12 - CONCLUSÃO FINAL (1)
01.02.2004
AS CAUSAS REAIS E OBJECTIVAS DAS NOSSAS DIVERGÊNCIAS NOS PLANOS FILOSÓFICO, IDEOLÓGICO, ORGANIZATIVO E HISTÓRICO. A DUALIDADE DE CRITÉRIOS DE DISCIPLINA
Finalmente, no fim deste texto talvez excessivamente longo mas necessário e de acordo com o método lógico que tenho estado a fazer uso, já é natural e racionalmente possível, com pleno conhecimento de causa, enfocar as verdadeiras origens das nossas divergências e contradições.
Tudo aconteceu sob o inevitável influxo das leis objectivas do desenvolvimento histórico à luz do materialismo histórico. Não há nada de fetichismo no meio de tudo isto. Estamos pura e simplesmente em presença de fenómenos objectivos inerentes à dinâmica e dialéctica do movimento de libertação nacional, à dinâmica da ampla frente anti-imperialista, à opção socialista.
Assim, a metodologia marxista-leninista permite destacar as causas básicas das nossas divergências e contradições, e podemos distribui-las do seguinte modo:
a) NO PLANO FILOSÓFICO
– a ignorância ou não aplicação por parte de muitos quadros dirigentes e de estruturas completas conduziu inevitavelmente à negação objectiva da metodologia científica. O subjectivismo, o eclectismo, a metafísica e mesmo ainda o sincretismo de muitos quadros dirigentes substituiu-se à dialéctica subjectiva (movimento de conhecimento) que deve reflectir a dialéctica objectiva ( movimento de matéria ).
Com efeito, se partirmos da definição de Lénine sobre a matéria,”toda a realidade objectiva que nos é dada pelas sensações”, logo, concluímos que o próprio MPLA é, neste sentido filosófico, ele próprio matéria.
Neste sentido, o actual estado miserável do nosso movimento em matéria de organização, o estrangulamento e violação sistemática do centralismo democrático, são uma realidade objectiva que existe no MPLA independentemente da consciência e vontade dos seus militantes e dirigentes, queiram ou não os membros do Comité Central. Ora, as três grandes formas universais da existência da matéria são o movimento, o espaço e o tempo. Quer dizer que toda a matéria, como categoria filosófica que exprime a realidade objectiva, só pode existir em movimento ocupando espaço e tendo vida temporal. A matéria tem existência independente, não depende da consciência e vontade do homem, posto que o mesmo homem é por sua vez matéria, a sua forma superior de existência, organização e desenvolvimento, captando-o no espaço e localizando-o no tempo.
É impossível esta sensação, percepção e representação sob o MPLA, sem operarmos mentalmente com a relatividade do movimento espaço e tempo. E aqui entram em campo os princípios, categorias e leis do materialismo histórico, pois o MPLA é um fenómeno político, social e histórico.
Pelo exposto, conclui-se que os nossos juízos acerca do MPLA só são rigorosamente verdadeiros quando enfocamos as características essenciais e distintas de cada fase e etapa do nosso processo revolucionário, em termos tácticos e estratégicos.
Fora desta metodologia e técnica científicas, os nossos juízos são e serão falsos, serão inverdades, produto do”eu” subjectivo, do solipsismo, do preconceito, resultado do idealismo subjectivo do investigador. Este procedimento é próprio dos agnósticos – e há -os muito dentre os quadros dirigentes do MPLA. Em tais circunstâncias se confunde o verosímil com o verdadeiro.
É aqui que meus juízes devem fundamentar a acusação do requisitório comum do Secretário Administrativo do Bureau Político e todos quanto pensam como ele.
A esta respeito, Engels observa criteriosamente sito:
“Se um dos dois actua segundo a verdade e a ciência e o outro segundo superstições e preconceitos, normalmente ocorrerão perturbações nas suas relações recíprocas, e, em todo o caso, a um certo grau de incapacidade, de brutalidade ou de perversidade de carácter, o conflito será inevitável.” (33) O sublinhado é meu.
Lénine nunca desligou a política da psicologia. Sabia-o mais do que ninguém que a conduta política do militante, do quadro e do dirigente, poderia ser determinada constante ou casualmente pelo seu carácter. Assim escrevia ele:
“Depois de muito tempo constatou-se que os defeitos dos homens se ligam em grande parte às suas qualidades. Tais são os defeitos de numerosos dirigentes comunistas.” (34)
Estas duas citações dizem tudo acerca da base filosófica das nossas contradições.
