro ma…sto!!
A resposta não é um quebra cabeças!

É preciso que os militantes e quadros dirigentes do nosso movimento se recordem uns e saibam outros que Beto Van-Dúnen e Mendes de Carvalho são até hoje os dois únicos coordenadores do DOM / Regional em Luanda, há quase dois anos; é preciso que se saiba e se … que Hélder Neto é um dos homens mais destacados , ao mais alto nível nas estruturas superiores da hierarquia da DISA (Segurança) e um dos indigitadores, em gabinete altamente secreto, para elaboração do” dossier”" NITO ALVES” (o qual nunca foi levado ao conhecimento do Comité Central). Talvez assim se entenda melhor a manipulação … Todos eles são assinantes do documento.

Ora, uma das últimas directrizes do Bureau Político é a de para além dos Comités do MPLA não pode haver mais comités e que , …endação severa, a nenhum militante ou quadro dirigente está autorizada a integração nesses Comités. Foi assim que se ordenou a dissolução do” Comité Tala-Hadi” …ango e é em consequência desta política que o Bureau Político …smo caucionou a criação duma Liga dos ex-presos políticos proposto por estes.

Assim sendo, como é que se compreende que os dois responsáveis por um organismo de dimensão do DOM / Regional e o outro então, …s dos quadros de Segurança, tenham participado na convocação, ..acção, discussão e aprovação de referida Exposição, integrando …s do” Processo 50″ e” 4 de Fevereiro”? Isto não é violação da directriz atrás enunciada e um atentado aos Estatutos? A isto …chama fraccionismo e divisionismo (manifestamente legalizado). O papel desses indivíduos naqueles Comités é o de verdadeiros …adores e nada mais.

Camarada Presidente
Camaradas do Comité Central

Esta política é extremamente perigosa, tanto mais perigosa quando se apresenta aos militantes e ao conjunto da organização os …Beto Van-Dúnen, Mendes de Carvalho, Hélder Neto e companhia ..como militantes exemplares e disciplinados. É tempo de se rever a condução geral da revolução e do MPLA. Tanto é grave esta política quando, apesar de tudo isto apesar da prática tribalista do Mendes de Carvalho, o Bureau Político sancionou-o como candidato ao Comité Central! Para onde vamos e com quem havemos de marchar?

Há camaradas do” Processo dos 50″ e do” 4 de Fevereiro” que foram iludidos por manipulação, com desinformação e não suspeitaram pois que os seus nomes defendessem posições abertamente anti-marxistas-leninistas, contra-revolucionárias, posições da social-democracia moderna.
Em nome de que Povo se pediu o meu afastamento do MPLA ?

Em nome do socialismo ou da contra-revolução?

Esta posição iria ser defendida no 3º Plenário, abertamente, por iniciativa dum membro do Comité Central, Manuel Pedro Pacavira, pediu a suspensão do Camarada Nito Alves quer do Comité Central quer do Governo e pediu febrilmente o afastamento do mesmo para fora de Angola, para um outro país, porque a presença do camarada Nito Alves em Angola”não nos permite estar em paz”, disse ele, (discurso directo). Com notória ingenuidade, alguns camaradas o seguiram. O camarada Presidente, reprovando e repudiando aquela posição disse que não concordava, pessoalmente, com aquele tipo de medidas e perguntou mesmo”que forças sociais estariam interessadas no afastamento e suspensão do camarada Nito quer para fora de Angola, quer em relação ao Comité Central ou ao Governo”. Estas palavras do camarada Presidente Agostinho Neto podem ser ouvidas na longa fita magnética que gravou as nossas intervenções.

