6 - A CIA E A REVOLUÇÃO ANGOLANA
01.02.2004
Suponho desnecessário dedicar esforços que procurassem definir o que é a CIA, pois acredito que o Comité Central sabe mais que qualquer cidadão angolano o que é, o que representa a CIA, esta monstruosa máquina de agressão imperialista. Os seus métodos, variáveis e muitas vezes invisíveis são também comummente conhecidos.
Tenho fortes razões para admitir que a CIA é já a responsável pelas operações decisivas que as forças de direita estão a ensaiar neste momento em Angola.
Para que os membros do Comité Central tenham um ponto de partida, uma referência para a análise e reflexão apresento muito rapidamente alguns exemplos arrancados à História do Movimento revolucionário mundial. Nesses exemplos vê-se claramente como é que o imperialismo actua para”destabilizar” qualquer processo revolucionário.
Depois do triunfo do movimento guerrilheiro e da revolução cubana, o imperialismo americano montou uma série de operações reaccionárias para aniquilar a revolução.
Assim, por exemplo, tratou de dizer que os camaradas Comandante Raul Castro e Che Guevara estariam a preparar um atentado contra o Comandante Fidel. Posteriormente, a CIA, para tentar dividir os cubanos e os revolucionários de toda a América Latina, tentou opor Che a Fidel, chegando mesmo a existir filmes nos Estados Unidos onde se exaltava Che, numa clara hostilidade a Fidel. O imperialismo ianque explorou e explora o facto internacionalista, como sabemos de o camarada Che ter ido lutar na Bolívia.
Em 1971, no Sudão, o general El Numeiry encontrou o pretexto do”perigo comunista” para condenar à morte cerca de sessenta jovens que, ao que se conhece correctamente hoje, defendiam os interesses legítimos do povo sudanês.
O caso mais recente, é o do”golpe fascista” do ditador reaccionário Pinochet, que ficou também conhecido pela designação do”golpe militar no Chile”.
Eis como nos relata um observador comunista, que esteve na altura na América Latina e seguiu todo o processo da CIA, como ele nos relata, dizia eu, o quadro geral da manobra imperialista que precedeu golpe militar fascista de Pinochet. O artigo que em parte vou reproduzir pode ser lido no jornal”O Diário”, publicado e Lisboa, do dia 8 de Novembro deste ano.(1976). O autor do artigo é o conhecido comunista português, Miguel Urbano Rodrigues, que é também o Director do referido jornal.
“De 1970 a 1973″ – escreve ele no seu artigo” FANTASMAS E CERTEZAS”, acompanhei, a marcha de campanhas difamatórias montadas com o objectivo de desprestigiar personalidades políticas que se batiam corajosamente nos seus países contra a dominação imperialista. Nenhuma delas me impressionou tanto como a ofensiva desfechada pela direita chilena para destruir Salvador Allende”.
“Na véspera da sua posse, o presidente do Governo da União Popular era ainda um homem respeitado pela burguesia de Santiago. A reacção alimentava a esperança de que ele não honraria plenamente os compromissos assumidos. Até”El Mercúrio” enaltecia a sua abertura ao diálogo e salientava a cordialidade das suas relações com Eduardo Frei e a sua amizade precoce com dirigentes democratas - cristãos, como Bernardo Leighton. Decorridos, porém meses, a reacção chilena destilava ódio contra Salvador Allende. O presidente frustrava as suas esperanças.”
“O ataque à revolução passou a ser inseparável do ataque a Allende. Inventaram-lhe amantes, confidências, negócios, orgias,. Tudo servia para o injuriar. Na ridícula convicção de que o diminuiriam perante os trabalhadores, chegaram a acusá-lo de descender de um vice-rei do império espanhol.”
“Foi sem surpresa que ao regressar a Portugal, prossegue o jornalista, identifiquei os primeiros sintomas do mesmo fenómeno: com uso da calúnia como arma política.”
“Mais de uma vez comentei com soldados de Abril a cascata de infâmias que, a partir de 11 de Março, começou a desabar sobre homens a quem a reacção não perdoava uma clara postura revolucionária. Nem sempre os visados foram os mesmos. A direita procurou seleccionar, escalonar e isolar os seus alvos. Não poucas vezes oficiais que durante algum tempo foram glorificados receberam, logo a seguir, um chuva de injúrias. As forças da contra-revolução transformaram-nos em poucas semanas de heróis e anti-heróis.”
“Percebia-se que não eram os homens aquilo que contava mas a tomada de posição diante das conquistas revolucionárias do povo”.
“Uma nota comum a todas essas campanhas” – continua Miguel Urbano –” foi o estilo moralista. A gente mais corrupta e amoral do País imitou bem os mestres chilenos de”Pátria y Liberdad” e do Partido Nacional. Para caluniar, a direita lusitana alça-se ao pedestal dos incorruptíveis e agita freneticamente que, ela sim, é austera, patriótica, desinteressada de bens materiais, íntegra e sobretudo democrática.”