Como é que não haveria perturbações e contradições entre nós se partimos de bases metodológicas diferentes? Os camaradas membros do Comité Central que se atiraram com fúria e paixão sobre mim, fizeram-no a partir de que princípios filosóficos? Qual é a filosofia que norteia a vossa conduta, o vosso papel de dirigentes? Não é ilustrativa a contradição dialéctica entre o carácter sincrético, metafísico, hegliano e maoísta que enferma a mentalidade de muitos dirigentes do MPLA, dum lado, e o pensamento de Marx, Engels e Lénine, doutro lado?
A acrescentar a este mal, está o carácter de cada um de nós, com o seu fundo temperamental, que torna às vezes, muito mais difícil, o trabalho colectivo, a colegialidade revolucionária, etc.
Evidentemente, tudo isto deve ser encarado não de modo estático, mas dinâmico, em desenvolvimento, modificação e transformação, a superação constante do velho pelo novo. No mundo nada foi dado de uma só vez para sempre. Tudo flúi. O próprio carácter e temperamento modifica-se constantemente segundo leis históricas e outras.
De resto, a continuarmos nesse ritmo e estilo, uns tenderão a enganar permanentemente os outros e, segundo Engels na passagem atrás referida,”a um certo grau de incapacidade, de brutalidade ou perversidade de carácter” uns camaradas dirigentes no Comité Central tenderão a mandar para a forca, fuzilamento ou prisão outros camaradas, militantes ou quadros que são verdadeiramente revolucionários, só porque estes superam-se quotidianamente, no plano individual, do ponto de vista, político e ideológico.
Se repararmos bem o fundo das campanhas de intoxicação em curso contra algum de nós, na rádio, imprensa, TPA e no” Angola Combatente”, facilmente concluiremos que a incapacidade e, a brutalidade da santa aliança das forças de direita com os maoístas, assinala a perspectiva de carácter de alguns dirigentes do Comité Central, está a preparar as condições para a formação duma óptima a receptiva opinião para actos verdadeiramente contra-revolucionários.
O sentimento interior de frustração, a consciência que cada um tem de si em matéria de frustrações pode obriga-lo, em determinadas condições concretas, a descarregar cega e brutalmente contra as” suas vítimas”.
O povo de Angola, os trabalhadores angolanos, a classe operária angolana, os camponeses, a intelectualidade revolucionária, as Comissões Directivas do MPLA, os organismos de massa do MPLA - a JMPLA, a OMA, a UNTA -, os representantes do Governo Central nas Províncias, têm de estar vigilantes contra estas manobras, verdadeiramente criminosas, sob a bandeira da luta contra um pretenso fraccionismo de que estaríamos na origem, manobras que só favorecem a reacção e o imperialismo mundial.
A direcção da DISA, no seu terror de polícia política e para a santa caçada” às bruxas” utiliza o seguinte sofisma:
Todos os que falam do Nito Alves devem ir parar à prisão
O militante x fala do Nito Alves
Logo, o militante x deve ir para a prisão
Que brilhante capacidade de raciocínio!
A lógica, nos seus princípios estruturais, não tolera semelhante absurdo. A direcção da DISA, abstraindo-se até do carácter classista que qualquer aparelho de Segurança, devia já ter sabido, pela magnitude, delicadeza e complexidade da sua missão e papel no processo revolucionário, que o silogismo é por si só um princípio da sofística e esta é , em última instância, o próprio método do idealismo. E o carácter reaccionário do silogismo manifesta-se com toda a evidência, sempre que as premissas são falsas. É exactamente isto que ensinam, D.P.Gorski e P.V.Tarvants, na sua obra intitulada LÓGICA:
“…embora que a observância das leis da lógica é condição para a obtenção da verdade mediante o raciocínio (…), esta condição por si mesma é insuficiente; há de dar-se além do mais, premissas verdadeiras.” (35)
O sofisma que a DISA elaborou e colocou nas mãos dos seus agentes para a caçada ” dos chamados pró-Nito” é logicamente inconcebível, política e ideologicamente reaccionário. Como construção mental revela a tacanhez dos sues autores. Como é que se pretendem conclusões revolucionárias a partir de premissas reaccionárias e cavilosamente montadas e por isso mesmo impregnadas de toda a toxina de falsidade?
