4 - UNIDADE NACIONAL
01.02.2004
Outra acusação que os nossos ideólogos do”socialismo nacional” formulam contra mim é a de que eu defendo um ponto de vista anti-nacional. Mais concretamente, fazem notar que os meus discursos afastam de frente anti-imperialista a pequena-burguesia.
O argumento prima pela falta de lógica pois que confunde dois fenómenos embora em interligação dialéctica. Assim, a teoria da unidade da nação é equiparada à teoria das alianças!
Que miséria de raciocínio!
Todo o estudioso sabe que a ciência moderna jamais resolveria os grandes e complexos problemas que são hoje colocados no domínio da física moderna se os cientistas da nossa geração teimassem cabeçuda mente a resolvê-los a partir das leis da geometria euclidiana. Está, na prática real dos nossos dias, a extinguir-se nas matemáticas clássicas e o método da teoria de conjuntos, o conceito do número irreal e do infinitamente grande ou pequeno, vem, tudo isto , em conjunto, substituir velhos e ultrapassados teoremas em voga, do século XVII ao XIX.
O que não sabem os meus acusadores é que”como tudo no mundo, as possibilidades desenvolvem-se : umas crescem, outras extinguem-se.” (17)
A questão da unidade nacional só pode por isso mesmo ser abordada a partir duma única possibilidade – a possibilidade que nos é dada pelo materialismo histórico. Quer dizer, que não é com base nas posições do chamado humanismo universalista dos séculos passados que devemos resolver a problemática da unidade nacional angolana, tal como desejam e defendem os oportunistas da direita.
O combate ao tribalismo e ao racismo será pura demagogia se visto e concebido fora do processo do desenvolvimento das forças produtivas, mais ainda, fora da política da transformação real das relações de produção de tipo capitalista ou feudal. Esta é uma questão de princípio.
O nacionalismo é uma ideologia e uma política.
Tal como ensinaram os clássicos, a justa preocupação pela unidade nacional não exclui, também, nos dias de hoje, a luta da classes no seio do povo, de tal modo que sem ela não há uma sólida e verdadeira unidade nacional. Assim, a unidade nacional se constrói a partir da luta e as manifestações concretas de que se revista tal ou qual país.
Lénine, em DUAS TÁCTICAS DA SOCIAL – DEMOCRACIA, cito:
“Marx fala do”povo”. Mas sabemos que lutou sempre , sem dó nem piedade contra as ilusões pequeno - burguesas da unidade do”povo”, da ausência de luta de classes no seio do povo. Ao empregar a palavra”povo”. Marx não escondia com esta palavra a diferença de classes, mas unificava determinados elementos capazes de levar a revolução até ao seu termo.” (18) O sublinhado é meu.
Fácil é ver que Marx não confundia a palavra”povo” com a palavra nação, e, por consequência, Marx não entendia que a luta de classes no seio do povo enfraquecesse a unidade nacional, antes pelo contrário. A tese inversa é a negação do Marxismo.
Ora , se estas são as minhas convicções filosóficas fundamentais com que direito, com que moral, e sobre que fundamento se servem os meus caluniadores para me ofertarem uma teoria e uma prática que não é minha? As intenções devem ser outras e hei-de demonstra-las.
Quando se constrói uma nação como a angolana, qualquer insuficiência teórica, qualquer deformação dos princípios científicos (a sua utilização unilateral) conduz inevitavelmente ao tribalismo e ao racismo, há que dizê-lo com coragem.
Em linguagem concreta, eu afirmo que Angola é, das antigas colónias portuguesas, o país com a pequena-burguesia mais numerosa e influente. A razão é simples – é em Angola que o imperialismo investiu – e ainda investe – o máximo dos seus recursos para impedir o avanço da luta de libertação nacional e, hoje, para derrubar a revolução em marcha. Para isto, o sistema colonial - capitalista do imperialismo teve necessidade de criar rapidamente em Angola uma larga camada social privilegiada – a pequena-burguesia burocrática – principalmente para servir os seus interesses monopolistas.
Com efeito, há em Angola tantos nacionalismos quantas consciências sociais existentes em ordem a cada uma das formações económicas e correspondentes formas de conceber o mundo.
