7 - COMO ILUDIR O POVO
01.02.2004
“Atribuir primeiro ao adversário um absurdo e depois criticá-lo vitoriosamente”, eis a velha forrmula do oportunismo de que dão provas os meus opositores.
As forças da direita no seio do MPLA na marcha para o seu objectivo estratégico, compreendem, mais do que ninguém a necessidade de aumentar a amplitude e o espaço social que sustenta a sua campanha contra-revolucionária, sob a máscara do marxismo-leninismo.
É curioso seguir a evolução das calúnias de que são alvos os camaradas que combatem sem tréguas as forças coligadas da social-democracia e os maoístas.
No ecrã da ridícula metragem aparece com frequência ressonante, a acusação de”racismo”. Na minha intervenção pública aquando da recepção oficial das Comissões Populares de Bairro da cidade de Luanda, desmascarei o carácter anti-revolucionário desta provocação. Confundir o meu ponto de vista com racismo só pode ser uma de duas coisas: um nível assombroso de incultura política, uma mentalidade própria do homem da Idade da Pedra, demonstrando uma grande e profunda lacuna em matéria de formação marxista-leninista ou, o que é muito grave, a tentativa de fazer ouvidos de mercador à verdade, ou seja, após compreenderem muito bem a minha posição deturpam-na conscientemente para servirem os seus inconfessáveis desígnios.
Com efeito, na teoria e na prática, marxismo-leninismo e racismo são dois fenómenos em contradição dialéctica de fundo irreconciliável, são dois princípios que se excluem mutuamente.
Esta contradição reflecte basicamente o antagonismo entre o socialismo e o capitalismo. Esta verdade actuante, esta minha aquisição político - ideológica coloca-o ao serviço do avanço irreversível do nosso processo revolucionário, e é a minha prática político-social e histórico - concreta que constitui a demonstração convincente do meu inequívoco repúdio e ódio ao racismo. Para os mais pirronistas , convido-os a investigar os meus locais de trabalho e o universo revolucionário humano em que se exercita a minha acção revolucionária.
Mas o estandarte do racismo é posto nas minhas mãos e desfraldado aos quatro ventos para que seja mais possível às forças da direita isolar os seus alvos e abate-los com maior facilidade.
Em termos de perspectiva histórica, as forças da direita não necessitam em sentido marxista de dar combate ao racismo. Na verdade, obrigada a gritar e a apoiar a voz de ordem abaixo o racismo, fazem-no contra os seus interesses oportunistas. É uma questão táctica para eles.
Com efeito, se a estratégia das forças de direita é a social-democracia, o que equivale no fundo a perpetuar sob formas mais refinadas a exploração do homem pelo homem, como é que se pode acreditar, sem ser por ingenuidade, que a direita no MPLA está interessada no real combate ao racismo? Não gosto de fazer o ridículo papel de ingénuo, nem sou crente de nenhuma seita religiosa para ser fanático em relação a crenças infantis.
A prática político-social a que assistimos em Angola diz-nos claramente que as forças de direita ao mesmo tempo que em palavras dizem abaixo o racismo, na prática, na vida real estão a fazer o racismo. É ouvi-las e vê-las nos locais de serviço, nos cinemas, etc.
Há mesmo entre elas, elementos com sérias responsabilidades neste processo, que ainda hoje vivem tristes, melancólicos, pesarosos por não serem negros numa Angola independente. Outros igualmente miseráveis, continuam a viver o sonho reaccionário do privilégio e da supremacia raciais que a cor da sua pele ganhou na época do colonialismo. E outros ainda ostentam o seu oportunismo por serem negros. O Povo já descobriu todas estas manigâncias.
Se não nos queremos enganar há que dizer corajosamente que deve ser combatido quer o racismo do branco para o negro ou mestiço, quer o do negro para o branco ou mestiço, quer do mestiço para o branco ou negro. Isto porque todos eles existem.
Em teoria dir-se-ia que o fenómeno é global, não é unilateral. Daqui que logicamente, o combate deve e tem de ser dialéctico, isto é científico, e não metafísico, isto é idealista.
No que me toca pessoalmente, existe todo um passado histórico da luta armada em que, sem falsa modéstia, devo dizer que fui um dos inspiradores da transformação do ódio histórico e espontâneo das massas da Primeira Região, contra os lacaios do imperialismo americano – a FNLA - , num ódio político (classicista) consciente. Com efeito, a partir da década de setenta, o carácter e conteúdo da luta de classes contra o patibular Holden e seus sequazes era já uma sólida aquisição política e ideológica das massas na Primeira Região, era já uma consciência clara do carácter pró - imperialista da política da FNLA.