Contudo, um batalhão do sector provocador e contra-revolucionário da DISA, a exemplo de uma” matilha que se atiça às canelas” foi largado em Luanda, em especial, e por todo o país, em geral, com a missão de caçar os chamados” pró-Nito”. Confundem oportunistamente deste modo reaccionários com revolucionários e com isto, a oportunidade de estrangulamento dos marxistas-leninistas que pretendem e lutam sinceramente por ser ortodoxos. Devo declarar diante do nosso Povo que a nossa história regista, com todos estes casos dolorosos, uma etapa de verdadeira repressão. Aquele sofisma serve portanto, de resto funciona como instrumento de acção nas mãos da polícia política, para reprimir os militantes, intimidar as amplas massas trabalhadoras, destroçar os revolucionários, numa palavra sabotar a revolução que é deste modo apunhalada traiçoeiramente por dentro.
Mas, se as conferências de Dezembro dadas pelos camaradas professores soviéticos aos membros do Comité Central valeram de alguma coisa, importa sublinhar e recordar aqui o que então foi dito acerca da sofística:
“Neste sentido, o método da dialéctica materialista opõe-se a toda unilateralidade, ecletismo e sofística. O ecletismo admite uma combinação, carente de consequência e de princípios, de concepções heterogéneas que, com frequência, se excluem mutuamente. Ele substitui a análise dialéctica das conexões por um esquema formal das”conexões em geral”, por uma combinação mecânica de elementos heterogéneos. A sofística é um raciocínio falso baseado em argumentos ambíguos e falsos. Faz caso omisso do mais essencial do fenómeno e arranca alguns dos seus aspectos e conexões para transferi-los para outros fenómenos, obstaculizando, assim, a revelação da sua verdadeira essência.” (Esta passagem pode ler-se literalmente na página 9 do Texto de Filosofia 3, Os Princípios Metodológicos do Conhecimento Científico e de Acção a Revolucionária.).
E.OTTO V. KUUSINEM, escreve conjuntamente com os seus colegas na elaboração do Manual de Marxismo-Leninismo:
“O marxismo ainda tolera menos a mínima tentativa de formar a verdade científica em benefício das necessidades do momento.
O espírito de partido do marxismo opõe-se a que se violente a objectividade da investigação e se deformem os factos, sejam estes quais forem.”(36)
Ora no MPLA e no aparelho de poder de estado de RPA, apercebe-mo-nos quotidianamente, da acção perniciosa dum Secretário do Bureau Político e uma direcção da DISA que, incapazes de investigação científica, mutilam factos, deturpam acontecimentos, violam a objectividade, enfim no interesse de destruir militantes imbuídos da doutrina revolucionária golpeiam a alma do marxismo-leninismo.
Para conseguirem os seus intentos inconfessados, deitam mãos à única arma que possuem: o ataque pessoal, a intriga, a calúnia e a difamação, a desinformação, as campanhas de intoxicação de massas impregnadas com todas as toxinas da contra-revolução.
b) NO PLANO IDEOLÓGICO E ORGANIZATIVO
Fácil é concluir que o que se passa é um dos momentos da luta ideológica no seio da frente anti-imperialista que é o MPLA, uma vez proclamada a opção socialista e o marxismo-leninismo como o nosso guia. A diferença entre as palavras e os actos, quando falamos de hegemonia da classe operária. Como é que isto se materializa em Angola, à luz dos nossos diversos condicionalismos. O que nos é dado a observar é o detrimento do trabalho de formação e organização da classe operária, em favor duma política de recuperação de pequeno-burgueses inveterados e oportunistas.
Vemos um empenho que daqui a x anos, nos daria um Partido eclético, onde a social-democracia e os maoístas teriam o ascendente, podendo adivinhar-se as consequências prováveis que daí decorreriam: o anti-sovietismo campeia muito habilidosamente. Para esta opção, a nossa aliança com o campo socialista mundial, em especial com a União Soviética é mera questão de táctica e não de estratégia global do movimento revolucionário mundial. Basta ver as ameaças que se fazem em relação aos” novos Paivas” (pró-soviéticos, agentes de Moscovo). É a luta entre as tendências conservadoras e revolucionárias no seio da frente. É a tentativa de as forças decadentes e conservadoras se substituírem às massas, o medo destas. É o desconhecimento total da teoria geral da Organização. A atitude paternalista e tutelar perante as massas e os organismos e escalões do Movimento. A intenção real de não realizar a classe operária e todos os trabalhadores. A teoria oportunista de se identificar a democracia revolucionária com as massas, quando aquela é na teoria a na prática, simples representante destas. A perseguição feroz contra camaradas que passaram a ser” homens –sombra”, revolucionários perigosos.
