CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DE ANGOLA
26.05.2010
Exmo. Senhor Presidente:
Dirigimos-lhe de novo um apelo, quem sabe pela insistência se obtenha a ansiada resposta que aguardamos há anos.
A nossa memória é perene e, passados trinta e três anos, a tragédia que desabou em Angola a 27 de Maio de 1977, insiste em estar presente. Se o seu silêncio, por demais continuado, acarreta o esquecimento, em nós, pelo contrário, incute perseverança, até que colhamos da vossa parte o sinal de vontade em dispensar tratamento digno a tão pungente assunto.
Nós, sobreviventes e familiares dos desaparecidos, sustentamos uma opinião contra o esquecimento, da qual lhe demos sempre conhecimento, por o considerarmos um singular conhecedor, sobrevindo a relevante posição que detém na hierarquia do Estado e da Nação. Assim foi que, na primeira carta aberta que lhe endereçámos, decorria o ano de 2003, sugeríamos a criação de uma entidade pública e independente confiada a apurar os factos que viessem a sustentar a verdade, a responsabilizar os infractores, recaindo sobre eles o ónus da justiça, e que por fim se empenhasse na reparação dos danos. Serve de exemplo o que foi praticado noutros lugares, lá onde as sociedades se depararam com idêntico legado, tendo os processos que conduziram à verdade e à justiça decorrido pública e de forma transparente, antecipando-se sempre a uma eventual reconciliação/perdão.
Considerado o nosso parecer, é nossa convicção que daí em diante, ao lembrarmos a passagem de mais um 27 de Maio, poderá a Nação Angolana sentir-se orgulhosa por se ter encetado o ajuste de contas com a História. Assim sendo, os relatórios das organizações internacionais pelos direitos humanos anunciarão progressos, as certidões de óbito estarão por fim entregues, será público o rol dos desaparecidos, identificados estarão também os locais onde jazem as vítimas, conhecidos os seus autores, a sua prática e os seus propósitos, os mortos terão sido exumados para lhes ser dada sepultura digna, a verdade contada, a justiça exercida e, quem sabe, num gesto de preservação da memória, um monumento erigido às vítimas. O dia será de luto.
Pelo exposto, apelamos uma vez mais à sua consideração. Da nossa parte continuaremos a lembrar para não esquecer.
Lisboa, 27 de Maio de 2010
A Associação 27 de Maio
Edgar Valles
Jorge Fernandes
José Fuso
José Reis
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[...] CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DE ANGOLA [...]
Há 33 anos o sangue correu em Angola!
Passados 33 anos nada foi feito!
A propósito…
“Julgamentos” de Nachingwea não estão esquecidos
Familiares de pessoas desaparecidas vão criar Associação
Os familiares de cidadãos moçambicanos desaparecidos no âmbito dos chamados “julgamentos” de Nachingwea e do sistema de reeducação implantado em Moçambique pela FRELIMO estão em vias de criar uma associação.
O Canalmoz soube de reputada fonte que está prevista para breve uma reunião de familiares de pessoas desaparecidas após a realização dos “julgamentos” de Nachingwea, organizados pela Frente de Libertação de Moçambique em território tanzaniano em 1975. “A Associação procederá à compilação de um cadastro detalhado contendo os nomes de todos os desaparecidos e as circunstâncias da sua prisão arbitrária em território nacional e rapto em países estrangeiros, cadastro esse que formará a base de processos judiciais a serem movidos contra o Estado de Moçambique junto de instâncias de Direito competentes.”
A fonte acrescentou que a par dessa medida, a Associação irá solicitar a obtenção do «Estatuto de Observador» junto da Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (ACHPR), órgão da União Africana.
“Contamos com o encorajamento de diversas Instituições de Defensores de Direitos Humanos e estamos confiantes de que os justos interesses dos familiares dos cidadãos desaparecidas serão salvaguardados, pelo menos em fóruns de Direito Internacional”, referiu a fonte ao Canalmoz.
CANALMOZ – 25.05.2010
gostaria de saber mas sobre este assunto.
General assume que travou levantamento de 27 de Maio de 77
O actual general de brigada cubano Rafael Moracen Limonta assumiu, numa entrevista concedida há três anos, a sua participação activa no desfecho dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, uma atitude jamais assumida pelos intervenientes angolanos.
