8 - A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DA TEORIA
01.02.2004
Em qualquer movimento revolucionário, as forças conservadoras, quando dominam determinadas posições importantes na vida política do País, tudo fazem para menosprezar a importância da teoria. Apresentam o estudo da teoria como actividade própria dos”esquerdistas”, como se fossem monopólios dos”esquerdistas” e não dever dos revolucionários.
E quando se vêm visivelmente ultrapassados pela dinâmica vertiginosa do processo revolucionário, passam a caluniar os camaradas que se dedicam ao estudo teórico como”elementos que digeriram mal” as teses de Marx, Engels e Lénine,”camaradas que não sabem que o marxismo-leninismo é um guia e não um dogma”, etc. Eu só digo a esses camaradas: só deve falar da má digestão dos outros quem já o digeriu e bem. E onde está e como se manifesta a vossa boa digestão do Marxismo-Leninismo? Será que ao menos, já se sentaram à mesa?
Por quê este comportamento por parte de alguns dos dirigentes mais destacados até do MPLA?
Ao que nos parece a frase de Lénine”sem teorias revolucionária não há movimento revolucionário” é aplicável, e um guia para a acção também no nosso país.
A ausência do trabalho teórico criador e profundo, é uma das causas principais capazes de explicarem o empirismo, o mecanismo, o praticismo e todo um conjunto de taras em presença. A prática que se realiza sem uma teoria revolucionária criadora mente aplicada, está longe de se chamar, com rigor, de prática revolucionária. O abuso da terminologia marxista-leninista, a sua deturpação pelo simplismo maoísta, tudo isto decorre necessariamente do abandono da teoria.
Alguns dos nossos dirigentes se esquecem que o método dialéctico é inseparável da teoria marxista-leninista. É completamente impossível dominar a teoria revolucionária sem o domínio do método, isto é, da dialéctica materialista marxista. Mas o estudo, o domínio do método dialéctico revela-se muito mais difícil do que a aprendizagem de certas teses da economia política, do movimento de libertação nacional, da transição para o socialismo, etc. Talvez seja por esta razão que a maioria de militantes dão maior atenção a essas teses do que ao método, ou seja, do que ao estudo da filosofia marxista.
Um dos grandes teóricos marxistas dos nossos dias Rodney Arismendi , Primeiro Secretário do Comité Central do Partido Comunista do Uruguai, diz – nos que” entre o materialismo dialéctico e histórico e a teoria do partido existe uma relação natural, uma conexão profunda ; para usar o léxico de Hegel, são”momentos” distintos da concepção do mundo do marximo – leninismo.
E isto ocorre deste modo, exactamente pelo facto de que a própria teoria marxista - leninista do partido foi elaborada à base do método dialéctico. Sem este, não há verdadeiramente nenhuma teoria revolucionária que mereça tal nome.
Filosofia, economia política e revolução são três componentes inseparáveis do marxismo-leninismo. Inútil será todo o esforço dirigido no sentido da negação desta verdade objectiva e absoluta.
Se os dirigentes do MPLA em todos os escalões aplicassem o método dialéctico para a compreensão do fenómeno revolucionário no nosso país e no nosso Movimento, cedo constatariam que a Circular nº 1, apesar do seu carácter inovador, é um documento anti-estatutos do MPLA , é a negação dos nossos Estatutos. Esta circular para além de negar objectivamente os Estatutos, é ainda o documento que no plano”legal”opera e legitima o esquerdismo e o divisionismo em matéria de organização, o verdadeiro desvio de esquerda: com efeito os Comités de Partido não se formam à base de sectores operário, função pública, ensino, porque isto conduz necessariamente a exacerbação das contradições de classe no seio do próprio movimento de libertação nacional. Vejamos o que Lénine diz a este respeito:
“…(O Comité) deve ser integrado por operários e intelectuais conjuntamente, visto que separar uns e outros em dois Comités seria pernicioso. Isto é absoluta e inquestionavelmente exacto.” Isto frisamos nós, é um princípio absoluto. (ver anexo sobre o Estudo Comparado dos Estatutos e da Circular nº1).
Com o método revolucionário, saberiam descobrir as causas objectivas do surgimento do esquerdismo e do direitismo ; saberiam distinguir o esquerdismo de tipo clássico do maoísmo militante; saberiam ver o carácter absoluto e relativo das teses e princípios marxistas-leninistas; teriam uma visão mais profunda do que é isto de prática revolucionária.
É tempo de se abandonar o método oportunista de justificar a indolência, o manilovismo , a incapacidade, com acusações de etiqueta aos outros. Alguns camaradas devem ter a honra e humildade suficientes neste domínio para reconhecerem as suas limitações, incapacidades e insuficiências neste domínio e admitirem que tudo isto constitui causa dialéctica que impede a marcha da revolução.