Para que se faça uma ideia exacta desta luta ideológica, e a título ilustrativo, apresento alguns casos concretos.
Falando para a revista Afrique-Asie, em número especial de 11 de Novembro (1976), o Secretário Administrativo do Bureau Político diz ali clara e expressamente que o no MPLA há uma” coabitação de classes” , isto para não descermos a detalhes que uma crítica a propósito atenderia na análise global da referida entrevista.
O que é isto de” coabitação de classes”? Que teoria é esta e qual o seu conteúdo científico? Quais são as fontes desta ideologia ? O Secretário Administrativo do Bureau Político deveria indicá-las.
Aparentemente, esta teoria revisionista aparece-nos como algo de novo no quadro geral das construções ideológicas do revisionismo moderno. Na verdade, a teoria de” coabitação de classes” é sinónimo da velha teoria do socialismo pequeno-burguês do francês Proudhon, a teoria da” colaboração de classes”. Em filosofia marxista-leninista não há diferença de conteúdo ideológico entre” coabitação” e” colaboração”, são sinónimos literalmente falando.
Não há ….. ao possível em contrário: a doutrina do sistema de ideias em” coabitação de classes” pode ser tudo menos marxismo-leninismo, pode ser teoria marxisante, uma” especulação ébria” , mas no fundo, equivale a” apostasie ideológica”. Com efeito a táctica do revisionismo moderno consiste exactamente em utilizar uma nova terminologia para enroupar o velho revisionismo, e também o velho socialismo utópico.
Mas, o que caracteriza o socialismo pequeno-burguês é o tratamento ideológico que os seus ideólogos reservam aos camponeses a quem reconhecem, utopicamente, virtudes que no pensamento de Marx e Engels e confirmado pelo pensamento e prática de Lénine, pertencem, num critério objectivo de caracterização dialéctica, à classe operária.” Tal como os iluministas franceses – escreve Konstantine Zaródov – (os socialistas utópicos), não pretendem, primeiro, emancipar uma classe, mas logo toda a humanidade. Os socialistas utópicos confiavam em realizar o seu ideal socialista de uma maneira paulatina – mediante a persuasão.”
Eis um dos parâmetros da teoria de” coabitação de classes” do Secretário Administrativo – Lúcio Lara.
Mas o proudhonismo é hoje um problema que diz respeito ao revisionismo internacional moderno, da moderna social-democracia internacional – cooperação das classes para a construção do” socialismo”. Eis o verdadeiro perigo ideológico para o MPLA. E aqui há que se travar uma luta ideológica, há que abrir bateria de ataque, demolir estes castelos nacionais do revisionismo internacional. Há que destruir a concepção idealista do” socialismo de rosto humano”.
Ora, o 3º Plenário do Comité Central condena os que lançam a” confusão ideológica” e o próprio Secretário Administrativo do Bureau Político tomou parte activa neste debate.
Mas isto de” coabitação de classes”, o que equivale à paz e harmonia entre classes, o que significa essencialmente a negação da luta de classes, o que conduz à negação da alma do marxismo-leninismo, tudo isto não é mais do que uma confusão ideológica ? Neste sentido, o próprio Secretário Administrativo do Bureau Político é um dos agentes activos e militantes da confusão ideológica. Porém, é muito mais do que isto – é o ideólogo do proudhonismo em Angola objectivamente falando. Vive-se, em Angola, uma época de propositada e planificada diversão ideológica.
“Lénine caracterizou o pruodhonismo de” teoria do pequeno-burguês e do filisteu obtuso” , incapaz de colocar-se no ponto de vista da classe obreira. As ideias do prouduonismo são utilizadas em grande escala pelos” teóricos” burgueses para defender a colaboração de classes.” (37)
O Secretário Administrativo de Bureau Político, não venha dizer que não deu a entrevista.
