O Meu Poema é o Povo
26.05.2005
O poeta não faz o poema
O poeta escreve a poesia
As massas fazem o poema de ouro que não podem escrever
o povo compõe belos versos que não pode desenhar.
Nos charcos se faz poema de guerra
nos campos arrasados pelas bombas de fogo
o povo canta um poema na travessia de um rio
que devora os que não sabem nem podem nadar
os mortos nos legam versos que não podem ler.
Poemas de Nito Alves
O MEU POEMA É O POVO
O poeta não faz o poema
O poeta escreve a poesia
As massas fazem o poema de ouro que não podem escrever
o povo compõe belos versos que não pode desenhar.
Nos charcos se faz poema de guerra
nos campos arrasados pelas bombas de fogo
o povo canta um poema na travessia de um rio
que devora os que não sabem nem podem nadar
os mortos nos legam versos que não podem ler.
O meu poema não sei escrevê-lo também
não posso escrever o poema que sinto no peito
por serem vários os versos.
São tantos os autores do meu poema
e versos assim trazem rima doutra inspiração.
Rimam em cada metralha que dispara
rimam no chorar do órfão
rimam nas grutas protectoras do guerrilheiro.
Não sei escrever este poema.
Gostaria de cantar o poema que me bate no coração
mas não posso
porque este é o próprio Povo em armas
e só ele deve continuar
a fazer o poema que eu não posso redigir
nem ele pode ler também!
Os que fazem a História
Nem sempre podem escrevê-la.
NOITE CINZENTA DE GUERRILHEIRO
Cai a noite cai o frio cai o cacimbo.
A lua é uma estrela prateada no acampamento do guerrilheiro.
Quero dormir descansar um pouco
quero repousar o fardo do meu corpo fatigado.
Quero meditar
Observar
Pensar
Quero escutar
Vigiar
Quero dormir.
Não posso entretanto esticar os pés
porque os dedos ficam fora da manta curta e esburacada
quero tapar a cabeça
quero proteger a cara os olhos os ouvidos
mas não posso
porque ainda que eu estique a manta curta e rasgada
não consigo cobrir-me todo
não consigo cobrir-me dos pés à cabeça.
Quero meditar
vigiar
descansar
quero ouvir
escutar
interpretar e compreender
O cacimbo tão forte tão frio como o gelo
abre feridas sem mercúrio
nos meus lábios já plenos de avitaminose.
Quero uma fogueira para me aquecer.
Não posso aproximar-me muito dela
porque assim terei o sangue queimado
nem posso me afastar tanto do lume
porque então a atmosfera feita frigorífico
far-me-á tremer de frio toda a noite.
Quero uma fogueira para ao menos me aquecer.
porque não tenho nada
nada que me defenda da agressão da natureza
não tenho tenda
não tenho lençol nem hoje consegui arranjar o ndulo;
as leis da guerilha
castigar-me-ão se eu acender lume
sinal de traição ao guerrilheiro.
uero dormir
Descansar um pouco
Quero estar no meu posto de sentinela.
Apago o lume acabo com a fogueira.
faço arco os joelhos mortos de frio
junto os braços aos joelhos dobrados.
durmo e acordo várias vezes na mesma noite
levanto-me
sento-me
encolho os pés
caio
fico assim agitado até ao romper da manhã.
Eu sou guerrilheiro
não tenho manta
quero dormir.
Minha missão é contribuir para modificar o mundo
e hei-de consegui-lo
mergulhado no frio
atormentado e molestado pelo cacimbo
ou castigado pela fornalha dos dias de sol;
hei-de realizar esta transformação na terra
ainda que o gelo das noites frias dos meus atalhos
se confundam com o calor arrasante que piso com os pés desnudados.
Para fazer tudo isto
Não há sacrifício para contar e medir.
Hei-de fazer a revolução proletária até ao fim
Porque ninguém nada mais me impedirá de realizá-la.
PORTAS FECHADAS
Como se fecharam
Como estão encerradas
Como não se abrem
As portas para estas paragens
Para esta Região
Onde se luta
Onde as populações perecem
Onde os guerrilheiros triunfam
Triunfam
Triunfam
E morrem morrem na flor da juventude;
Onde as crianças se julgam abandonadas
Onde o cerco inimigo aperta
Mas… onde as vontades
E as consciências declaram:venceremos.
Silêncio nas consciências
Silêncio no pensar
Silêncio na madrugada
Silêncio
Silêncio nas massas populares
Silêncio no coração dos camponeses
Silêncio no quartel do guerrilheiro
Silêncio nos canos das armas vazias
Silêncio
Silêncio na pergunta
Silêncio na resposta
Silêncio na noite maliciosa
Silêncio no esperar.