E quando, mesmo depois do 3º Plenário do Comité Central, observamos um aproveitamento de direita das decisões da referida Reunião, quando as forças reaccionárias, os revisionistas e maoístas e a pequena burguesia festejaram com brindes em taças de ouro, com whisky do imperialismo a minha suspensão, eu pergunto com o camarada Presidente : a que forças sociais, em Angola e no mundo, interessa a minha suspensão e afastamento? E quando a CIA descobrir que não consegue o meu afastamento? A esta pergunta deve responder o membro do Comité Central Manuel Pedro Pacavira. Responsabilizo, ante a História, a direita no MPLA qualquer acto criminoso de que eu possa vir a ser vítima nesta luta implacável pelo real triunfo do marxismo-leninismo. Mas, em relação ao próprio crime em si, dele não sustento o mínimo temor, porque o combatente não hesita ante a morte.

3º) DEBATE SOBRE O PODER POPULAR

Nunca esperei que as reservas postas às eleições das Comissões Populares de Bairro de Luanda se degenerassem numa verdadeira desconfiança política em relação ao Poder Popular.

Há muito tempo que a reacção interna, os revisionistas de direita e esquerda e os oportunistas me responsabilizaram pelo”crime” de ter levado a cabo as eleições populares em Luanda.

Em certo sentido, a partir daquela data, o ataque ao Poder Popular passou a ser o ataque então ao Ministro da Administração Interna.

Para não cairmos em divagações, passo a análise da tese mais bem elaborada para o concerto ideológico do ataque ao Poder Popular, objectivamente falando.

Querendo jogar oportunistamente com as minhas palavras o camarada Saydi Mingas disse, a certo passo:” As eleições em Luanda foram prematuras” e não são um acontecimento de dimensão nacional, é um acontecimento só dizendo respeito a Luanda e por isso, continuou ele, deveria ser suprimido do texto sobre a resolução geral, a referência às eleições das Comissões Populares de bairro de Luanda.

“Nós não temos o direito de repetir erros que os outros já repetiram”, disse o membro do Comité Central Onambwa. Depois de dizer que as Comissões Populares de Bairro de Luanda foram”um fenómeno de agitação trazida a Angola por”esquerdistas” portugueses e que o Poder Popular em Angola mais lhe parecia com o Poder Popular nos bairros de Lisboa do que o Poder Popular que ele conhecia, chegou mesmo a pedir a suspensão, de imediato, da continuação da implantação eleitoral dos órgãos de Poder Popular. E quando se viu derrotado, foi mais flexível, advogando o princípio que”doravante deveria presidir as eleições do Poder Popular: a Província que mais produzisse seria aquela a realizar as”suas” eleições. É o princípio da estranha e inédita emulação socialista. O Poder Popular aparece-nos deste modo, como prémio revolucionário a província que apresentar maior índice de produção”. Desde quando o poder político se implanta a partir da emulação socialista? Esta tese por ser nova só pode ser explicada pelo seu criador, o camarada Onambwa. (consulte-se as fitas gravadas para as pastas) .Entretanto esta é uma velha tese economicista.

Não vou comentar todo este chorrilho de argumentações aberrantes:
Como é possível que dirigentes que defenderam a necessidade da participação das Comissões Populares de Bairro na época da luta contra os fantoches do imperialismo, sustentem, após a vitória popular, estas teses? Como é que se grita todos os dias VIVA O PODER POPULAR, e se defendem estas posições? Na luta anti-imperialista, no sentido mais amplo, apelou-se para o Poder Popular que vai até ao ponto de se pedir medidas de suspensão (até quando?) do processo eleitoral? Algo vai mal no MPLA, é a conclusão a fazer.

Acusam-me de dogmático. Ora, para além do mais, o ponto de vista defendido pelo camarada Onambwa, é dum dogmatismo primário. O Poder Popular aparece em Cuba 15 anos após a vitória da revolução. Incapazes de análise criadora acerca do poder popular em Angola como fenómeno histórico-concreto e singular, advogam-se posições esquemáticas, dogmáticas. O segundo erro é fazer depender um processo de alargamento e consolidação do poder político em termos de promoção da classe operária e das amplas massas trabalhadoras no exercício real e efectivo do poder de Estado, fazer depender isto de índices de produtividade na esfera da produção económica (agrícola e industrial) . Eis um desvio de direita, inquestionavelmente falando. Eis uma tese manifestamente oportunista e economicista. Noutros termos, para o camarada Onambwa a Província que pescar mais sardinhas ou produzir mais café, milho, batata, algodão ou sumos é aquela que terá o prémio das eleições!!