Antes e depois do 25 de Abril, e de acordo com as minhas convicções filosóficas, nunca confundo colonialistas - racistas inveterados com brancos oportunistas com mestiços nem negros com revolucionários.
Responsabilizo pois ao imperialismo mundial, através dos seus agentes internos – a coligação social-democracia com os maoístas – a origem exclusiva desta ignominiosa como reaccionária calúnia.
A construção duma Angola socialista, não pode ser concebida fora da doutrina de Marx, Engels e Lénine. Em Angola o socialismo será construído com toda a riqueza do seu mosaico humano.
Digam o que disserem, não sou apologista do humanismo burguês dos séculos passados, não sou defensor do multiracialismo da teoria burguesa da”coabitação de raças”. Todos estes princípios são próprios da ideologia capitalista.
Sou por isso sim, acérrimo defensor do humanismo proletário. Apontei Cuba, no meu discurso de 5 de Julho de 1976 como exemplo a seguir se não quisermos construir castelos de areia sobre o mar.
Não vejo portanto uma Angola o futuro como o simples somatório aritmético de x negros + y mestiços + z brancos. Esta soma seria igual a que? Nem a álgebra consegue dar-me a raiz desta estranha operação. Em vez desta soma vejo relações de produção de tipo socialista.
Mas a evolução das calúnias segue a sua marcha . A social-democracia parece ter descoberto já que afinal o signatário deste documento não é racista. A árvore plantada não deu frutos! As calúnias não resistem nunca à verdade!!!
Por isso resolveram as forças de direita lançar o espantalho do fraccionismo.
Já me outorgaram tantos rótulos que tenho a impressão que os social-democratas e os maoístas se divertem aplicando etiquetas. Mas analisemos ainda esta última.
Lénine condena o fraccionismo em relação ao Partido, isto é, em relação à doutrina do centralismo democrático. O rigor científico, a análise multilateral dos fenómenos da vida e da realidade caracterizam fundamentalmente os autores do marxismo-leninismo.
Quer dizer, Lénine não falava abstractamente. A abstracção das suas teses e teorias partia de realidades bem concretas, reflectia essencialmente a realidade objectiva. Noutros termos, não basta denunciar o fraccionismo, há que defini-lo e mostrá-lo à luz de teoria revolucionária.
Indicar o ponto de referência, padrão em relação ao qual classificaremos o fraccionismo é uma violação às normas do centralismo democrático, entendidas como um todo, um corpo doutrinário único e indivisível. Trata-se dum fenómeno cuja unidade dialéctica é inviolável, de tal forma que a sua violação conduz à negação pura e simples.
O único critério para nós, neste caso, são os Estatutos do MPLA. Toda a nossa actividade será classificada duma certa forma consoante está ou não de acordo com os princípios dos Estatutos. Vamos então ajustar as nossas contas.
Ao longo desta exposição, demonstrei já que o Secretário Administrativo do Bureau Político, é a imagem da mais violenta das normas essenciais dos nossos estatutos. Para ele o funcionamento do Centralismo democrático equivale à sua redução à chamada”ordem disciplinar”. A única face do Centralismo democrático que apreende é a disciplina cega e passiva que é anti-estatutária. Fez tudo para que o Bureau Político ordenasse suspensões a militantes verdadeiramente revolucionários e de origem de classe operária. Na verdade, diz-se que hoje ninguém conhece mais o MPLA, como Organização do que o Secretário Administrativo do Bureau Político e, por isso, via de regra, as decisões mais importantes são tomadas em função do que disse o camarada Secretário. Esta é a verdade e afirmo-o, porque trabalhei activamente no Bureau Político.
Com efeito a”impecável militância” do Secretário Administrativo do Bureau Político substitui totalmente os Estatutos. Todo aquele que não se comporta, trabalha, age como ele, assimila a sua”serenidade”, não é mais militante do MPLA. Neste sentido, no plano prático, no plano da organização , o MPLA é o membro do Comité Central Lúcio Lara”. É corrente ouvir-se hoje afirmar que”quem manda no MPLA é o Lara”, porque o camarada Presidente sobrecarregado com outras tarefas, não tem tempo para conhecer, em profundidade, na quantidade e qualidade, os grandes e graves problemas que afligem a Organização.