Estes camaradas é que são os verdadeiros ambiciosos, os demagogos. Porque, tendo consciência da sua preguiça mental, impedem a marcha da revolução. Não gostam de se instruir e projectam sobre os outros os seus defeitos. Estes dirigentes fazem muito mal à nossa revolução. Nada conhecem de profundo e estável e nem querem aprender, mas querem dirigir, coactivamente. E para realçar os prejuízos que como estes causam à revolução citaremos M.M.Rosental e G.M.Straks, falando das causas objectivas e subjectivas dos fenómenos sociais, no seu livro O Fenómeno e a Essência:
“As causas subjectivas compreendem a actividade política, a estratégia e a táctica das classes e dos partidos assim como a actividade de algumas personalidades, que podem acelerar ou entravar o aparecimento de determinados fenómenos sociais e orientar o desenvolvimento social pelo caminho mais curto ou leva-lo por outro mais difícil e penoso.”
E continua
“O marxismo-leninismo ensina-nos que se os homens, as classes ou os partidos actuam de acordo com as relações causais objectivas dos fenómenos sociais, os processos objectivos do desenvolvimento histórico aceleram-se. A actividade do Partido Comunista da União Soviética constitui um brilhante exemplo de actividade que contribui para acelerar o desenvolvimento progressista da humanidade.
Pelo contrário, se os homens, as classes ou os partidos actuam contra as causas objectivas dos fenómenos, os processos de desenvolvimento progressivo social ver-se-ão entravados.”(27) Obra citada, pág. 106 Fim de citação.
“Ao falar da importância da dialéctica, um extracto da Declaração da Conferência de representantes dos Partidos Comunistas Operários dos países socialistas realizada em Moscovo de 10 a 16 de Novembro de 1957, dizia:
“Se um partido político marxista não examina os problemas partindo da dialéctica e do materialismo, tal conduzirá forçosamente a critérios unilaterais e ao subjectivismo, à petrificação das ideias ao afastamento relativamente à prática e à incapacidade para realizar a análise adequada das coisas e dos fenómenos aos erros revisionistas ou dogmáticos e aos juízos errados em política”.
É preciso escrever mais? Por acaso há disto no MPLA? Não são assim alguns dos seus dirigentes? Tenham paciência. Em vez de ataques pessoais e calúnias o que precisam é de estudo – admitam-no com humildade – e só assim estarão em condições para penetrar a essência das nossas divergências.
E para que não continuem a atirar sobre mim o vosso oportunismo, a vossa inércia, o vosso imobilismo, porque, como vem, o oportunismo e demagogia tem também a sua origem na insuficiência teórica, direi, ao Secretário Administrativo do Bureau Político bem como aos seus apaniguados no Comité Central como Lénine escreveu em QUE FAZER ? :
“Um revolucionário amolecido, vacilante nos problemas teóricos, limitado no seu horizonte, que justifica a sua inércia com a espontaneidade do movimento de massas, mais parecido com um secretário de trade - união do que um tribuno popular, sem um plano audacioso e de grande envergadura que imponha o respeito até aos seus adversários, inexperiente e inábil na sua arte profissional, não é, desculpem, um revolucionário, mas um pobre artesão .”fim de citação.
Em 1975, no fim de uma palestra que então presidi na Biblioteca N’Zinga Mbandi , o Secretário Administrativo do Bureau Político surpreendeu fantasticamente o auditório. O tema era a Análise das Classes Sociais em Angola. Insurgindo-se contra a essência do tema, dissera que a”análise não passava de uma forma estereotipada,”importada”, e que nada reflectia da realidade angolana, onde a questão de classe não está nada definida: Como é possível que um dirigente ao mais alto nível do MPLA pode pronunciar-se naqueles termos, perguntaram-se todos os participantes.
O ponto de vista do camarada denunciava já naquela altura, a concepção do “socialismo nacional” do actual Secretário Administrativo do Bureau Político. Oiçamos o que nos diz R.Oulianovski, no seu livro, Le Socialisme et les Pays Libérés:
“à base de certos”socialismos” de tipo nacional encontra-se a ideia da impossibilidade de análise científica de classe, para o estudo, por exemplo, das vias de desenvolvimento de certos países de África.”
A aceitar o ponto de vista do Secretário Administrativo do Bureau Político ficaríamos incapacitados de analisar a contradição fundamental dentro da opção socialista. Afinal, o teoricista é o próprio Secretário.
Mas Lénine diz que:
“Não se pode chamar marxista-leninista aquele que despreze os princípios gerais do marxismo-leninismo e, sob pretexto de especificidade das condições, procure substitui-los, fazendo passar esta substituição por desenvolvimento da teoria.”
“A obrigação mais importante do partido revolucionário é a defesa e o desenvolvimento da teoria revolucionária – o marxismo-leninismo – e a luta contra a ideologia hostil, bem como contra quaisquer deturpações da teoria marxista - leninista. O partido é responsável pelo desenvolvimento da teoria a um nível tal que seja verdadeiramente avançada. A teoria deve adiantar-se à prática. Todo o atraso da teoria pode prejudicar irreparavelmente a causa do partido, a classe operária e as massas laboriosas. O atraso da teoria faz com que o partido marque passo, privando o movimento operário de força e de perspectivas de desenvolvimento”. Eis o que nos ensina Victor Filatov na sua brochura”Como se Formou o Partido Comunista da União Soviética”.
Porque adopta uma posição contrária , há muito o marxismo – leninismo desconfia de si, camarada Secretário Administrativo do Bureau Político.
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