Se em Cuba o Poder popular aparece após 15 anos e na Província de Matanzas, na Pátria dos Sovietes o processo foi diferente, os próprios sovietes deram-no à revolução socialista sob a direcção do Partido Comunista da União Soviética. No Viet Nam os órgãos de poder local aparecem,”pela primeira vez sob a forma de Comités do Vit Mihn na região-base de Viet-bac. Cada país, traz assim a sua originalidade dentro do quadro geral do processo da participação directa das massas no exercício real e efectivo do poder de estado.

É o que tinha Lénine em vista quando escreveu:

Todas as nações virão ao socialismo, isto é inevitável, mas elas não o atingirão todas de uma maneira absolutamente idêntica, cada uma delas trará a sua originalidade em tal ou qual ritmo das transformações socialistas dos diferentes aspectos da vida social” (V.I.LÉNINE). O sublinhado é da minha modesta iniciativa.

Lénine e o PCUS não se tinham limitado a utilizar as amplas massas na insurreição armada contra o czarismo, para, depois da vitória, relegá-las para segundo plano, socá-las violentamente afastando-as do poder. Não encontramos isto na História do PCUS. Não é esta a lição que Lénine nos legou.

Tudo o que pessoalmente pensei sobre o Poder Popular em Angola disse-o detalhadamente, enquanto (então) Ministro da Administração Interna, numa audiência com o camarada Presidente, estávamos de acordo que o Poder Popular em Angola era uma aquisição histórica revolucionária das massas sob a direcção do MPLA. Tal como nos primeiros dias dos Sovietes, quer mesmo nos dias posteriores ao fim da”dualidade de poderes”, os mencheviques e socialistas revolucionários dominavam alguns sovietes. Foi o trabalho político e ideológico e organizativo do PCUS que desalojou os inimigos do comunismo dos sovietes.

Continuo até hoje com esta convicção da fundamentação científica estabelecendo uma certa relação de causa e efeito entre o MPLA e o Poder Popular, diremos que se o MPLA não estiver à altura de enquadrar, orientar, dirigir e controlar um amplo movimento de massas em termos do Poder Popular é evidente que este processo não irá longe. O seu ponto limite irá até o momento em que o permitir o trabalho organizativo, político-ideológico do MPLA, até ao ponto em que o permitirem as inevitáveis hesitações de classe da pequena-burguesia que, em princípio, tem medo das massas.

Permitam-me repetir, transcrevendo, sobre o assunto, o que afirmei no meu discurso de 22 de Maio na Cidadela Desportiva aos militantes e aderentes da Cidade de Luanda:

B) O PODER POPULAR – um dos elos essenciais da nossa cadeia, como vimos.

Se analisarmos bem as condições histórico-concretas e as formas como surge o Poder Popular em Angola, havemos de concluir que, do ponto de vista histórico, as nossas Comissões Populares de Bairro, nascidas em Luanda, estão mais próximas dos Sovietes surgidos na Rússia nos primeiros tempos que antecederam a revolução de Outubro.

“Uma busca na História revelar-nos-ia que é absolutamente importante o estudo minucioso dos”primeiros passos do poder soviético”. Na verdade, o Poder Popular em Cuba, rico de lições, aparece em condições históricas pouco semelhantes em relação ao momento histórico em que assistimos ao nascimento das Comissões Populares de Bairro em Luanda. Não nos parece portanto correcto, do ponto de vista dialéctico e histórico, toda a tentativa de se explicar o Poder Popular em Angola tendo como ponto de referência o magnífico exemplo de Matanzas.