Todos os Comités de Acção em Luanda dos sectores Operário, Função Pública e Privada, Estudante e Intelectual, Bairros e Camponês – queixam-se do permanente bloqueio dos seus relatórios pelos actuais responsáveis do DOM / Regional. Os camaradas Beto Van-Dúnen e Mendes de carvalho, dizem sempre àqueles Grupos e Comités de Acção que os seus relatórios vão ter à Comissão Directiva e ao Bureau Político, o que se sabe ser completamente falso. Há que dizer mais: ao fim de dois anos de actividade aqueles camaradas revelaram-se totalmente incapazes para dirigir e fazer desenvolver a Organização.
O manual de marxismo-leninismo diz o seguinte, cito:
“Os quadros dirigentes não se encontram acima do Partido, mas sim sob o seu controle. Em condições democráticas, dizia Lénine, a actuação política do dirigente está sempre exposta aos olhos do público, como se se desenrolasse num teatro e perante espectadores.” Todos sabem que determinado político começou por sofrer uma certa evolução, agiu de tal maneira num momento difícil da vida, possui estes ou aqueles dotes, e é por consequência lógico que , com conhecimento de causa, todos os membros do Partido o possam eleger ou não para determinado cargo…
A “selecção natural” resultante da inteira publicidade, do carácter electivo e do controle geral, assegura que cada dirigente ocupa o lugar que lhe é próprio, se dedique à função que melhor corresponde às suas energias e capacidades, sofra em si próprio todas as consequências dos seus erros e demonstre perante todos que é capaz de reconhecer esses erros e de os evitar.” (22) Manual do Marxismo-Leninismo. OTTO V.KUUSINEM e Outros. II Vol. Pàg. 54) fim de citação. O sublinhado é meu.
Ai dos sectores revolucionários marxistas-leninistas se fossem abertamente militantes do princípio que reproduzimos acima. No dia seguinte seriam excomungados pelos bispos”duma outra diocese” pelo pecado mortal de ambição, da auto-promoção, etc. No MPLA quem estuda a ciência marxista-leninista, quem é dinâmico, quem é capaz dum trabalho teórico sério e criador é tido como ambicioso.
Aquele princípio leninista não existe para o MPLA; não tem qualquer significado entre nós. Em vez daquele princípio no MPLA ascendem os bajuladores e servilistas.
A opinião dos operários e de toda a massa de trabalhadores que é expressa dum modo democrático através dos organismos e escalões do nosso Movimento não conta. O que conta é o método Lara, cujo instrumento de acção são os responsáveis do DOM / Regional de Luanda, são os responsáveis do DOM / Nacional, do DIP e do DOP, quantos deles de militância duvidosa.
Como vemos, Lénine, nos seus princípios de Organização e ao falar da promoção dos quadros, apresenta todos os partidos verdadeiramente marxistas-leninistas o critério da”selecção natural”. Isto quer dizer que são as massas, as bases organizadas do Partido, são, enfim, os milhões de trabalhadores organizados, política e ideologicamente formados, quem, na base da eleição democrática, devem eleger os seus próprios dirigentes. Isto é assim porque os militantes enquadrados organicamente conhecem melhor os camaradas mais activos e dinâmicos, fiéis a classe operária e a revolução socialista; fiéis ao marxismo-leninismo (e não ao maoísmo e toda a sorte de revisionistas); comprovam esta dedicação e fidelidade na prática revolucionária desse ou daquele quadro do partido, desse ou daquele activista ou militante de base. E, com fundamento nesse critério, as massas assim enquadradas podem e devem, livre e soberanamente, sem manipulações nem fraude eleitoral, eleger os seus dirigentes, com garantia que a escolha elegerá os melhores militantes.
Não se deve, sob pena de minar a democracia interna, transportar os métodos guerrilheiros de escolha dos dirigentes para as condições da construção pacífica do socialismo científico. Durante a guerra, o centralismo é o elemento preponderante no conjunto do centralismo democrático: os dirigentes são predominantemente nomeados. Nas condições de paz, o partido deve combinar o Centralismo com ampla democracia interna, e o princípio de nomeação de dirigente deve imediatamente cessar para, na vida do partido, se dar lugar ao princípio da eleição. É claro, tudo isto pressupõe um trabalho acertado da Organização e formação sólida dos militantes do ponto de vista político e ideológico, a fim de prevenir qualquer tipo de oportunismo.