“(…) o impudor dessas catatuas da reacção é levado tão longe que se tornou moda saudosa do fascismo apontar como burgueses irrecuperáveis aqueles que se bateram pelo avanço da Revolução Portuguesa e pelo Socialismo real. Em contrapartida, os que ficam pelo caminho, os que fraquejam, os que atraiçoam são recebidos com especiais manifestações de carinho. Ela trata sem demora de os guindar à condição de grandes democratas.”
“Não esperava, como diz o articulista, como modestíssimo combatente da revolução, ser incluído na lista dos alvos da campanha de calúnias. Mas isto acabou por acontecer. Não por mim, apenas pelo significado da trincheira onde ocupo um posto na batalha pela construção de uma sociedade nova. É sempre mais fácil atacar um indivíduo do que a equipa de que ele faz parte. Investe-se contra a peça para visar o conjunto”.
“A técnica é sempre a mesma” – escreve o jornalista comunista –” venha o fogo de onde vier. Uma, duas, três mentiras são lançadas no caudaloso rio de intrigas cujos afluentes se interligam na complexa rede da imprensa fascista e nos órgãos com ela aparentados. Depois são retomadas, polidas, ampliadas, exploradas, de modo a que a calúnia ganhe credibilidade e possa destruir, se possível, o visado.”
“Um boletim paroquial transformou-me em amigo íntimo de Carlos Lacerda. Um diário de CIP atribuiu-me a compra de um palacete. Os pasquins da direita, entusiasmados, tomaram tal balanço que afirmaram já, não sem algum mistério, que fui em tempos redactor da SNI.”
“(…..)”
“A técnica da mentira” – continua o artigo –”é semelhante à que vi aplicar no Chile, no Brasil, no Peru. Os mesmos senhores e senhoras que se apressaram a enviar telegramas de felicitações a um alto dirigente da Legião ou ANP” (Acção Nacional Popular): partido fascista do ex-ditador Salazar e Caetano – sublinho eu reintegrado (com 30 ou 40 contos) num cargo público mostram-se preocupadíssimos com os dados biográficos de homens que estão com o processo revolucionário. É realmente uma curiosidade mórbida.”
“O mecanismo da calúnia, escreve o articulista, - é quase sempre accionado a partir de um facto banalíssimo que a intriga depois omite.”
Diga-se o que se pretender dizer, mas, com todos os contornos, eis aqui, camaradas do Comité Central, mais uma autêntica e fiel chapa em raio x do fenómeno em curso em Angola e no MPLA.
Com efeito, tudo parece neste artigo como que o seu autor estivesse neste exacto momento em Angola e estivesse a seguir a marcha criminosa da campanha reaccionária orquestrada pelo imperialismo internacional.
Poderia citar muitos exemplos do mundo revolucionário de hoje – República Dominicana, Indonésia, etc, - onde centenas de comunistas foram executados, condenados à morte, ou brutalmente perseguidos, acusados das mais variadas calúnias. Na Índia, encontramos Yapraskash Naryan, a reprimir, sob a máscara do”socialismo”, os verdadeiros revolucionários a quem ele chama de”agentes de Moscovo”!
O que notamos de invariável em todos estes casos, é uma lei verdadeiramente comum a todos eles: quando as forças da reacção e de direita se preparam para um golpe militar fascista, na véspera, os órgãos de comunicação social já ao serviço das forças direitistas e reaccionárias desencadeiam subitamente uma furiosa e ampla campanha de calúnias e boatos difamatórios. Acusam as forças de esquerda de estarem a preparar um golpe e mais mil e uma outras acusações.
Concretamente, como é que vemos estes sintomas em Angola, dum provável golpe de direita?
A) O TERRORISMO REACCIONÁRIO DE IMPRENSA: “JORNAL DE ANGOLA” E ALGUNS EDITORES DA TPA E DA RÁDIO NACIONAL
“Mutato nomine de la fabula narratum” - “sob outro nome esta fábula fala de ti”.
O”jornal de Angola”, cumprindo missão dentro da concreta estratégia das forças contra-revolucionárias encarregou-se de destilar contra mim e contra os mártires, os militantes e as massas populares que combateram na Primeira Região as mais incríveis calúnias. A nível dum jornal não pode haver de mais reaccionário. Leia-se todos os editoriais deste jornal a partir de Janeiro de 1976.
Com toda a série de agressão e diversão ideológicas, o director daquelas miseráveis folhas impressas, dedica o seu melhor tempo a escrever os seus famosos editoriais. Desde o momento em que estava em curso a fase decisiva da instalação real do Poder Popular, aquele jornal abriu o cano do seu canhão contra o Ministério da Administração Interna e o seu ex-titular.