“Senão vejamos: Em Cuba o Poder Popular aparece com o Partido Comunista Cubano no poder; os sovietes, na Rússia, marcam a sua aparição na história muito antes da revolução de Outubro, portanto contra o Czar, ou seja em 1905. Nesta altura o primeiro órgão do poder revolucionário era constituído por 151 deputados, e a sua maioria tinha de 21 a 25 anos! Ora em Angola o Poder Popular irrompe com toda a sua força não com o MPLA no poder, mas com uma coligação governamental, cuja correlação de forças era favorável às forças contra-revolucionárias. Basta isto para provar a consistência do nosso ponto de vista – é no estudo da história dos sovietes onde devemos buscar a teoria do Poder Popular, sem subestimar outras experiências como a cubana e a vietnamita. Nos seus primeiros tempos, os sovietes na Rússia surgem como simples direcção do movimento reivindicativo da época.

“Lénine tendo classificado os erros inevitáveis que acompanhavam o processo da formação dos sovietes como casualidade derivada da profunda necessidade histórica, louvou esta iniciativa das massas, à qual reconheceu então aquilo que ele chamou”a alta maturidade política dos operários da industria têxtil.”

“Os erros, os exageros, os excessos que acompanhavam os sovietes, os bolcheviques souberam caracteriza-los: mera casualidade, erros transitórios. Abstraindo de tudo isto, Lénine viu nos sovietes a própria essência do Poder popular, dizendo:
“O PODER DOS SOVIETES É O CAMINHO DO SOCIALISMO: DESCOBERTO PELAS MASSAS TRABALHADORAS, LOGO UM CAMINHO SEGURO, UM CAMINHO INVENCÍVEL”! Eis uma importante e oportuna lição para estudo nos organismos aqui presentes.

“Não passa pela cabeça de ninguém chamar demagogia, populismo e eleitoralismo a esta forma de Lénine ver o fenómeno, porque o estudava dialecticamente.

“Neste sentido, não é por acaso que a terminologia descoberta pelas massas é aplicada. Na história do Partido Comunista da União Soviética diz-se ainda:”o espírito criador das massas fez nascer os sovietes. Eles constituíram a forma de Poder Popular que melhor correspondia às condições do desenvolvimento do socialismo na Rússia”.

“E mais: desde o início os sovietes foram definidos como formas estatais da ditadura do proletariado.

“O partido bolchevique mostrou capacidade de estender os sovietes a toda a União Soviética e hoje os sovietes são, na URSS, assembleias de trabalhadores.

“Evidentemente, Angola de 1976 não é a Rússia de 1905 ou de 1917. Mas o argumento não é consistente porque a ser assim, nada vale o estudo da História Universal.

“Outro argumento, frequentemente utilizado é que as Comissões Populares de Bairro só existem em Luanda! Para responder diremos muito simplesmente: na Rússia o Poder Popular nasce numa única localidade, a cidade de Yvanovo, onde, pela primeira vez, operários da industria têxtil se haviam agitado em greve: na Cuba socialista como se sabe o Poder popular nasce na província de Matanzas: no Vietnam, os órgãos do poder popular nascem na região de Viet Bae.

“A história não nos dá nenhum exemplo de excepção sequer dum país onde o Poder Popular se tenha manifestado em toda a sua superfície ao mesmo tempo.

“Geralmente, se insiste no facto de que o Poder Popular em Angola surgiu da necessidade, em dada época, do combate contra os lacaios internos do imperialismo. Isto é verdadeiro.

“Contudo, esta afirmação não é mais do que a constatação dum fenómeno histórico. O que importa não é apenas esta observação mas a sua interpretação.

O método dialéctico aplicado ao materialismo histórico permite-nos dar a única interpretação possível daquele fenómeno. A continuação da luta contra os fantoches da época, com posições vantajosas na coligação governamental do momento, é um mero motivo nesta relação de causa e efeito. Os agentes internos do imperialismo internacional (colonialismo português e as organizações reaccionárias ditas nacionalistas), não são a causa do aparecimento das Comissões Populares de Bairro. A verdadeira causa do aparecimento e desenvolvimento deste fenómeno político ou social, é no plano histórico a necessidade da passagem da luta anti-imperialista (onde o nacionalismo é o condicionalismo determinante) à fase da luta anti-capitalista (onde o condicionalismo dominante é o factor político-ideológico de classe). De notar que a palavra de ordem contra a exploração do homem pelo homem em Angola se lia nos cartazes, nas ruas de Luanda e nos comícios.