Tais são os critérios da revolução proletária. É a”selecção natural”. Ora, os camaradas que se revelem pelas suas capacidades, inteligência, prática revolucionária, não podem ser qualificados por outros dirigentes de ambiciosos, de auto-promoção. Nesta relatividade, às vezes, tais acusações escondem a verdadeira ambição e oportunismo de quem acusa. É o conjunto dos militantes que nas suas assembleias devem propor livremente os seus dirigentes. E quando este princípio é violado, instala-se no Organização o nepotismo, o amiguismo, o frentismo, a bajulação e adulação, o que equivale a um estúpido socialismo. Em tais condições aos militantes é negado o direito de livre escolha, e nos organismos dirigentes e centrais do Partido aparecem”dirigentes” injectados à força e contra o querer mais profundo da classe operária e seus aliados. A isto eu chamo o método de asfixia da democracia.
Ora, eu sou o que tenho consciência de mim próprio, sou aquilo que o Povo angolano conhece, com as minhas qualidades e defeitos, com as minhas virtudes e erros. Mas, jamais serei a caricatura que os reaccionários e toda a camarilha pró - imperialista tece sobre mim, com todo o torvelinho embusteiro das mais torpes difamações, dos mais execráveis boatos e das calúnias mais infames.
Por isso, exijo que o Povo, os militantes, a partir do centralismo democrático sejam ouvidos e se pronunciem, porque, tenho a plena consciência que sou vítima do capricho, do subjectivismo, da reaccionarice dos oportunistas, dos ambiciosos que se sentem mais ou menos negados objectivamente pela velocidade vertiginosa do nosso processo revolucionário. Eis uma verdade que vai espalhada em cada folha do conjunto desta peça de defesa. E não venham dizer que não sou modesto. Se não me sentisse revolucionário a consciência impedir-me-ia de fazer esta afirmação. Falar um pouco de verdade sem presunção, sobre nós mesmos. Sobretudo quando se trata de defender a nossa integridade e dignidade revolucionárias ultrajadas pelos oportunistas, não é imodéstia, é antes de mais uma exigência da moral revolucionária.
Quando o centralismo democrático é assim violenta e agressivamente violado origina o caos, a indisciplina, o oportunismo, a anarquia, etc. Isto é uma inevitável relação de causa e efeito. Isto fracciona objectivamente o MPLA.
Afinal, quem é o fraccionismo ?
Uma fracção pressupõe uma organização própria, uma disciplina própria, uma plataforma política, uma linha ideológica, centro de decisão, papeis, imprensa, reuniões, etc. Há quem possa demonstrar que eu procedo de acordo com os princípios de fracção acima referidos ? Tenham vergonha ; Mil vezes tenham vergonha !
Para fundamentar a acusação, o camarada Saydi Mingas, usando da palavra no 3º Plenário do Comité Central disse que, entre as origens de um (pretenso) segundo MPLA, estava o meu livro sobre a DIALÉCTICA E A GUERRILHA, onde combato, segundo o ousado crítico – acusador o Centralismo democrático, o que” gera a confusão ideológica” no seio da massa militante, disse.
Se ele dedicasse parte do seu tempo a estudar a teoria da Organização em profundidade ou mesmo se compreendesse o que diz ter lido, não produziria, como argumento de peso, uma afirmação tão altamente pedante, uma acusação tão lacunarmente proferida.
Eis, o que afirmo integralmente na página 47 do citado livro:”os centralistas democráticos devem ser vigorosamente combatidos também neste domínio.”
Como se vê, camaradas do Comité Central, não há na letra e no espírito desta frase, o combate ao Centralismo democrático, a grande descoberta da inteligência do camarada Mingas.
Pelo contrário, ao falar de” centralistas democráticos”, condeno exactamente o oportunismo dos que exageram a direcção colectiva e negam a necessidade da direcção unipessoal, o que constitui, em minha opinião, um desvio de esquerda. No caso concreto é a luta contra a concepção anarquista que apenas aceita o Estado Maior como absolutamente colegial, e nega a necessidade do Comandante – Chefe desse Estado – Maior.