Como dizem os velhos latinos na máxima que situei na introdução deste tema, todos os leitores daquele jornal sabiam que o alvo principal dos ataques dos editoriais reaccionários, do reaccionário Sr. Costa Andrade era o camarada Nito. Nas páginas sombrias do”jornal de Angola” tudo foi permitido escrever sobre a minha pessoa , e o momento mais alto da injúria foi a livre publicação do poema”A ti chefe” de Hélder Neto, um dos chamados homens fortes da DISA, poema esse cujo objectivo era confundir as massas, incutindo-lhes a noção de que Nito será anti – Neto.
No mundo não há exemplo a apontar nas circunstâncias de uma democracia revolucionária, em que um Governo popular e revolucionário, tenha permitido que um director de um jornal passasse sistematicamente a fazer a agressão a um membro desse Governo, o eixo central das suas actividades.
Ninguém nos apresentará por exemplo, um país revolucionário em que, um director de um jornal ataca impunemente um membro do Comité Central, e ao mesmo tempo funcionando mesmo no Bureau Político. Ora ao Sr. N’dunduma, tudo isto lhe foi ou é permitido.
Quem é o director do”jornal de Angola” que dá pelo nome de Costa Andrade?
Pessoalmente conheci este indivíduo no leste de Angola, em 1974, por ocasião da Inter-regional. Foi o segundo homem do MPLA que me instilou propaganda do anti-sovietismo. Recordo-me exactamente que, os três, ele, o falecido Gica e eu estávamos sentados num tronco que se encontrava deitado em frente das tendas dos Comandantes Xietu, Gica e Loy. Vi-me então submetido debaixo de uma propaganda anti-soviética e anti-chinesa, chegando mesmo a convidar - me a confrontar as suas opiniões em relação a qualquer daqueles países se algum dia isto me fosse possivelmente proporcionado. Mas, pensei, o que significava politicamente uma negação simultânea da União Soviética e da China? De notar a identidade deste argumento com o do Secretário Administrativo do Bureau Político. Mera casualidade?
Assim que regressei da União Soviética por ocasião do XXV Congresso do PCUS casualmente encontrei-me com o N’Dunduma, certo dia no Aeroporto de Luanda (sala dos VIP’s). Ele acercou-se de mim, procurando saber o que restava da minha opinião de então sobre a sociedade soviética. Disse-lhe o que viria eu a dizer mais tarde na Câmara Municipal de Luanda a respeito da União Soviética. Entretanto o alambique do Sr. Costa Andrade, destilava continuamente o odioso veneno anti-soviético.
No plano político e ideológico os que conhecem o director do”jornal de Angola” não têm dúvidas de o caracterizar essencialmente anti-marxista-leninista, como um vil oportunista que se serve fraudulenta e abusivamente do nome do camarada Presidente para as suas práticas contra-revolucionárias, organizando o terrorismo de imprensa.
Como é que um homem marcadamente anti-marxista-leninista pode dizer bem do marxismo-leninismo senão fazendo-o como demagogo, filisteu e idiota numa nítida atitude de iludir as grandes massas. Felizmente nem disfarçar sabe.
É de notar a estranha coincidência, o mesmo tom de estilo de escrever, que pode facilmente detectar-se entre o”jornal de Angola” e os mais reaccionários jornais da extrema direita publicados no mundo imperialista, nomeadamente pelo Expresso e outros, em Lisboa. A propósito é de notar que o Expresso e outros jornais anunciavam horas antes do 3º Plenário do Comité Central os respectivos pontos quentes e suas prováveis soluções que aliás viriam a coincidir com a realidade posterior!
Pressionando os seus chefes presentes no 3º Plenário do Comité Central, Costa Andrade, culmina a sua trajectória com uma transcrição de Lénine” Isolamento e Queda dos Comunistas de Esquerda” dando exemplo perfeito de como anti-marxistas-leninistas podem combater as ideias de Lénine citando-o. Com a minha suspensão estava realizado um dos grandes objectivos das forças da reacção . E quem lê esse miserável jornal sabe que depois dessa”vitória” este falso amigo do povo entrou em”merecido repouso” só recentemente tendo voltado a pegar em armas para escrever editoriais de praxe.
Tudo passa suavemente: o Bureau Político silencia sobre a agressão, o Comité Central não é informado e o Governo cruza os braços. Estamos num país de grandes liberdades democráticas!!
Na TPA – Televisão Popular de Angola e na Rádio Nacional encontramos outros soldados de reacção organizada.