Eis os túmulos abertos para combatentes que ainda respiram
A fortaleza que resiste ao desfio de fogo intenso
A nossa decisão inquebrantável
A nossa razão feita força invencível
E todos nós repetimos:venceremos
Só
Somente do porvir
No seu terso linguajar
Na imparcialidade da sua justiça
Só de ti Povo
Aguardemos a revelação
Das várias mãos criminosas
Que estas portas fecharam.
Mas sabemos
Que nas mãos venenosas de certos filhos renegados da Pátria
Jazem chaves destas portas fechadas.
A História fará justiça?
RUÍNAS DE UM CRIME
Quando parti em busca da cidade
Onde também morava o sofrimento
a dor a humilhação
onde outros como eu lutavam com o destino
onde crianças como eu deitavam na face
lágrimas de escravo
não pensei que te encontrasse queimada.
Parti
Deixando amigos de infância
A lúgubre alegria da aldeia escrava
Os atalhos no mato
Os amáveis regatos
O céu límpido
O ondular das montanhas
A frescura delirante da paisagem bucólica
A fogueira inebriante
A melodia das maravilhosas aves sonoras
Os pobres brinquedos
Da pobreza dos escravos.
Por uma carta ensanguentada
Das mãos empoeiradas recebida
Dum cativo como eu
Ainda na carroçaria do camião colonialista
Mãos disformes
Mãos torturadas no trabalho forçado
Mãos de uma rude época
Abro a mensagem dum selvático crime:
Jovens adultos
Assassinados e queimados ao lume
Outros pelos tractores ceifados
Foram todos abandonados à terra que os viu nascer.
Ó vós
Rios de Angola como o Dange
Nas vossas águas repousam estes heróis
No vosso leito jazem ossos da História
Choram esqueletos de muitos revolucionários.
Quando
Tempos depois passei por ti
Só vi árvores sombrias
Nuas e cansadas
Só ouvi árvores sombrias
Nuas e cansadas
Só ouvi o fúnebre cantar dos pássaros
ó vi paredes abatidas e ruelas chorosas
Mas pessoas já não as vi
Só vi ruínas de um crime
Ruínas que um dia falarão!
DIREITO À DEFESA
Que salutar consolação revolucionária
Responder em verso
azer também da poesia
instrumento de negada defesa
diante de magistrados arrogantes
sentados na cátedra
do ilegítimo tribunal
que meus versos vão contestar.
Acusado fui nos tribunais conservadores
Na corte dos juízes reformistas
Fui condenado
Sem acusação formada nem confirmada
Sem julgamento nem sequer rudimentar
Sem direito à defesa elementar
Fui para a cela do tempo e dos homens
E ao público trabalhador
Não me deixaram
Apresentar documentos que eu tenho a meu favor.
Vulgaríssimos democratas
Elitistas
Herdados da apodrecida
Sociedade colonial destroçada
Toda a tacanhez do pequeno-burguês obcecado
as todos
Foram juízes da condenação
Dum réu montado
A quem os homens e o capricho do tempo
Negaram o direito à defesa.
Carreiristas de todos os tempos
Revoltas de todas as épocas
Todos me julgaram à sua maneira
as da matéria do crime
Ao povo trabalhador
Em quem acredito profunda e absolutamente
Não foi dado conhecimento!
Agentes estranhos desconhecidos invisíveis
andados não sei por quem
Perseguiram e perseguem a minha sombra
Exposta entretanto a figura à luz do dia.
Já não sei onde começa e acaba a C.I.A.
Que importa a cabala do social-chauvinismo
Se a revolução continua
Que importa nojento tribunal do nacional-reformismo
Se a revolução continua
Que importa a incompreensão humana
Se a revolução continua
Que importa tombar lutando
or uma bala
Venha da CIA
Ou do nacional –reformismo
Se a revolução continua.
Que importa tudo isto
Quando se tem
A consciência tranquila e firme do dever que se cumpre.
A inércia o oportunismo o arrivismo
A indecisão a tibieza
A contra-revolução
São os meus únicos juízes
E a poesia é uma das minhas testemunhas.
E a história
lgum dia
Ainda que distante do tempo
Ditará na sentença
E desaparecerá a injustiça consentida e legalizada
Estará resolvida
A contradição do capitalismo
Entre o direito aplicado
E uma justiça profundamente sentida
A LUTA CONTINUA!
PODER POPULAR
A luta revolucionária continua
Pelo poder popular
A luta revolucionária continua
Pela pátria dos trabalhadores
Pelo socialismo científico.