Lénine encontramo-lo a combater energicamente o oportunismo dos Centralistas democráticos, como desvio anarco – sindicalista . Cito o ponto 6, do Projecto inicial de Resolução do IX Congresso do PC da Rússia sobre unidade do Partido:
“6. Pelas razões apontadas, o Congresso declara dissolvias e ordena a dissolução, imediatamente de todos os grupos, sem excepção que se tenham formado na base de outra plataforma (a saber:”oposição operária”,”centralismo democrático”, etc.) o não cumprimento desta decisão do Congresso acarretará a imediata e incondicional expulsão do partido.”(23) V.I.LÈNINE. Obras Escogidas. Tomo 3, pág 595, Edições Moscovo)
Como vêm camaradas do Comité Central, é o próprio Lénine que combate o oportunismo dos” centralistas democráticos”. O argumento do camarada Ministro dês Finanças” não colhe”! Quem se diz marxista-leninista e ataca essa posição fica reduzido à posição de quem tem tanta vontade de se associar à queima do Nito que acaba por perder as estribeiras.
E quando se começa a falar dos meus livros, talvez compreenda algumas razões de tanto ódio, furor e raiva que os meus adversários nem sabem disfarçar. Com efeito, no Huambo, a DISA sentiu-se na necessidade de mandar para os seus sinistros gabinetes três camaradas que tinham declamado dois poemas do meu livro: Arlete Timóteo (São), Ana Maria Vaz da Conceição e Maria Dulce das Dores Kaposso , por terem declamado, em público, poemas da minha autoria, viram-se forçadas a apresentarem-se nos gabinetes sombrios da DISA para interrogatório.. Outros agentes do sector oportunista e contra-revolucionário da DISA fizeram o mesmo na Huíla , onde outros jovens foram chamados à pedra por terem declamado poemas de Nito Alves por ocasião do 11 de Novembro. O que é isto? Quem ordena tudo isto? Isto andará longe do fascismo no domínio cultural?
Srs. da DISA, é tempo de saberdes que qualquer militante é livre de escrever com a condição de seus escritos não serem contra-revolucionários. E a capacidade do militante não pode ser ameaçada por ninguém. Em Cuba, para além do grande Fidel outros revolucionários escreveram e escrevem: na União Soviética para além de Lénine outros revolucionários escreveram e escrevem (e Lénine até elogiava e encorajava os seus camaradas que se dedicassem ao trabalho intelectual criador) ; no Viet Nam, para além de Ho Chi Minh escreveu Giap e tantos outros.
Vejamos como Lénine tratava esta questão de escrever em relação à liberdade de discussão e unidade de acção, em relação à democracia interna.
“Cada um é livre de escrever e de dizer tudo o que pensa sem a mínima limitação – escrevia Lénine. Mas toda a associação livre (inclusive o partido) é livre de expulsar de suas fileiras todo aquele que, aproveitando-se do nome do partido, propaga pontos de vista anti-partidários. O partido é uma associação voluntária que inevitavelmente se desagregaria, primeiro ideológica e depois materialmente, se não se depurasse dos seus membros que pregam pontos de vista anti-partidários”.
Ora, que crime contra - revolucionário há nas minhas obras, que crime”anti -MPLA”há nas minhas obras, para que a DISA ordenasse a um batalhão do sector reaccionário dos seus agentes provocadores, medidas que vão ao ponto de intimidação moral, cultural e psicológica a todos quanto lêem os meus escritos? Se há esse crime, quem mo demonstra cientificamente à luz da Revolução Cultural e da luta de classes na literatura revolucionária? Hoje, por mais paradoxal e incrível que pareça, o meu livro de poemas – para só referir este – não pode ser lido livremente, há uma sombra sinistra de fascismo intelectual que o congela e mortifica! Com que mortificação! Com que moral revolucionária se permite tudo isto? Qual é o grau de participação real e efectiva desses agentes do crime no processo das duas guerras de libertação nacional? Onde é que estavam durante, principalmente a Primeira Guerra de Libertação Nacional? Qual é a sua biografia militante?
Senhores da DISA; é tempo de aprenderdes de duma vez por todas que, nos países socialistas, no comunismo, todo o militante é livre de escrever, salvo os anti –marxistas - leninistas porque estes é que pregam os pontos de vista anti-partidários. E na nossa praça há muitos anti-marxistas-leninistas – para que baste lerdes discursos de certos dirigentes do MPLA que aparecem no jornal dito de Angola.