“O que é afinal a luta contra os agentes internos do neo-colonialismo senão um aspecto importante, ponto de partida para as tarefas de transição para o socialismo?

“Que o povo venha ou não a cumprir esta missão muito depende do MPLA, do seu trabalho organizativo, político, ideológico, da sua dedicação e ligação às massas.

“Logo, é tempo de abandonarmos o comodismo mental de explicar às Comissões Populares de Frente de Quimbo, Comissões de Trabalhadores, etc, sempre vinculadas a simples luta externa contra os apaniguados internos do imperialismo mundial.

“Este comodismo mental não nos capacita para perspectivar o desenvolvimento, a trajectória do Poder Popular, o seu verdadeiro papel nesta luta declarada para o socialismo científico (sem acrescentar mais nada depois da palavra científico).

“Tal como dissemos, em vez de ficarmos presos metafisicamente aos excessos, desvios e outros males que ainda acompanham o Poder Popular em Angola, a nossa obrigação era fazer como os bolcheviques – corrigir e prevenir os excessos, os desvios e ver nas Comissões Populares de bairro de Luanda a iniciativa, o caminho seguro descortinado pelas próprias massas no sentido da luta pela construção do socialismo. O MPLA tem de demonstrar capacidade de dirigir esta força que não pode ser dispersada se queremos avançar com ritmos bem cadenciados.

“Aliás, esta forma de ver o problema, resulta do próprio método dialéctico. Não há casualidade absoluta, toda a casualidade é relativa a uma necessidade. E a necessidade é a lei que dirige o desenvolvimento do fenómeno necessário. A dialéctica marxista nos ensina ainda que, para descobrir uma lei, é importante fazermos a abstracção das suas circunstâncias concomitantes, doutro modo tomaremos estas como lei, tomaremos a causalidade como casualidade. Isto equivale a um caos total e, em política, faz-nos escapar grandes oportunidades para avançar, faz-nos recuar quando devíamos avançar, faz-nos avançar quando devíamos recuar; a energia revolucionária se abate inutilmente, as massas vão ficando pouco a pouco desmobilizadas e menos electrificadas para as tarefas da revolução, o que é muito mau.

“Mas o Poder Popular é ainda a teoria e a prática do estado de transição. Assim sendo, assume grande importância o problema de”aprender a governar o país” ! Fim de citação.

Por conseguinte, o facto de a experiência de Luanda sofrer abalos, reflectir um relativo fracasso, não é indicativo duma pretensa prematuridade eleitoral ou culpa de anarquistas, de esquerdistas ou muito menos culpa das massas. Não, as causas devem ser encontradas básica e fundamentalmente na análise do MPLA como força dirigente do processo revolucionário angolano. É preciso dar-se a resposta às seguintes perguntas: quem dirige e como dirige.

O materialismo dialéctico nos ensina que nem toda a prática é critério de verdade. E, advertindo contra o perigo da vulgarização do conceito de prática e a necessidade de distinguir a prática revolucionária o Manual do Marxismo –Leninismo pontifica:

“Por exemplo, quando a primeira experiência de um novo modelo ou invenção não deu resultado, nem sempre se pode afirmar que o projecto em si próprio é definitivamente inútil. Só uma análise atenta das ideias em que se baseia e das condições em que a experiência foi realizada, nos permitirá adquirir uma noção do resultado obtido.”

A conclusão é simples: O MPLA é ou não capaz de conduzir um processo tão sério, complexo e historicamente inadiável

Se um dos crimes de que me acusam é o de ter lutado, na prática, para as eleições dos órgãos do Poder Popular, deste crime então me pronuncio categoricamente e condenem-me como quiserem.