Entorpecendo a correcta compreensão dos nossos jovens, o camarada Saydi Mingas, que me acusa de saber menos marxismo-leninismo do que ele, explicou com profundas distorções e à sua moda a questão da Ditadura Democrática Revolucionária de que Lénine trata em Duas Tácticas da Social-Democracia na Revolução Democrática. Atribui a Lénine afirmações, que nunca foram dele. Apresentou, explicando a essência das Duas Tácticas, um conteúdo estranho ao que lhe atribuiu o seu genial autor.
“Lénine definia que a Ditadura Democrática Revolucionária – diz aquela membro do Comité Central – era uma fase do processo revolucionário para a tomada do poder pelas forças progressistas. Lénine dizia que a classe que deveria exercer a ditadura democrática revolucionária – confirma o” mestre” do marxismo-leninismo – seria o proletariado, seria a pequena-burguesia revolucionária, dentro do contexto da tomada do poder pela mesma pequena-burguesia.”
Eis a sábia lição que o camarada Saydi Mingas brindou a JMPLA aquando da reunião extraordinária do Comité Central daquela organização de massas do MPLA. E não venha dizer que não afirmou isto perante o Comité Central da JMPLA, tentar por malabarismos oratórios, dar o dito por não dito, porque estas afirmações estão gravadas em fita magnética. Esta fita possui ainda parte que não foi reproduzida, porque aquela membro do Comité Central pediu sigilo sobre a questão e exijo que a fita seja totalmente ouvida por uma comissão de Comité Central, (vide acta do Comité Central da JMPLA ).
Esta lição ignora o que Lénine disse sobre o conteúdo e formas de luta e o objectivo na sua obra. É uma explicação que falseia a obra e lança a confusão ideológica na massa juvenil e no seio dos militantes e da Organização em geral. Lénine tinha em vista aquilo que aquele membro do Comité Central estropia e ignora. Mas além disso, o camarada Saydi Mingas idealizou a sua tese sobre a ditadura de vanguarda, cuja crítica ficou nas páginas anteriores. Isto não é suficiente para lançar a confusão ideológica o camarada Saydi Mingas poderá indicar aos militantes as fontes teóricas da sua concepção ideológica?
Esta estranha tese em relação ao marxismo-leninismo, equivale a uma doutrina heterocíclica e o seu conteúdo é a confusão entre os conceitos vanguarda e classe.
E falando de vanguarda e classe e dos seus vínculos internos, Lénine escreveu:
“O partido marxista – ensinava Lénine – é uma parte da classe obreira, seu destacamento de vanguarda, o partido não pode confundir-se com toda a classe e se cria mediante a selecção dos melhores homens e mais fiéis à revolução.” (38)
Confundir a vanguarda, o partido com toda a classe, ou destacar uma estranha ditadura do partido (fora e acima ou abaixo ou de lado?) da classe, é ao mesmo tempo uma manifestação de radicalismo pequeno-burguês um desvio anarquista e”esquerdista” dum lado, e evidente oportunismo de direita, por outro, é uma maravilhosa síntese do duplo oportunismo.
Todas estas aberrantes teses entorpecem a correcta formação e educação política e ideológica dos militantes e da classe operária, lança a confusão total na massa militante.
E mais.
Falando para um auditório com cerca de quinhentos presentes no”Acto de Ingresso das Brigadas de Alfabetização Hoji Ya Henda” o Secretário Administrativo do Bureau Político afirmou a dado passo:”a escola secundária que herdamos não serve para nada ao nosso povo”, (esta expressão vem em letras garrafais na primeira página do” Jornal de Angola” no dia 14 de Janeiro do ano em curso. E mais adiante disse:” Ora nós não podemos deixar de pensar que há muitos electricistas operários portanto, trabalhando hoje, ou talvez estejam desempregados, que com relativa facilidade, com maior facilidade que qualquer de vós, estaria mais rapidamente em condições de substituir o engenheiro electrotécnico, ou aquilo a que se chama auxiliar electrotécnico”. (vide palavras textualmente assim impressas na página dois do referido número daquele jornal).