Assim. Para só citar um exemplo, em Cuba, o Povo revolucionário daquela República Socialista dedica um carinho muito especial ao líder da revolução cubana, o Camarada Fidel de Castro. Contudo, isto nunca impediu aos cubanos de admirarem outros tantos revolucionários como o Comandante Raul Castro, Almeida, Camilo Cienfuegos e mais outros. Todos estes vivem igualmente no coração do Povo cubano, e as amplas massas dedicam-lhe o seu carinho, afecto revolucionário, sem que isto diminua o valor e prestígio singulares próprios do Fidel de Castro e este não se sente incomodado por isto, antes pelo contrário. Por este considerando e princípios revolucionários, a Segurança Cubana não prende quem lê as obras de um Che , dum Raul, Camilo, dum Almeida, dum Carlos Rafael Rodrigues, dum António Macedo, e assim por diante.
São as massas que fazem a história. Em Angola são as amplas massas populares que fazem a história e isto não diminui o prestígio e o lugar histórico do dirigente, que possui o saber científico, a necessária experiência e capacidade de direcção. Em consequência são as próprias massas que também devem, em última instância , dizer se as minhas obras devem ou não ser lidas e não uma decisão feita em reuniões sigilosas de cúpula. Eu acredito firmemente no nosso Povo, na sua capacidade revolucionária, e é para ele , e para a revolução que procurei dar o meu contributo dentro da perspectiva de uma cultura popular, revolucionária e militante. Assim sendo, o nosso Povo, a classe operária, o campesinato, os sectores patrióticos e revolucionários da nossa intelectualidade, a juventude angolana, a eles cabe uma palavra, uma palavra soberana e revolucionária a dizer sobre o que escrevi num e noutro livro.
Em Angola, com que direito, moral e em nome de quem se pretende estatuir o monopólio da publicação de obras revolucionárias? O MPLA tem que habituar-se a viver da riqueza multilateral da inteligência e capacidade criadora amplamente existente no seio da massa militante.
Esta santa caçada aos meus livros e a todos quanto os lêem indigna profundamente e, declaro, isto constitui uma violência das mais ferozes e brutais.
A lista das acusações é enorme. Não posso esgota-la aqui. Entretanto nos últimos dias, a campanha é sobre demagogia. Tenho a impressão que estes senhores nem sabem o que é a demagogia.
Lénine dizia que há” demagogia” e demagogia.
“Mas precisamente porque escolheis essa odiosa expressão de”estímulo do exterior” que, inevitavelmente, inspira ao operário (pelo menos tão pouco desenvolvimento como nós a desconfiança perante todos os que lhe trazem do exterior conhecimentos políticos e experiências revolucionárias e que desperta nele o desejo instintivo de os repudiar a todos, agis como demagogo são os piores inimigos da classe operária.”
Lénine continua:
“É isto mesmo! E não vos apresseis a gritar contra os meus” processos” polémicos” aos quais falta espírito de camaradagem”! Não tenho dúvidas quanto à pureza das vossas intenções; já disse que a ingenuidade política é suficiente para fazer de uma pessoa um demagogo. Já demonstrei que haveis descido até à demagogia , e nunca me cansarei de repetir que os demagogos são os piores inimigos da classe operária, São os piores porque excitam os piores instintos da multidão, e porque é impossível, aos operários atrasados, reconhecer estes inimigos, que apresentam, às vezes sinceramente, na qualidade de amigos. São os piores porque, neste período, de dispersão de vacilação, em que a fisionomia do nosso movimento ainda se está a formar, nada há de mais fácil do que arrasar demagogicamente a multidão que só as provocações mais amargas poderá convencer do seu erro.”(24) V.I.LENINE. Obras Escolhidas, Que Fazer? Tomo I, pàg. 219-220. Edições de Moscovo.)
A ingenuidade conduz à demagogia, inevitavelmente, disse Lénine como se vê claramente acima. E para ele, os demagogos são os principais inimigos da classe operária. Em Angola os demagogos acusam-me de demagogia! É o inverso da lógica e teoria revolucionária.
É muito fácil hoje que as forças da direita lancem contra mim as imagens da Revolta Activa e da Revolta do Leste. Eis a mais estúpida e reaccionária demagogia. Incapazes no campo teórico, as forças de direita, com o concurso dos novos mencheviques angolanos, nada lhes falta para apresentarem ao Povo angolano o perigo de pretensos novos divisionistas. É o cúmulo da incapacidade total. Julgam que as amplas massas aceitarão passivamente tais calúnias!