É doloroso ver hoje alguns dos nossos quadros dirigentes manifestarem uma mórbida desconfiança no Poder Popular, desconfiança que em alguns se transforma em ódio às massas, (há preparativos de repressão reservados para o ano de 1977) em tudo semelhantes ao que os fantoches holdenistas e savimbistas nutriam em relação ao Poder Popular ao qual tinham um ódio de morte!

Também assim se escreve a nossa história.

4º) DEBATE SOBRE A DITADURA DEMOCRÁTICA REVOLUCIONÁRIA

Ponto quente, e que por esta razão deu polémica mais ou menos acesa.

Não contam os episódios menores que a questão originou. Importa sim analisar a tese do camarada Saydi Mingas, por se ter caracterizado por um perigoso desvio de direita. Negando a terminologia ditadura democrática revolucionária por se tratar duma ditadura da pequena-burguesia, disse, optou então pela sua novíssima tese –” ditadura de vanguarda”.

De ditadura de vanguarda não nos disse nem ensinou Marx, Engels ou Lénine. Se compreendermos a ditadura de vanguarda como, sendo uma força de repressão de um número reduzido de homens, aparentemente acima das classes mas na verdade, ao serviço duma classe no poder, então, concluiremos que a História Universal já nos ofereceu exemplos de tais ditaduras, burguesas e fascistas. Tais foram e são ditaduras reaccionárias, que se abatem contra os povos e os revolucionários da época de Hitler e Mussulini.

A mesma tese é dum anti-marxismo-leninismo elementar porque ignora a relação vanguarda e classe, neste sentido, estamos em presença dum desvio de” esquerda”, dum ultra-revolucionarismo, dum arquiradicalismo pequeno-burguês. com efeito, a tese pretende demonstrar que o MPLA (e mesmo neste caso só o Comité Central e o Bureau Político, e não o MPLA como um todo com o seu Congresso, escalões e organismos) é mais revolucionário que a classe operária angolana e o seu aliado natural ( o campesinato ) bem como todos os aliados do proletariado nesta fase e etapa. No plano filosófico, a tese do camarada Saydi Mingas é voluntarista, própria do oportunismo de ” esquerda”.

Como é possível que o camarada Mingas fosse objectivamente falando, no 3º Plenário e fora dele, um dos que conseguiu e consegue ser a antítese maravilhosa do oportunismo de direita e esquerda? E com que moral me acusa de” esquerdista”, quando, na teoria e na prática, ele próprio defende o esquerdismo, o anarquismo, o arbitrarismo revolucionário e o carácter objectivamente reaccionário da tese sobre a”ditadura de vanguarda” ? Seria bom que citasse uma fonte teórica da referida doutrina.

Quem é o sujeito e objecto da ditadura de vanguarda? Do ponto de vista teórico, ideológico e da praxis,”ditadura de vanguarda”, aparentemente fora, acima das classes, na verdade só pode significar a repressão dos trabalhadores e dos revolucionários em nome e defesa dos interesses que não são os da classe operária e seu aliado natural, o campesinato. E tudo isto sob a mágica capa do marxismo-leninismo.

Para o pensamento marxista-leninista a ditadura democrática revolucionária. fenómeno particular duma lei geral e universal que é a ditadura do proletariado, representa todo um sistema único e organicamente indissolúvel composto pelo”Partido, Estado e organizações de massas”.

Em tese: a ditadura de vanguarda não dá o parto de revolução socialista, dá, isto sim, o partido duma revolução burguesa, com todas as formas reaccionárias brutais e violentas de que a polícia política duma tal ditadura faz uso.

O camarada José Van-Dúnen foi um dos que rebateu e destruiu a tese do camarada Mingas e não só, pois demonstrou o seu conteúdo contra-revolucionário. Este é o facto que levou o membro do Comité Central Saydi Mingas a dar reaccionária publicidade do nome do camarada José Van-Dúnen a quem apresentam como autor da terminologia ditadura democrática revolucionária (vide acta da Reunião do Comité Central da JMPLA), o que nem é exacto porque a expressão ditadura democrática revolucionária foi proposta por uma Comissão que trabalhou para o referido texto composta pelos membros do Comité Central Lopo de Nascimento, Lúcio Lara e eu.