Operários levantai o braço
Fazei das fábricas-escola da Revolução
Camponeses levantai a enxada
Transformai os campos verdejantes
Em viveiro vermelho da Revolução.
O poder popular é a luta incessante
Contra o analfabetismo
Contra a miséria
Contra a injustiça social
Contra a doença
Contra a alienação do homem
Contra a reacção
Contra a submissão humana
O poder popular
É um límpido clarão
Na sala escura dum povo oprimido.
O poder popular
É o grande exército da massa de trabalhadores
Unidos para a edificação duma nova pátria
São milhares de camponeses
Ardendo no fogo do entusiasmo contagiante
Pela transformação radical da face enrugada da Pátria.
O poder popular
É esta força do povo cansado de exploração
Que cortará pelo punho os novos exploradores.
Raio de sol consolador
Na madrugada da liberdade.
O poder popular é vosso
Operários e camponeses
Conquistaste-lo no árduo caminho manchado de sangue
Erguei até às nuvens agarrai com força
O guião fulgurante do poder popular.
Não permitam
Que os novos exploradores sem cor
O arrebatem das vossas mãos.
Viva o poder popular!
Poemas de Nito Alves
- Categoria Maio Cultura
Comentários
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Estes poemas sao bons de ler. nao consigo situa-los claramente no tempo. Gostaria de saber quem os escreveu e quando. Obrigado
São poema muito gostoso de ler, epena que nao posso aplaudir o ator que as creveu mais posso disere que foi esera o melhor heroi do nosso povo. Viva Nito Alves… NL
Estes poemas sao como se fossem professias para mim. Nito Alves viu que o MPLA, nao era pelo povo mais sim para beneficiar os seus dirigentes e as suas familias. Neste novo milenio, o povo continua sem escolas, fabricas para trabalhar, enchadas para cultivar a terra. Sera que os que lutaram para nossa independencia queriam isso para nos? Angola… minha terra quando penso em ti so me da vontade de chorar, ja sofreste muito nas maos do branco agora os teus filhos tambem te estao a fazer sofrer??!!!!!! triste e vergonhoso…..
No mês de Agosto saiu um livro apadrinhado pelo presidente do Brasil sobre os horrores vividos durante a ditadura neste país. Alguém me sabe dizer o nome e editora? Quando será que o presidente de Angola se vai manifestar sobre as atrocidades do 27? Sobre o livro do Michel, até agora nenhum membro do governo se manifestou nem tão pouco as ass. de direitos humanos nem a sociedade civil, fala-se em circuitos fechados. Até quando vamos ser amordaçados? Os nossos mortos clamam por justiça, e os sobreviventes até quando vão estar calados? É preciso romper o silêncio. Quanto mais pessoas souberem do q realmente aconteceu maior será a probalidade de sermos ouvidos ninguém fica impune eternamente, é preciso falar, pôr a boca no trombone.
amanhã dia 18 de junho de 2008,pelas 18 horas, na biblioteca de telheiras em lisboa, vai ser lançado um livro sobre viriato da cruz. o percusor do MPLA. Este jovem (na altura) destemido q desde o 1º dia lutou para q ANGOLA fosse livre, acabou desterrado e morto na CHINA com a conivência do seu partido, o MPLA.
Oi Nito!!
Sei o quanto é doloroso passar isso pro papel, pra tela, pros irmãos que ainda se neguam da visão.
Sei o quanto é difícil apagar do coração essa pairagens.
E, também sei toda alquimia, que corre nas tuas entranhas é ARTE, por si só.
Meu choro me estremece, obrigado por te descobrir.
Olha sinto me envergonhado de ser de uma familia que desde o principio lutou pela liberdade e agora nada temos em recompensa. perdi tios; primos e irmaos pela justa causa do povo mais o MPLA traiu o povo que a ele tanto confiou. Nao vamos baixar a cabeca pq diz na giria que a cinza nao se pode queimar e o proprio Neto disse que somos milhoes e contra milhoes ninguen luta. Viva Nito Alves e seus ideais.
Ao ler tais poemas, pude interagir com a figura de um guerrilheiro, um politico e acima de tudo, um homem; um homem inconformado que estava disposto a fazer e aguentar toda sorte de sacrifícios em prol da liberdade de um povo que muito amava…
Nito Alves, deixa bem claro no seu poema, uma célebre frase – Os que fazem a História
Nem sempre podem escrevê-la. E vi que em minhas veias correm ânsia ainda viva nos seus traços (Nito Alves) de uma Angola livre de todas as formas de colonização, uma Angola para os angolanos, uma Angola justa – presa na vontade reprimida dos meus ideais. Nós vamos escrever a “NOSSA HISTORIA”