Alberto Fortunato Manuel “Betão” 1955-1977

21.05.2006

Betão

Decorria o ano de 1976, quando Manuel Francisco Neto recebeu, na condição de pai, a seguinte carta:

“Exmº Senhor Saúde e felicidades.

Venho por este meio expor à família de pai da menina Jacinta que a mesma tem laços de amor com o meu filho Alberto. Por causa disso, ela mediante o pedido de meu filho, autorizou-me a escrever-lhe esta carta com o fim de pedir-vos a mão de vossa filha.
Espero que a vossa resposta seja amável, fortalecendo o meu coração e o da minha família.

Com respeito e consideração subscrevo-me.
Luís Fortunato Manuel”

Betão

Acontece o 27 de Maio e Jacinta que entretanto dera à luz uma menina, não concretiza o pedido do sogro, não consuma o casamento pois já a Disa anda no seu encalço, tudo porque o seu prometido e pai do seu rebento, acabara de praticar dois “crimes” capitais. Militante do MPLA, trabalha na Rádio Nacional, o que não vislumbra qualquer recriminação, mas, e no “mas” está metade da culpa, colaborava no programa radiofónico KUDIBANGUELA. Não bastando o anterior “desvio”, complete-se o delito: era membro da COMISSÃO POPULAR DE BAIRRO DO SAMBIZANGA.

Com tanto pecado às costas, e alvo das bárbaras perseguições que fizeram história na época, ALBERTO FORTUNATO MANUEL, o “BETÃO” como era conhecido, esconde-se e só se apresenta aos perseguidores quando tem conhecimento de já a sua companheira, objecto de chantagem, ter passado pela prisão e experimentado a tortura.

Betão dá entrada no MINISTÉRIO DA DEFESA em Julho de 1977, e foi o bastante para desde essa data, como a tantos outros que por aí passaram, mais ninguém saber do seu paradeiro.

Deixou uma filha que acabou, fruto do tumulto, por não merecer o seu nome. Quando indagámos por ele junto de pessoas que lhe eram próximas na época, ainda o medo ou a auto censura, todos se recusaram a contar sobre o que sabiam da sua vida e emprego.

Lisboa 13 de Maio de 2006

- Categoria Biografias

Comentários

8 Reacções a “Alberto Fortunato Manuel “Betão” 1955-1977”

  1. Mateus da Costa 22.05.2006 - 17:15:21

    Foi bom ler este relato, e ao mesmo tempo sinto-me indignado pelo nosso passado nunca divulgado pelo governo do pais. Sou angolano e resido no brasil a ja um tempo, continuem lutando e contem comigo.
    Obrigado.

  2. Marcio Cândido 23.05.2006 - 14:54:22

    Olá amigos estou mesmo muito enteressado em saber mais sobre toda história sobre o fraccionismo e desde já contem comigo porque ainda nao fui envenenado nem pelas cervejas nem pelas maratonas do MPLA.

    Estou a fazer licenciarme em jornalismo e darei todo o apoio possivel.

  3. Carlos João 27.05.2006 - 00:29:11

    Antes de tudo meus profundos sentimentos as familias dos que desapareceram num dia como o de amanhã 27 Maio. Agradeço por criarem este site. Saibam que existe muita gente interessada em saber mais sobre este periodo vermelho da nossa história. Muita força e vontade que esta história não contada será um dia revelada.

  4. V'ndongo 14.06.2006 - 18:27:17

    Sou mulher de um sobrevivente e tenho amigos que estiveram presos ou desapareceram…… até hoje estamos à espera que nos deêm uma certidão de óbito para finalmente podermos fazer o nosso comba e exorcizar os nosssos medos….Acho que todos os afectados por este massacre (sobreviventes, familiares e amigos) deveriam fazer o seu testemunho sobre os acontecimentos, para que se possa fazer a lista dos desaparecidos e apurar a verdade.Sei que é doloroso, mas quanto mais quisermos esquecer mais pesadelos vamos ter. Assim é preferível falar com outros e escrever á medida que vamos conversando e escrevendo vamos lembrando de outros factos e ficando mais libertos menos bloqueados, precisamos de nos ajudar. Escrevam para o site.Agora, não se esqueçam de assinar o abaixo-assinado. Eu já assinei e vou dar o meu testemunho. Com tantos mortos é uma vergonha só termos ainda 30 assinaturas. Bem ajam pela coragem. Lembrar para não esquecer.

  5. Nzinga 06.10.2007 - 15:10:52

    Este sr Alberto Fortunato é familiar do Pedro Fortunato?

  6. Assoc 27 Maio 08.10.2007 - 10:23:17

    O jovem Alberto, mais conhecido por Betão, era sobrinho do Comissário Provincial de Luanda Pedro Fortunato. A comovente história da sua vida foi-nos relatada pela sua companheira, que sobreviveu às torturas infligidas na 7ª esquadra quando foi detida e espancada para denunciar o paradeiro de seu marido,Betão. Em vão! Dessa vez os algozes desconseguiram…

  7. heitor feijo 19.02.2009 - 21:20:41

    uma pena para familia. uma vergonha para o país
    que só cria odio e revolta em minha mente. sou jovem de 24 anos mas sinto como se eu tivesse vivido aquilo. gostaria de saber qual o paradeiro da filha e da mulher de betão

  8. João 27.02.2009 - 05:55:48

    O nosso coverno do passado e o actual são cumpli-se por tudo isso porque o que aconteceu com o Betão no passado! esta acontecendo com muita gente lá em angola no presente ou seja actualmente…..Por isso “Z” não assusta o dia em que o povo angolano se revoltar contra esse teu governo de meia tigela……

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