Como vem anexo neste documento, o agente da DISA, cujo nome se esconde no código Marçal I, na sua informação para o Chefe Ludy, data , 8 de Agosto de 1976, Assunto: Grupo Nito, no ponto 3 da referida informação escreve – cito textualmente:
“3 – O Cda Orlando defendia uma posição ambígua, dizendo que as contradições eram o resultado do conflito da pessoas, etc. Não se sabe se esta posição foi assumida por precaução, por Orlando saber com quem estava a falar, ou revela efectivamente o seu pensamento pessoal. Noutros círculos o Cda Orlando tem manifestado uma posição abertamente oposta ao Cda Nito Alves. Foi o Cda Orlando quem escreveu o editorial da Televisão. Logo após a manifestação no Palácio” – fim da informação.
O editorial acima referido também vem anexo e é dum teor basicamente contra-revolucionário.
Enquanto isto, na Rádio nacional de Angola, um outro editorialista, o chefe de turno rotativo, João Melo,” fazia editoriais contra o Nito”, lê-se numa informação especial. Todos estes editoriais estão impregnados por todos os poros, dum profundo ódio à minha pessoa.
Num país democrático, progressista e revolucionário, num país que marcha para a democracia popular, todas estas agressões, arbitrariedades, abusos de poder e autoridade, toda esta campanha reaccionária é livremente consentida, habilmente fomentada, subtilmente montada, inteligentemente protegida! Tudo isto contra um membro do Governo, do Comité Central e na altura também do Bureau Política., na República Popular de Angola!
A famosa manifestação que vai dar origem ao poema divisionista e confusionista de Helder Neto e a muitos editoriais, tinha sido preparada em ambiente de pura clandestinidade reaccionária. Com efeito, um responsável do DOM / Regional de Luanda, Mendes de Carvalho, congrega e encabeça, numa base regionalista - tribalista um certo número de cidadãos e patriotas. Aí, onde os mais ferozes instintos do tribalismo, racismo e anti-comunismo vieram ao de cima, é preparada com objectivos fraccionistas e reaccionários a manifestação que porém viria a ser publicamente anunciada como sendo de apoio ao camarada Presidente! Decidiu-se para tanto a utilização do DOM / Regional, único meio de mobilização de massas, ao dispor desse grupelho tribalista e racista. Esta reunião teve lugar no dia doze de Julho de 1976, na Rua Eça de Queirós, casa nº 30.
A prova do que afirmo é a cassete gravada que entrego ao Comité Central. Nela se vê claramente o fundo maldoso e o carácter contra-revolucionário da mesma , o cortejo das mais espantosas calúnias, das maiores difamações., etc.
O responsável deste acto é apresentado, com elogios, ao povo, como exemplo irrepreensível do militante consequente, exemplo invulgar do dirigente cumpridor da linha política do MPLA e do pensamento político do Camarada Presidente , o militante sem desvios, o anti - tribalista, o anti - racista consequente. Veja-se a dimensão desta grotesca mistificação.
O Comité Central quer mais exemplos da mais pura demagogia e hipocrisia?
B) A CAMARILHA DOS AGENTES DA MÁQUINA DA DISA O FANTASMA” GOLPE DE ESTADO”
Os documentos que entreguei à Comissão de Inquérito e que vão anexos a este, todos juridicamente válidos, mostram claramente o prolongamento do complot histórico que aparentemente é anti - Nito Alves.
O agente cujo código é Marçal I, é o mais objectivo, um agente de certo nível de inteligência. Ele diz, com clareza, no frontispício da sua informação atrás mencionada (anexa a este) que o assunto diz respeito ao Grupo Nito. A informação é dirigida ao Chefe Ludy, hoje Director da Segurança Nacional, membro do Comité Central e do Bureau Político.
Alípio Neves da Costa, em carta dirigida ao Primeiro Ministro Lopo do Nascimento, escrita em Luanda em 21 de Fevereiro de 1976 anuncia já o fantasma do”golpe de estado”, em que eu teria papel principal.
Vou transcrever partes interessantes da carta, até para se ter uma ideia das intenções políticas - ideológicas do indivíduo:
“Tal não é, em nome da Revolução, em nome dos heróis que tombaram com o seu sangue e sagrado solo que pisamos, e ainda mais pela saúde de todos quantos possam ser caros ao camarada Lopo do Nascimento, pois que o motivo que anima esta atitude é tão sério, tão certo que menosprezar o seu conteúdo sem tomar as medidas que se impo em redundaria em prejuízo para todo o país inteiro:”
“Encontra-se em gestão”, continua o informante,” um movimento anti-revolucionário, que mais tarde ou mais cedo se propõe derrubar o Governo do Camarada Presidente Agostinho Neto, mediante um golpe de estado, numa confirmação clara de rumores de um pretenso golpe de estado da parte de um dos mais considerados líderes do nosso Movimento.”