O camarada Saydi Mingas concordará comigo quando afirmo que se alguma vez, neste país, fosse aplicada a ditadura democrática revolucionária os primeiros a serem julgados e severamente condenados pelo nosso Povo seriam de entre outros, os ex-dirigentes conscientes da FLEC, não é verdade? Isto não acontece assim porque vivemos na prática, um regime de”ditadura de vanguarda” e sua praxis.

Eis, em breve resumo, as teses mais essenciais que cada um de nós defendeu no 3º Plenário em relação aos pontos mais decisivos da nossa revolução.

Qual foi o comportamento dos que lutaram pela minha suspensão durante e posteriormente ao 3º Plenário?

Simplesmente miseráveis.” Podemos respirar à vontade” , disse Hermínio Escórcio saboreando um cálice de” vitoria” em conversa doméstica. O seu comentário está recheado de frases que não posso reproduzir neste documento porque o pudor mo não permite e para não mancha-lo, pois o meu argumento não deve descer tão baixo. Outros arlequins da mesma opção deram, nos seus círculos habituais, imediatamente a conhecer (violando flagrantemente decisões do Comité Central) que tinha sido nomeado uma Comissão de Inquérito e que alguns deles estavam nesta Comissão para acabar com, a “contra-revolução”. Famílias singulares foram aconselhadas no sentido de maiores cautelas e prevenidas contra o perigo do” grupo Nito”, posto que o Comité Central iria afastá-los do seu seio. Isto foi dito pelo membro do Comité Central Onambwa em casa de respeitosa família, tendo mesmo enunciado os nomes que iriam ser afastados da direcção. Estando em missão de trabalho no Leste, o membro do Comité Central Dangereaux anunciou também o afastamento dos camaradas Nito Alves e José Van-Dúnen no próximo Congresso.

Foi um verdadeiro carnaval à boa maneira do Rio de Janeiro, de forma a divertir o povo, para mais facilmente o apunhalar entre vivas!

Esta é a fantochada dos direitistas que, com todas as garras, prestaram um óptimo serviço às forças da contra-revolução. Laureados por altos serviços, alguns deles foram conduzidos ao Secretariado e ao Governo com a distinta medalha dos melhores militantes, dos que sempre cumpriram e respeitaram a linha política do MPLA.!!

E assim se vê quem se bateu pela minha suspensão e em nome de que classe o fez e quem trabalha noite e dia para o afastamento, no próximo Congresso, como é sua linguagem, dos sectores revolucionários do MPLA.

Como é que tais camaradas falam hoje em ……..Revolucionária de Vigilância ? Com que coragem o fazem. O que é isto senão demagogia?

Contudo, e na linha geral da dialéctica ofensiva desencadeada contra os sectores marxista-leninistas do MPLA, o Secretário Administrativo do Bureau Político, aproveitou o dia 10 de Dezembro na Lunda, para atacar os” fraccionistas” dizendo mesmo que há camaradas que pretendem encontrar soluções dos problemas do Movimento fora deste e que”se reúnem na casa deste ou daquele (vide discurso da Lunda por ocasião do 20º Aniversário do MPLA):
Francamente! Isto também é repressão das mais violentas, isto também é demagogia das mais violentas! Reuniões em casa deste ou daquele!…