Em perspectiva de desenvolvimento histórico, o chauvinismo nacional de origem pequeno - burguesa constitui a antítese do patriotismo proletário e por consequência o oposto do internacionalismo proletário.
A base social do tribalismo, do racismo, do anti-sovietismo, da contra-revolução no Terceiro Mundo, é maioritariamente constituída por esta camada social. O maoísmo ideologia essencialmente pequeno - burguesa, comporta o chauvinismo nacional e veste-o com fraseologia de”esquerda”.
Em o Nacionalismo, Ideologia e Política, S. Agaiev e Y.Oganisian escrevem, cito:
“Todavia, a unidade Nacional dos povos em luta contra regimes sociais ultrapassados, pela independência nacional e pelas transformações sociais, não se forma de um modo espontâneo, de” per si” mediante a simples soma das forças participantes na luta. Esta justa posição é impossível porque cada uma delas traz um conteúdo social à ideia de unidade nacional consoante a sua situação; cada uma promove uma concepção do nacionalismo correspondente às suas finalidades políticas. Por isso , a unidade anti-colonial da nação alcança-se no processo de uma luta dramática, regra geral prolongada, entre estas forças, pela supremacia nos movimentos nacionais. A plataforma ideológica - política da força que consegue obter a direcção da luta de emancipação constitui o núcleo da ideologia do movimento nacional. Isto é confirmado pela experiência histórica de qualquer país emancipado.” O sublinhado é da minha iniciativa.
E mais adiante afirma:
“Hoje, é mais infundada que no passado a identificação do nacionalismo com a ideologia do movimento nacional - libertador, porquanto isto conduz à justificação das formas caducas da unidade nacional, que não correspondem às novas condições de luta.” Fim de citação. Tomei a liberdade de sublinhar.
E quando se trata da unidade nacional com as camadas privilegiadas , herdadas do colonialismo, e sem nenhuma participação nas duas lutas anti-colonial e anti-imperialista, a coisa complica-se ainda mais, o que é o nosso caso concreto.
Eis a minha convicção fundamental sobre a unidade nacional e a minha prática reflecte rigorosamente esta forma de conceber a nossa unidade.
A pequena-burguesia tem representado de certa forma um papel político muito importante. Esta camada social tem uma relativamente elevada consciência da opressão imperialista e constitui uma força revolucionária a considerar. Alguns dos seus elementos são susceptíveis de passar pelas posições políticas e ideológicas da classe operária e de lhe fornecer uma parte dos seus quadros.
Todavia esta pequena-burguesia apresenta todas as ambiguidades habituais a esta camada social, oscila entre a exaltação e por vezes mesmo o aventureirismo esquerdista e o desânimo ou capitulação. Mas importa, contudo, não nos esquecermos de que durante o período de ocupação estrangeira ela forneceu os quadros locais ao poder colonial e acima de tudo julgamos ser de realçar que mesmo depois da independência política tem vindo a manifestar fortes tendências para constituir-se em casta burocrática do Estado para manter os seus privilégios e aliar-se com elementos pró – imperialistas.
Por tudo que afirmamos, também neste aspecto seguimos os ensinamentos de Lénine que sublinhava que não se trata de lutar contra a pequena-burguesia e os seus teóricos mas pelo contrário lutar para a pôr de lado do proletariado.
Assim, embora reconheçamos o papel progressista e até mesmo revolucionário da pequena-burguesia no nosso contexto político consideramos contudo que seria cientificamente aberrante e politicamente perigoso generalizar em absoluto o espírito revolucionário e certas qualidades novas desta classe.
E é ao considerarmos todas estas particularidades relativas a esta camada social – a pequena-burguesia – que não podemos de deixar de defender que uma das primordiais tarefas da classe operária nesta etapa de ditadura democrática revolucionária é pois agir no sentido de que as massas pequeno - burguesas se desembaracem dos aspectos negativos da sua praxis, lutando assim contra toda a espécie de sectarismo, dogmatismo e revolucionarismo.
Como é que daqui se deduz que o meu ponto de vista é anti-nacional? Só o método de redução ao absurdo pode explicar a actuação.
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