E mais adiante diz expressamente:”Trata-se do Comandante Nito Alves, que no seio dos militantes da Iª Região Político-Militar desenvolve tal actividade, propondo-se ele próprio tomar as rédeas da Presidência depois de conseguidos os seus intentos.”
A carta continua. Ela também vem anexa a este documento. Esta carta entrou nos arquivos do E.M.G., Departamento de Informação e Segurança com as seguintes referências: Entrada, nº 293, ficha 32, Prc 1. Para o Gabinete de Análises, a mesma entra com data de 11.3.76 Análise, com as referências: Entrada, nº 277, Ficha 61 Prc 2.
Hélder Neto, o tal do poema, na altura um dos homens fortes da DISA-INFANAL forneceu ao EMG, com carimbo de MUITO SECRETO, SERVIÇOS DE SEGURANÇA, a informação nº1460.
O esquema da recepção é assim hierarquizado: data, 09 Abril 76, Hora 1800; Local de recepção INFANAL; Recebido por Hélder Neto; Local MINFA; Visto; Informador - Joana.
A informação é do teor seguinte:
NITO ALVES / JOSÉ LEITÃO
1 –” O camarada Ministro Nito Alves tem sido visto assiduamente no Ministério da Informação a discutir no gabinete do Camarada José Leitão, chefe do Gabinete do Cda Ministro da Informação.
2 – O Cda José Leitão regressou há 4 ou 5 dias de Lisboa.
3 – Hoje, além de se terem encontrado no gabinete do Cda José Leitão, saíram juntos no carro”, fim de informação.
Nunca, em país revolucionário algum do mundo, foi perseguido assim um membro do Governo, do Comité Central e na altura , do Bureau Político.
Entretanto, o primeiro propagador do boato do golpe foi o então Comissário das FAPLA Abranches. Os camaradas visados, José Van-Dúnen, Monstro Imortal e eu exigiram na devida altura um inquérito. Os resultados do Inquérito atribuíram responsabilidades ao Abranches como autor e propagador do boato. Ninguém o puniu. E hoje, talvez, por esse alto serviço, é nomeado Director do Museu de Angola.
Não me obrigo a esgotar os dados, pois enumeraria mais casos do género.
Passo a ligeiros comentários:
Quem é o Orlando da TPA ? Quem é o João de Melo? Quem é o Alípio? Quem é o Hélder Neto e Abranches?
Porque razão tais indivíduos não foram chamados à ordem? O que representam eles no plano político nacional? A que classe ou classes sociais e forças políticas pertencem e ao serviço de quem estão?
Qual é o objectivo da DISA ao analisar tais informações sem delas dar conhecimento, ao Comité Central e ao Bureau Político?
Vejamos ainda como actua um outro homem-forte da Segurança, SIMEÃO KAFUXI.
É do teor seguinte, com a classificação de CONFIDENCIAL, a nota de referência 147 /AE /76, Luanda, 26/11/76, que Simeão Kafuxi, Responsável pela Secretaria da Presidência para assuntos Militares, enviou à DISA como assunto a investigar:
“Para os devidos efeitos e conhecimento, enviamos a essa Direcção, o duplicado de uma nota informativa, aquando do festejo do aniversário do cda NITO ALVES.
DISCIPLINA PRODUÇÃO VIGILÂNCIA
SECRETARIA PRES. PARA ASSUNTOS MILITARES, AOS 26/11 / 76 KAFUXI”
A referida nota informativa é do teor seguinte:
NOTA INFORMATIVA.
O comissário Provincial de Malange, cda João da Silva, quando vem a Luanda, certas vezes, agasalha-se na casa do cda Nito Alves.
No passado mês de Agosto, quando o cda Nito Alves fez anos e festejou o aniversário entre amigos e simpatizantes mais íntimos na sua residência entra vários discursos lá proferidos, alguém afirmou:
…Embora o cda Comandante Nito Alves não foi promovido a Comandante mas para nós é e será sempre o Comandante Nito Alves.
E o povo só estará contente quando ver no poder em vez de E o I ( nota explicativa este E refere-se a letra e da palavra Neto que é o Cda Presidente; e analogamente a letra referida refere-se a da Nito correspondente a Nito Alves, no sentido de só ficará satisfeito o povo quando o cda Presidente Neto for substituído pelo Nito Alves.
SECRETARIA DA PRESIDÊNCIA PARA ASSUNTOS MILITARES
SIMEÃO KAFUXI”
Este documento entrou na DISA sob o nº 133, com a data de 30/11/76, Secção -Secretaria, Distribuição -Director Nacional, tal qual se vê autenticamente o anexo aposto a este.
