Quem fez o “27″ levou a melhor. O rescaldo foi o dia “28″
02.06.2008
Mais uma vez nos confrontamos com o Jornal de Angola conhecido pela sua vocação em dar espaço a “opiniões” e discursos que só suscitam a confusão. Desta vez temos o exemplo de João Melo com uma matéria sobre a tragédia do 27 de Maio a tentar fazer crer que o dia seguinte, o «28 de Maio de 1977», longe de dar continuidade ao que fora há muito planeado para um dia, apenas foi o 27 de Maio.
Reponham-se, pois, os factos na sua verdadeira dimensão histórica: nos meses que precederam o grande Terror, uma clique dentro do MPLA manipulou o Jornal de Angola, a TPA e a Rádio Nacional para nestes orgãos de comunicação social desencadearem ferozes ataques contra personalidades do Movimento, em particular contra Nito Alves, então membro do Comité Central do MPLA e ministro da Administração Interna. A manobra provocatória chegou ao cúmulo de, alguns meses antes do 27 de Maio, pela pena e pela voz de algumas cabeças bem-pensantes, se ter instigado a prisão de militantes-activistas, uns pertencentes às estruturas de massas do Movimento, outros às FAPLA e outros as Comissões Populares de Bairro. De tal modo que – é curioso observar – a repressão atingiu justamente muitos dos que viriam a desaparecer nos dias e nos meses que se seguiram, embora João Melo considere esta acção de «legítima à partida». No entanto, ele omite um facto: a tal “repressão legítima” redundou num verdadeiro banho de sangue – não interessa o número das vítimas –, num massacre de proporções inomináveis que o Direito Internacional condena sem ambiguidades. Sem esquecer os milhares de cidadãos mantidos em cárcere privado e em campos de concentração durante anos sem culpa formada. Contudo, João Melo relativiza todos estes problemas e diz que muitíssimas dessas mortes – cito – foram «injustificáveis», como se a barbaridade e a crueldade infligida a um ser humano [a um só que seja] possa ser desculpada.
Tal como João Melo, também eu vivi intensamente estes factos. Como militante do MPLA estive envolvido nos meses anteriores ao 27 de Maio na intensa luta ideológica que se travou no país, mas com uma diferença: eu não tive necessidade de denunciar o “nitismo”, porque, ao contrário da versão oficial [aliás partilhada por João Melo], o “nitismo” não existia como corrente política. Como fracção dentro do MPLA.
João Melo, por outro lado, fala das “13 Teses” de Nito Alves e lamenta ser aí apontado como um perigoso “maoista” (?) a abater. É redondamente falso. O que lá se acha escrito não se presta a qualquer dúvida ou trocadilho. É no capítulo em que o autor reprova o “TERRORISMO REACCIONÁRIO DA IMPRENSA” e inculpa nessa trama o Jornal de Angola e a Televisão, destacando em breves palavras o papel de alguns editores da Rádio Nacional. Passo a citar a referência a João Melo: Enquanto «[...] isto, na Rádio Nacional de Angola, um outro editorialista, o chefe de turno rotativo, João Melo, “fazia editoriais contra o Nito”, lê-se numa informação especial. Todos estes editoriais estão impregnados por todos os poros de um profundo ódio à minha pessoa» (13 Teses em minha Defesa, pág. 40).
Se existe alguém que sem desfalecimento não se cala na denúncia do 27 de Maio e dos revisionismos que agora vão surgindo um pouco por toda a parte [com a marca de João Melo e doutros], esse alguém são os sobreviventes e os familiares dos desaparecidos que a borrasca provocou. É oportuno chamar a atenção para o teor das cartas que ao longo destes anos se têm endereçado ao Presidente do MPLA e do Estado Angolano. Nenhuma até hoje teve resposta. Em todas se apelou à cooperação, à disponibilização da massa documental produzida pela DISA, pelos organismos das Forças Armadas e do Partido de modo a levar-se a cabo uma séria investigação. Tudo para bem da verdade e da reconciliação nacional.
Estamos a assumir, em síntese, a nossa parte, o nosso testemunho. Não descarreguem culpas em cima de nós. Ao Estado Angolano é que cabe, sim, antes de tudo, assumir responsabilidades. Ao libertar-nos das suas prisões não teve a dignidade de fazer constar nas “Guias de Soltura” o motivo da punição a que nos sujeitou e tão-pouco foi capaz – nas raras certidões de óbito que emitiu – de apontar a causa mortis das pessoas desaparecidas.
José Reis
02 de Junho de 2008
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Comentários
2 Reacções a “Quem fez o “27″ levou a melhor. O rescaldo foi o dia “28″”
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um tio meu de nome carlos guerra foi levado de casa no dia 28 de maio de 1977.e nunca mais se ouviu falar de si.o sr joao melo foi um dos muitos instingadores dos massacres que se seguirao.hoje è deputado e vive como rei e nos que perdemos os nossos entequeridos.
tudo dito en 1976 passados mas de 30 anos ainda vimos con tanta serenidade na naçao angolana os culpados passão en puni os inoscentes estes coitados não ten defesa viu-se no nito alves e os seus nitistas vesse en musicos en puliticos de fundo de quintal.afinal o qui se possou en angola dos anos 60 aos anos 80?