A vigilância militante do nosso Povo desafia com sucesso a vigilância repressiva de sectores reaccionários da DISA. Assim, durante o período que precedeu a formação e publicação do segundo (actual) Governo da RPA, encontros constantes foram detectados, com a mesma frequência, na casa situada na Rua Camilo Castelo Branco, nº 14-16, Bairro de Alvalade, atrás do cinema Avis. Sabe-se que esta casa é domicílio do actual Vice-Ministro dos Transportes, Jujú. Estes encontros prolongavam-se até às primeiras horas da madrugada do dia seguinte. Como seus frequentadores contavam-se os nomes do membro do Comité Central e do Bureau Político e Secretário Administrativo do Bureau Político Lúcio Lara, o director do” Jornal de Angola” Costa Andrade (N’dunduma), o actual Vice-Ministro da Educação Pepetela, o membro do Comité Central e membro da Comissão Nacional de segurança Onambwa, e hoje membro do Secretariado onde dirige o Departamento de Orientação revolucionária e o director do Museu de Angola Abranches, este, nomeado por decisão do Bureau Político como redactor da História do MPLA ( !!!…) o actual Ministro da Defesa, Iko Carreira, membro do Comité Central e do Bureau Político, foi visto uma única vez. A última vez em que foram vistos na mesma casa (do Jujú) foi no dia 30 de Dezembro do ano passado.

Nesse dia os carros em que andaram foram assim identificados; OPEL (amarelo) com matrícula AAI-41-74, utilizado pelo Secretário Administrativo do Bureau Político; TOYOTA (cinzento) 2.000 com matrícula AME-01-61, utilizado pelo Abranches; FORD TAUNNUS XL (vermelho) com a matrícula AAF-62-15, utilizado por Onambwa.

Por estranha coincidência foi visto, no meio de tudo isto e na mesma casa, o militante da Revolta Activa Joaquim Pinto de Andrade.

Camarada Presidente

Camaradas do Comité Central

Eis aí um maravilhoso quadro do comportamento brilhante e exemplar de dirigentes, os mais disciplinados, os que melhor cumprem com a linha política do MPLA!

Mas, pergunto, a casa do Jujú é a rede do MPLA ou a sala especial de reuniões especiais do MPLA? O camarada Presidente Neto terá conhecimento dessas reuniões? Qual é o verdadeiro objectivo dessas reuniões que se prolongam até às primeiras horas do dia seguinte? Que estratégia é esta? O porquê da coincidência do compatriota Joaquim Pinto de Andrade nacionalista consequente da etapa da luta anti-colonial? Não estamos em presença da verdadeira fracção de direita no seio do MPLA ? Como é que membros do Comité Central e do Bureau Político, os que mais lideram a feroz campanha contra o”fraccionismo” se reúnem deliberada e conscientemente na casa do Jujú? A quem foram entregues os relatórios de tais reuniões? Que nome tem isto se não o verdadeiro militante e actuante fraccionismo e divisionismo?

Camarada Presidente

Camaradas do Comité Central

Os nomes dos militantes que realizaram esta tarefa de defesa intransigente da nossa revolução devem ser defendidos da brutal repressão da direita – que poderia ir até ao seu possível aniquilamento físico tendo em conta a natureza da revelação e o golpe que isto representa na estratégia das forças que, no plano da nossa História, sabê-mo-lo hoje mais do que nunca, foram sempre, na esteira política da Primeira Guerra de Guerrilhas contra o colonialismo português, forças políticas essencialmente anti-Neto, há que dize-lo com coragem. Por esta razão só no Congresso ou por circunstâncias especiais é que me reservo o direito revolucionário de revelar os nomes desses verdadeiros heróis e militantes da nossa revolução.

Camarada Presidente

Camaradas do Comité Central

Esta minha análise crítica, relativa aos trabalhos da IIIª Reunião Plenária do Comité Central pretende não só demonstrar a urgente necessidade de se desmascarar o oportunismo de direita há muito instalado no nosso Movimento e cujo adiamento não seria possível à luz dos condicionalismos históricos do processo revolucionário angolano, nas acima de tudo aclarar (aquilo) o que , provavelmente é já do conhecimento dos nossos militantes, isto é, que existe um grande fosso a separar as revolucionárias decisões finais e a relação de forças predominantemente favoráveis à santa-aliança contra-revolucionária.

Impõe-se pois, que uma vez mais com o Camarada Presidente se levante a interrogação:

“Que forças sociais estariam interessadas no afastamento e suspensão do camarada Nito Alves, quer para fora de Angola, quer em relação ao Comité Central ou Governo?”

- Categoria 13 Teses

Comentários

Comentários fechados.