Os militantes do nosso MPLA, a classe operária angolana, os camponeses e todas as amplas massas trabalhadoras, o Povo de Angola nunca imaginou, como é também surpresa minha, que a Segurança dita do Estado da RPA, pudesse ir tão longe e tão baixo, pudesse fazer este jogo escandalosamente sujo! Mas são informações deste tipo e dessas fontes que param diariamente ao camarada Neto. Repetidas dentro duma certa técnica, centenas de vezes, dão realmente os resultados propostos pelos seus autores.
Até o meu inofensivo aniversário é alvo da”vigilância” e penetração traiçoeira dos agentes da DISA. Com um cinismo reaccionário, esta informação é tida como confidencial e ordena-se uma investigação!!! Em que lugar eu posso estar sem o cinturão da DISA? Em nenhum certamente!
Não me cabe comentar mais esta insultuosa e revoltante agressão da DISA. Deixo que as amplas massas, os homens de boa fé os militantes do MPLA façam eles próprios o seu julgamento.
Mas a minha casa não é um hotel com quarto marcado para o camarada Comissário de Malange João Manuel da Silva, dinâmico militante do nosso MPLA e governante activo. Creio que Simeão Kafuxi utiliza as palavras de que não conhece o significado. Poderá explicar-me o que quer dizer agasalhar? Em caso afirmativo, óptimo e exijo que apresente provas.
Doutro lado, o meu aniversário foi a 23 de Julho e não em Agosto e realizei-o na casa dum velho irmão de infância e não na minha residência! Discursos, não houve nenhum a não ser o discurso pronunciado pelo Kafuxi. E a manobra da montagem da pretensa oposição de Nito a Neto vê-se grosseiramente arrumada no documento e de autoria e responsabilidade do Simeão Kafuxi.
E para refinar a malandrice e a demagogia a nota informativa termina com as justas palavras de ordem: Disciplina, Produção e Vigilância. Não há dúvidas, temos aqui um caso exemplar de como se exerce esta disciplina, como se realiza esta produção e como se organiza esta vigilância.
O nosso Povo, reafirmo-o eu, deve permanecer realmente vigilante para com estas manobras pró - imperialistas e mostrar-se energicamente apto e pronto no interesse da revolução, a punir estes agentes presumivelmente a soldo da alta finança internacional.
O que é isto de”Grupo Nito”? Quem o criou? Quem o constituiu?
Os meus acusadores pensam que podem já tratar-me como cadáver pelo menos político. Estão enganados, pois enquanto respirar darei combate enérgico às forças da reacção.
Haja em vista factos para mostrar aos militantes quem é Hélder Neto.
Perfeito CAC, a partir das suas ligações com outra CAC, Tatão, enquanto responsável da DISA – INFANAL tudo fez para defender os CAC’s, destruindo para tal um dossier CAC que tinha sido elaborado por camaradas que conheciam os CAC’s por dentro.
Assim, no ponto 7 do Processo CAC, Relatório Preliminar 2 / Pag.2, Hélder Neto escreve para o Bureau Político:
“7 – Se as declarações do ceda Pepetela são verdadeiras a 100% e, para tal, seria recomendável que fossem analisadas pelos camaradas Lúcio Lara e Dilolwa, a acusação revela um desconhecimento de factos essenciais para a compreensão do fenómeno CAC / DOP e CAC / COP, porquanto as nomeações foram da responsabilidade do Bureau Político e a aplicação directamente controlada pelo coordenador do DOP, membro do Bureau Político. É portanto uma manifestação de leviandade (pelo menos) ignorar tal facto para imputar aos cad Pepetela e Dilolwa a infiltração dos CAC’s no departamento.”
Mais adiante, afirma que a denúncia dos CAC’s era simples diversão.
Ora, o facto de o actual Vice - Ministro da Educação Pepetela, pertencer aos CAC’s é provado por militantes ainda vivos e que o Secretário Administrativo do Bureau Político suspendeu. Segundo porque razão é que não se apela para o Bureau Político para a análise das declarações do Pepetela e, Hélder Neto indica ele próprio, os nomes dos membros do Bureau Político Lúcio Lara e Dilolwa para ouvirem um CAC? Qualquer cego vê claramente a manobra. E por este mecanismo chegou-se a conclusão que o Pepetela não era CAC!”Milagre das Rosas”!
Assim se vê como é que os correligionários do maoísmo ( os CAC’s são maoístas ) se defendem mutuamente.
Esta DISA, que hoje utiliza a violência física para arrancar confissões dos camaradas falsamente acusados de tentativas de”golpe de estado”, faz-me recordar a Segurança do general Dénikine que se tornou célebre na História do PCUS e da União Soviética.
Este ódio chega a divertir-me. E eu digo como tantos outros: não é pelo meu nome que sou perseguido, mas pelo real”significado da trincheira de combate onde ocupo também o meu modesto posto”.
Posso afirmar que tento não falhar; não recuarei diante de nada, nem me renderei sem combate.