De acordo com uma entrevista que pode ser lida no sítio http://www.granmacubaweb.cu o general cubano, que ao tempo era o responsável pela segurança do presidente Agostinho Neto, dirigiu pessoalmente as acções que culminaram com a tomada da Rádio Nacional de Angola então em poder dos insurgentes.
“Em nosso poder, a rádio não deixou de transmitir. Fui, arrebatei o microfone do locutor e o obriguei a dizer “Viva Neto”.
Depois pronunciei umas palavras fortes e comuniquei à população que a rádio estava nas mãos da revolução”, recordou o militar cubano na entrevista que faz parte do livro “Segredos de generais”.
Antes de chegar a esta situação, segundo declarações suas, os militares cubanos que se faziam transportar em veículos de combate BTR em número de 200 soldados puseram-se a executar os mesmos movimentos que os militares insurgentes, patrulha em volta das instalações da RNA, até que se dá um episódio fatal.
“Nos incorporamos também a dar voltas ao redor da Rádio Nacional. Em determinado momento, confundo os meus soldados com os da contra-revolução, todos estávamos vestidos iguais, mas um dos militares leais é reconhecido e se formou um tremendo tiroteio”, recordou o general cubano.
A rádio foi assim tomada por quinze militares fiéis ao presidente Agostinho Neto, entre cubanos e angolanos, juntando-se depois cerca de 20 militares que se faziam transportar nos veículos BTR e outros camiões militares.
Depois da tomada da rádio, Rafael Moracen Limonta diz na entrevista ter telefonado para o chefe da Missão Militar Cubana, o agora general de corpo de exército Abelardo Colomé Ibarra, a solicitar a sua companhia de tanques que havia sido enviada para o Palácio do Povo e com a qual tinha dificuldades de comunicação.
O militar cubano revelou igualmente que já havia um conhecimento prévio da situação, tentativa de suposto golpe de Estado, mas que Agostinho Neto sempre minimzou.
Entretanto, os cubanos disseram ao presidente angolano que não estivesse no Palácio, mas apesar de tudo “disse que para ir a outro lugar tinha de certificar-se que o Palácio não seria tomado”.
Para garantir isso, o actual general de brigada Rafael Moracen Limonta retirou da sua unidade duas companhias para reforçar a guarda presidencial.
O general cubano, que já não dormia desde a noite de 26 de Maio, foi até ao Palácio assim que ouviu os primeiros disparos na madrugada do dia seguinte.
“Ao chegar ao Palácio, deparou-seme uma manifestação que avançava com os militares golpistas com o objectivo de tomar a presidência.
Dei ordem de que eles não podiam apoderar-se do palácio. Dei instruções à unidade para que, formada em coluna, estivesse pronta para sair até Luanda”, lembrou o general cubano.
Na verdade, esta unidade de tanques encontrava-se na área da Vidrul, arredores de Luanda, e a sua movimentação para a capital tinha sido objecto de um pedido do Presidente Agostinho Neto, tendo sido levada à capital pelo próprio general Rafael Moracen Limonta.
Neto pediu intervenção cubana
Numa outra entrevista, o general de corpo do exército Abelardo Colomé Ibarra “Furry”, admite ter falado com Agostinho Neto sobre o golpe e a disposição dos militares cubanos de entrarem em acção e “o presidente pediu que actuássemos”.
Furry diz ter havido um desconhecimento da composição das forças e meios com que contavam os sublevados e por esta razão procurou o contacto com o então ministro da Defesa, Iko Carreira, que lhe pareceu frio para a gravidade da situação.
“Ofereci-me para o ajudar no que estimava que fosse conveniente. Estava com uma grande passividade, como que esperando que o fossem buscar para ser fuzilado”, disse Abelardo Colomé Ibarra.
Apesar de terem ficado sem os batalhões de tanques para a efectivação do contra-ataque, os cubanos ainda assim socorreram-se de tanques destinados à instrução e marcharam para a nona brigada que foi tomada sem problemas.
Eugénio Mateus
(Retirado de http://www.opais.co.ao/pt/opais/?id=1&det=13039&mid=229 )