Mas devo assegurar-vos que estão redondamente enganados. Não arrastarão senão os sectores oportunistas da pequena-burguesia. Estão redondamente enganados porque a classe operária. Os camponeses, sectores revolucionários da pequena -burguesia e a intelectualidade revolucionária do nosso País não se deixarão enganar por” cantos de sereia”. Os acontecimentos actuais já não podem ser deturpados, porque estamos todos nós mais do que nunca aptos e vivos. E é possível reconstituir com base no materialismo dialéctico e histórico, a verdadeira História do MPLA durante a Primeira Guerra de Libertação Nacional.
Como é que sou hoje comparado à Revolta Activa? Acaso os dirigentes do MPLA já se esqueceram quem são os camaradas que combateram energicamente a Revolta Activa, denunciando, em peça conhecida, o oportunismo dessa Revolta Activa? Quem foram os camaradas mais activos nesta trincheira? Tenham paciência e vergonha. Acaso ninguém se recorda de quem hesitou? E de quem deixou andar? Tenham mil vezes vergonha.
Da comparação com a Revolta do Leste, por vir de quem vem, por questão de princípio e por ser um evidente e revoltante insulto recuso-me categoricamente a falar!
Os gritos histéricos dos reformistas denunciam o seu real desespero, reflectem bem o medo que os mesmos têm em virtude do permanente aumento da consciência de classe do operariado angolano, o que explica toda a sistemática sabotagem ao trabalho de politização da classe operária.
Demagogos, dos mais descarados, sois vós – quem acusa um forte deficit de formação político - ideológica. Por isso sois o principal inimigo interno da classe operária. A máscara caiu-vos da cara e não vos será tão fácil vesti-la de novo e causar a mesma impressão, que causastes até hoje.
Como se tudo isto não chegasse, inventam oposição frontal ao camarada Presidente Neto. Esta é uma velha táctica que consiste em usar fraudulentamente o nome do camarada Neto, transformando-o objectivamente sem o seu consentimento, numa estranha sentinela e num forte defensor do castelo onde estão concentradas as tropas de direita. Confesso que este é um dos maiores crimes , a trama mais reaccionária , na história moderna do MPLA . Este jogo revela bem o lance do bom mestre de xadrez político que é o Secretário Administrativo do Bureau Político, que tem consciência plena de que o seu jogo é dos mais baixos e grosseiramente oportunistas.
Não se denuncia, publicamente um Ministério que alberga funcionários, nomes suspeitos, com base em elementos juridicamente importantes, ligados ao alto negócio de transferência de diamantes. Tudo acontece como diziam os velhos latinos; a censura poupa os corvos e persegue as pombas. Todas as acusações e calúnias, afinal, servem para justificar o oportunismo reformista, a sua insuficiência e incapacidade teóricas, a sua impotência para trabalho científico.
Com efeito, é frequente ouvir-se dizer que as causas determinantes do mau funcionamento da Organização como um todo são falta de quadros capazes de dinamizar as estruturas e a falta de consciência de classe do proletariado angolano.
São novos, no movimento revolucionário, estes queixumes? Claro que não!
No seu tempo, e perante situação, no essencial análoga nossa, Lénine escreveu, criticando a ala oportunista em matéria de organização:
“Não, a sociedade proporciona um número extremamente elevado de pessoas aptas para a”causa”, porém nós não sabemos utilizá-las a todas, neste sentido, o estado crítico, o estado de transição do nosso movimento pode formular-se do seguinte modo: não há homens e há uma infinidade de homens.” (25) V.I.LENINE. Obras Escogidas, Tomo I, pàg. 224, Edições de Moscovo.)
Não é o estado actual do MPLA? Então porque nos acusais quando os verdadeiros réus são os nossos acusadores?
“…Em qualquer Partido, a ala oportunista defende a justifica sempre todo o atraso em matéria de programa, de táctica e de organização” diz Lénine (26) V.I.LENINE. Sobre os Princípios de Organização do Partido do Proletariado, pàg. 123, Editorial Estampa.) Tomei a liberdade de sublinhar.
Os oportunistas no MPLA, como o demonstrei, segue as velhas lições dos velhos mencheviques em matéria de organização.
- Categoria 13 Teses