Camaradas do Comité Central:
Não exagero ao afirmar que as forças de direita estejam a preparar o verdadeiro golpe de estado, porque , à luz de toda esta informação podemos ver sintomas desse tipo de golpe. Estamos pois em presença duma manobra de diversão. Acautele-mo nos porque o ataque vem do outro lado - do lado do imperialismo.
Não estará já em Angola a mão sinistra do Kissinger, este corso da CIA?
Senão, vejamos:
Distribuída, na altura, pelo camarada Primeiro Ministro, Lopo do Nascimento, cada membro do Bureau Político tem a obrigação de ter nos seus arquivos uma informação sob título Relações Brasil / Angola.
Na página 3 do referido documento lê-se expressamente.
“Com relação a Angola, os militantes brasileiros esperam que até que a guerra se internacionalize na África Austral, a diplomacia brasileira consiga recuperar o MPLA através dessa acção política de dividir o aparelho do partido entra radicais e moderados. Outra esperança brasileira seria a precária saúde do Presidente Neto, que segundo informações recolhidas pelo Brasil em Londres seria um homem (……). O seu desaparecimento deveria se dar no momento em que a divisão entre moderados e radicais estivesse estabelecida.”
Em termos de perspectivas inalteráveis da CIA este documento, que considero extremamente valioso mantém a sua importância, tanto mais que temos em presença a diplomacia brasileira. Vê-se também, nesta informação que o objectivo principal da CIA é o desaparecimento físico do camarada Presidente Neto.
Mas, pergunto-me a mim próprio, por que razão é que a CIA escolhe o momento desse desaparecimento do camarada Presidente na altura em que a contradição, segundo eles, entre os moderados e radicais culminaria no seu apogeu? A quem seriam atribuídas as responsabilidades desse presumível assassinato do Presidente?
É fácil responder a estas perguntas se estabelecermos uma confecção objectiva entre a informação exposta atrás e esta que vou apresentar:
De fonte segura, recebeu cada membro do Bureau Político o seguinte Relatório de Informação / 13 / CIA / ANGOLA, tradução.
“Um certo número de agentes da CIA funciona já em Angola, nas regiões controladas pelo MPLA. Unicamente em Luanda, o número mínimo de homens e mulheres servindo de ligação com a CIA, atinge a centena.”
“Alguns trabalham directamente, outros indirectamente, isto é sem duvidarem que os seus relatórios ou informações acabem por ir parar às mãos dos serviços americanos. Entre eles encontram-se jornalistas, fotógrafos, comerciantes, representantes de firmas de importação e exportação, funcionários do Governo e militantes. Segundo fontes (internas) absolutamente seguras eis o que afirma o chefe destes informadores ou agentes de Luanda:
1- Dois quadros de Segurança Nacional foram recrutados. A sua identificação é HAM-19 e SLIM-35. Ambos se encontram em Luanda.
2- Um trabalho intensivo está a ser feito, para infiltrar o Bureau Político. Há boas perspectivas para ganhar a confiança ou os serviços de um deles, um militar cuja identificação é SUB-20.”
Camaradas do Comité Central:
Estamos diante de processos demasiadamente sérios demais e aparentemente complexos.
Por que razão não se informa tudo ao Comité Central? Como é que , posteriormente, e de fonte segura, entra e sai de Angola um tal misterioso Umpoyo, agente da CIA, e que, ao que se sabe, mantém contactos com elementos da DISA e do Governo, mesmo depois de ordem expressa do Bureau Político no sentido da sua expulsão pura e simples do nosso País? Quem é que , afinal está relacionado com este Umpoyo? Quem é que está interessado na presença em Angola desse agente da CIA?
Em tais condições, em qualquer parte do mundo revolucionário, só estes factos determinariam, imediatamente, a suspensão pura e simples do Bureau Político e a consequente nomeação duma Comissão Ad Hoc do Comité Central que seria encarregada de estudar rigorosamente o”dossier” em causa. Em qualquer processo revolucionário em função dessas informações, o Comité Central suspende toda a direcção da Segurança e nomeia outra, provisória, até apuramento da verdade e responsabilidade.
Mas em Angola, estas questões melindrosas não são informadas ao Comité Central, porquê?
Qual é a estratégia que está montada?
A História do MPLA , durante a sua fase das guerrilhas, já demonstrou que as forças de direita do MPLA nunca viram com bons olhos a política do camarada Presidente, que, há anos, já se sabia como sendo comunista, em sua última instância e consequência. Entretanto, colocado ante um dilema, a direita do MPLA sabe que, no plano táctico, não pode passar sem o camarada Presidente, daqui o estar condicionada historicamente a uma falsa imagem de correligionária em termos de Marx, Engels e Lénine.