À primeira vista nada de mal está contido neste pensamento. Mas, se analisarmos profundamente o conteúdo político-ideológico desse pensamento do Secretário Administrativo do Bureau Político compreenderemos à luz do marxismo-leninismo, que está aí com toda a evidência, a ideologia do maoísmo, portanto, um dos princípios dos maoístas. A vulgarização e popularização da ciência é nota característica do maoísmo e dos maoístas, A tese, assim enunciada pelo Secretário Administrativo do Bureau Político é, em termos ideológicos, uma tese populista, é populismo de” esquerda” . Com efeito, Lénine nunca ensinou isto, nunca disse que”com maior facilidade, qualquer operário electricista estaria em melhores condições de substituir qualquer engenheiro electrotécnico ou auxiliar electrotécnico. A história já provou que foi com tais populismos e vulgarizações do marxismo-leninismo que o maoísmo, confeccionando a sua própria” revolução cultural” traiu a essência da própria revolução chinesa. Essa tese reflecte bem uma das variantes do esquerdismo, do radicalismo pequeno-burguês em matéria da reconstrução nacional.
Mas, para demonstrar o carácter harmonioso desta concepção maoístas da revolução no pensamento do Secretário Administrativo do Bureau Político, haja em mente a recordação dum outro tema que o mesmo desenvolveu, em Dezembro do ano findo, na Faculdade de Medicina da Universidade de Luanda por altura da inauguração da banca do militante. A certo passo, referiu a necessidade de destruição da velha universidade colonial, arrasando com todos os seus elementos de cultura e ciência, era preciso”fazer isto com uma buldoza e começarmos do zero”. Esta magistral lição foi transmitida pela TPA.
Ora, esta noção de destruição é própria do mecanicismo, não tem nada a ver com a noção dialéctica marxista-leninista de destruição, ou seja, a teoria da negação da negação de que nos ensina Engels no Anti – Duhring.
Eis outra face do membro do Bureau Política Lúcio Lara, face em que ele se identifica plenamente com o maoísmo, portanto, com a concepção do mundo e da revolução “socialista” segundo os maoístas. Importa ainda dizer que a tese do operário electricista que com relativa facilidade, (…) estaria mais rapidamente em condições de substituir o engenheiro electrotécnico é, no fundo, na essência, uma tese anti-internacionalismo proletário porque, sendo uma ideologia do chauvinismo nacional, isola o país da ajuda incondicional do internacionalismo que vem do campo socialista mundial e do movimento operário mundial. Noutros termos a tese em questão é uma derivada da teoria de”contar com as nossas próprias forças” que é maoístas em excelência.
É curioso notar que as duas declarações do Bureau Político, uma feita por ocasião do 11 de Novembro (passado), outra por altura da comemoração do 4 de Fevereiro (deste ano), fez-se em qualquer uma delas uma menção destacada a esta teoria reaccionária, fazendo apelo à classe operária e a todos os trabalhadores para a observância desse princípio (maoísta). Na redacção da Declaração do 4 de Fevereiro é mesmo dito, contar essencialmente com as nossas próprias forças. Quem estuda, analisa e critica tais declarações encontra em ambas uma profunda dose do maoísmo, há na última, palavras e expressões textuais de Mao Tse Tung.
Uma investigação a respeito da Declaração de Novembro, diz-nos que o corpo global do mesmo, é semelhante (até na redacção!) a uma circular do DOP posta a circular antes do 11 de Novembro. Que estranha coincidência. Mas sabemos que o DOP e o DIP (foram ou são, com outro nome) o ninho privilegiado dos maoístas.
É tempo de perguntar: quem é o verdadeiro responsável pela redacção das Declarações do Bureau Político. O Comité Central tem o direito de perguntar isto ao Bureau Político e responsabiliza-lo. Quem é que escreve tais declarações? É uma interrogação que exige resposta, obrigatória e dentro da perspectiva única em que a pergunta é formulada.
Ora, parece-me que depois da conferencia dada pelo professor Massilla, na cadeira de Economia Política, e exactamente sobre Economia de Transição, conferencia escutada por grande número de membros do Comité Central, todas as dúvidas e teimosias caíram por terra. Foi dito que a teoria de socialismo”contar com as nossas próprias forças” é um estúpido anti-sovietismo. A razão é bastante simples. Segundo a doutrina marxista-leninista disse o conferencista, a teoria de”contar com as nossas próprias forças” é economicamente reaccionária e politicamente é nacionalismo, dos mais estreitos acrescento eu.