Posto isto, as forças de direita procuram justificar e têm de justificar ante o Povo Angolano e o mundo o desaparecimento do camarada Presidente. E a única forma de o fazerem é atribuir o presumível assassinato aos sectores revolucionários que seriam então apresentados ao Povo e ao mundo como os autores do assassinato e facilmente seriam linchados pelo Povo em praça pública. Para o conseguirem, a DISA tem que forjar, na linha do velho Denikine, um falso dossier com falsos depoimentos de agentes provocadores e de prováveis camaradas que , torturados até à medula, seriam forçados pelo medo da morte, a debitar declarações não verdadeiras: Velho método da polícia política reaccionária, universalmente falando.
Vou fundamentar o meu raciocínio. No livro que estou a ler, Les Complots de la CIA, Manipulations et Assassinats, STOCK, vê-se claramente os mesmos processos que a CIA empregou para derrubar Salvador Allende, no Chile.
Para precisar o quadro da estratégia da CIA, passo a transcrever telegramas das páginas 60 e 76 do citado livro:
“Um programa em três pontos foi posto em acção. Consistia em:
A. Agrupar informações sobre oficiais dispostos a executar um golpe de estado.
B. Criar um clima de golpe de estado para uma propaganda e uma desinformação sistemáticas. Realizar actividades terroristas provocando a esquerda, o que fornecerá o pretexto. (Telegrama de 7 de Outubro)
C. Informar os oficiais dispostos a desencadear um golpe de estado, que o Governo dos Estados Unidos está pronto a apoiá-la activamente, mas que toda a intervenção militar directa dos Estados Unidos está excluída (Telegrama do 14).
Na página 76, é descrita num telegrama, a táctica a aplicar para o assassinato do general Schneider, perigoso segundo a CIA, e que por isso mesmo deveria ser abatido antes do futuro Presidente Allende:
“Os militantes não aceitarão estarem implicados no rapto do general Schneider cuja responsabilidade deve ser imputada (atribuída ) aos gauchistas.(Telegrama do 19).
Camarada Presidente
Camaradas do Comité Central
É preciso não entreter a nação com” divisionismos”,” fraccionismos” e coisas do género de que sou acusado, é preciso abandonar esta aberração e preconceitos doentios porque o perigo da revolução está à vista. É o perigo real dum provável e futuro golpe de estado militar de direita, o que acontecerá se o Comité Central não assumir a sua responsabilidade.
A táctica e a técnica da CIA é sempre a mesma: provocar a esquerda, atribuir-lhe a responsabilidade de assassinatos, montar uma campanha de desinformação a partir dos mass media.
Diga o que disser nós vemos, claramente visto, com os nossos olhos, todas estas manobras e manipulações da CIA. Qualquer dia , a cidade de Luanda acordará com tiros, como já puseram mais de uma vez de prevenção as unidades estratégicas dos quartéis de Luanda e Lubango, e atribuirão tudo isto ao fantasma do”Grupo Nito”. Eis as manobras da CIA.
Estas manobras têm que ser forçosamente denunciadas e desmascaradas não apenas no seio do Comité Central, mas no conjunto da nação inteira, e a defesa da revolução que exige e os seus autores severa e exemplarmente punidos.
Em tese, a direita no seio do MPLA tem a sua alternativa, está a materializa-la. Basta ouvir os comentários actuais da reacção, da pequena e média burguesias que já rangem os dentes por que o Agostinho Neto, afinal, dizem eles, também é comunista e isto em Angola vai tudo mal, concluem.
Mas o grande problema da direita é encontrar um angolano manejável, dócil dentro do MPLA ou das estruturas superiores, capaz de ser a contra-alternativa ao Camarada Neto. Será por acaso que Hermínio Escórcio , disse um dia, que tudo está preparado e que se o presidente morre, têm o camarada Lopo do Nascimento para o substituir? (Depoimento do Nado), é de notar que Hermínio Escórcio é um dos propagadores acérrimos do tal fantasmagórico”golpe de estado”e preconizador das chamadas”medidas punitivas exemplares”.
Até fui perseguido por esses agentes da DISA, quando por necessidades próprias, no dia em que me desloquei ao Panorama para falar com o camarada Eduardo Kapski , membro componente da delegação de União Soviética, falar a respeito dos meus livros que deixara recomendados em Moscovo, sob a responsabilidade daquele mesmo camarada soviético, por altura do XXV Congresso do PCUS. Qual o meu espanto quando, em audiência com o camarada Presidente Agostinho Neto este , muito sincera e honestamente, põe-me a questão de saber se eu teria ou não contactado a delegação soviética!
Será contra-revolução conversar com camaradas soviéticos?
Como vêm, camaradas do Comité Central, todo este conjunto fundamenta cientificamente o meu poema DIREITO Á DEFESA.
Mas a História melhor o dirá.
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