Ora, estamos em presença de duas concepções diferentes sobre a revolução socialista. Mas não há duas teorias distintas que conduzam ao socialismo científico. Marx e Engels fundaram esta teoria, Lénine enriqueceu-a, fundou e construiu o primeiro país socialista do mundo – a União Soviética. Sem a experiência histórica da construção do socialismo na União Soviética sob a direcção do PCUS, sem a experiência do campo socialista mundial é impossível literalmente falando a construção do socialismo a partir do nada, do zero, da invenção artificial, em tais condições estaremos diante dum socialismo utópico.
Em conclusão, se não há duas teorias distintas para a construção do socialismo, mais exactamente se o maoísmo não conduz ao socialismo científico, logo é de concluir que a revolução angolana não pode ter dois líderes diferentes; um, o Camarada Neto, defensor do socialismo científico fundado por Marx, Engels e Lénine e outro, o Secretário Administrativo do Bureau Político defensor do maoísmo. Isto decorre da seguinte premissa histórico-científica; Não há dois socialismos. O socialismo ideal é uma utopia reaccionária.
Em suma, o que se passa no Comité Central é o reflexo inevitável da contradição fundamental no seio do MPLA – a luta entre o marxismo-leninista e o revisionismo de direita e de” esquerda”, que, em última análise, a contradição fundamental entre a aliança operário-camponesa com a pequena-burguesia e a média burguesia. Eis a essência objectiva das nossas divergências e contradições.
Última Manifestação do Anti-Comunismo e do Anti-Sovietismo Militante.
Falando na sua qualidade de professor da cadeira sobre história do MPLA perante os responsáveis políticos – Comissários – da DISA em cada Província, o Secretário Administrativo do Bureau Político Lúcio Lara, na aula do dia vinte e nove de Dezembro do ano passado, tratando do tema da atitude dos países socialistas para com o MPLA ao longo da Primeira Guerra de Libertação Nacional, disse a dado passo:”nem sempre os países socialistas nos souberam compreender nas horas mais difíceis da luta armada; uns chegaram mesmo a impor-nos uma condição da sua ajuda ao MPLA”. Continuando, o professor da História do MPLA enumerou países socialistas seguida da caracterização do comportamento de cada um deles face ao MPLA – falou de todos os países socialistas da Europa e, com habilidade que o caracteriza não se referiu expressamente à União Soviética. A concluir a lição, apelou por isso mesmo a atenção dos estudantes, ensinando-os que era necessário terem muito cuidado porque o comportamento dos países socialistas nem sempre foi o melhor e que,” no fundo toda a política é uma acção comercial”. Os estudantes do curso não hesitarão em desmascará-lo em qualquer ocasião.
Vou enquadrar antes de mais esta lição no seu devido tempo e espaço.
Quanto ao tempo, a lição é posterior às decisões do 3º Plenário do Comité Central, que incluíam entre outras, a recomendação da constituição duma Comissão para os trabalhos da elaboração da História do MPLA. Por decisão do Bureau Político é um dos componentes da referida comissão. Ora em termos, de disciplina até, constitui uma grave indisciplina em relação ao 3º Plenário do Comité Central já se vê que a História do MPLA sairá daquela Comissão com um historiador assim.
Quanto ao espaço, esta nociva lição do anti-comunismo e do anti-sovietismo militante enquadra-se no espaço que vai do 3º Plenário do Comité Central ao 1º Congresso do MPLA, Congresso da Fundação do Partido. No estado actual, o papel de condutor ideológico desse Partido está atribuído ao Secretário Administrativo do Bureau Político, que, na prática, materializa todo o sistema de ideias da sua concepção de partido. Daqui se pode ver o tipo de partido, qual a natureza, qual é o conteúdo ideológico do partido que o Secretário Administrativo quer fundar em Angola.
Em ambos os casos, isto é, quer a relatividade do tempo, quer a do espaço, importa dizer que tudo isto é feito quando temos em Angola a presença do campo socialista mundial cujo internacionalismo está patente no seu engajamento nos dias anteriores ao 3º Plenário do Comité Central. Isto para não particularizar o papel decisivo de Cuba e da União Soviética na última guerra contra as formações militares dos exércitos pró-imperialistas e racistas do Zaire e da África do Sul.
Mas, qual é a crítica que deve ser feita, no plano do marxismo-leninismo, a essa lição do anti-comunismo e do anti-sovietismo do Secretário Administrativo do Bureau Político?
Vou fazê-la.
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