O Hino da CIVICOP e o Milagre da Ressurreição

O Hino da Civicop e o Milagre da Ressurreição
O Hino da CIVICOP e o Milagre da Ressurreição abençoada!

Convenci-me – descurando a habilidade e a veia imaginária da CIVICOP – de que já pouco ou nada lhe restava para nos surpreender e esqueci-me também, que nos tinha prometido um hino, para glorificar as vítimas. Pois ele aí está. 

O engenho e a arte, também são atributos reconhecidos aos angolanos, que os usam com propriedade, seja por necessidade ou por mera diversão. Então, quando descobriram que a independência estava para breve, — com guerra ou sem ela — a alegria invadiu os seus corações e tudo o que acontecia, e naquele tempo acontecia tudo e todos os dias, foi mote para fazer uma canção. 

Certa manhã, quando o processo que nos levaria à independência ainda tardava, um expedito ministro da saúde do chamado Governo de Transição, Samuel Abrigada, irrompeu pelo Banco Nacional, escoltado por um grupo de homens armados, exigindo que lhe fossem entregues em numerário cem mil contos — na época, uma autêntica pipa de massa. No dia seguinte, já estava pronta a denúncia, para ser gravada e imortalizada em disco de vinil, na época um top, uma cantiga alusiva ao acto desbragado do ministro da então FNLA:

Assim dizia a canção e não me recordo se a letra, lá mais para a frente, referia algum outro pormenor, quer do feito quer do alerta, mas, posso-vos garantir que se tornou uma canção popular.

Mas não eram apenas a denúncia, o alerta e a chacota que davam o mote a estas peças musicais; a tragédia também as alimentavam. Kifangondo – vila pacata localizada nas margens do rio Bengo, 30 Km a Norte de Luanda, que ganhou peso histórico e simbólico, devido à batalha que aí se travou a 10 de Novembro de 1975, um confronto que determinou o destino político do país – foi o túmulo de muitos jovens, como corolário, no dia seguinte já se entoava; ‘O Massacre de Kifangondo‘, pelo conhecido cantor popular, Santocas;

Na época, cantarolávamos estas e outras cantigas – era a nossa canção de intervenção – mas também os hinos, fossem eles o Nacional ou o do MPLA. Um hino, deve ser feito com rimas fáceis de memorizar, ter um refrão que possa ser entoado em grupo, a melodia deve ter um ritmo firme, não deve exagerar nas extensões para que todos, mais uma vez, a possam cantar. Os hinos acima mencionados, são composições poéticas/musicais, concebidas para enaltecer, celebrar ou demonstrar profunda admiração por algo ou por alguém, no entanto, nem Agostinho Neto, reclamado o ‘Pai da Pátria‘, ou José Eduardo dos Santos cognominado o “Arquitecto da Paz”, figuram — quer em nome, quer em referência — em qualquer um destes cantos. Porém, quando escutei o hino da CIVICOP, deparei-me com esta frase:

Isto é: o artífice de toda esta saga; do abraço, do perdão, da reconciliação, da construção de monumentos faraónicos e da composição de hinos de propaganda à mistura, o dono da voz que quebrou o mutismo da Nação que se pressentia há muito apavorada, foi a do putativo candidato a uma presidência, que não quis saber a verdade – quem sabe esta não fosse do seu agrado – por isso também não aceitou a criação de uma “Comissão de Verdade”, não pediu perdão pelas vítimas, mas sim, pela tortura, suplício e morte, crimes hediondos suportados pelos cidadãos que de forma grosseira foram rotulados “Fraccionistas”, sonegou as conclusões da comissão de inquérito à forjada dissidência e como tal não comprovada e por último, mandou exumar valas comuns sem dar conhecimento aos familiares dos desaparecidos, não cumprindo as regras internacionais que tutelam as exumações de valas comuns, e entregou ossadas em urna fechada, não consentindo uma contra análise para certificar a correspondência das amostras de ADN recolhidos, mas conseguiu uma ousadia: decorridos 50 anos, foram resgatar um corpo ao mar, proceder á recolha de ADN, compará-lo com o de um familiar próximo e daí concluir tratar-se de um procurado desaparecido. Enfim, uma enorme trapalhada, tal qual o Hino da CIVICOP, que não passa de um laudo de magnífica propaganda. Reparem no que se canta destes afoitos:

Sem mais comentários.

No dia 20 de Junho de 2026, apareceu uma notícia no Jornal de Angola com o título; “Lista provisória identifica mulheres vítimas dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977“. É profundamente inquietante — mas, não surpreende quem acompanha este processo — constatar a leviandade com que assuntos de tamanha gravidade e dor continuam a ser tratados. Na lista dita provisória, encontro quatro nomes que conheço e das quais posso garantir estarem vivas e de boa saúde.

Vamos tentar perceber a CIVICOP: Depois de “descobrir” uma vala comum no Cemitério da Mulemba, vulgo Cemitério do Catorze – precisamente no local por todos nós conhecido há bem mais de quarenta anos – mandou levantar as cerca de 600 ossadas aí enterradas – vou considerar que o procedimento foi o correcto, obedeceu às normas internacionais vigentes, etc., etc., – e conseguiu individualizar, entre aquelas centenas de cadáveres, 33 referentes a outras tantas mulheres. Mas, como não possuem ADN de familiares para comparar com o recolhido desses restos mortais, pois não surgiu nenhum familiar a reclamar um desaparecido do sexo feminino, diz-nos, a equipa forense, não ter conseguido dar um nome a essas 33 ossadas, recorrendo, então a uma lista policial da época onde figuram 34 mulheres, ou seja, estas mulheres referenciadas estavam na fila da morte. Acontece, porém, que a nº 1 da lista é uma pessoa que confirmo ter trabalhado na “Comissão Nacional de Reestruturação da Indústria Açucareira”, é engenheira química e residia, na época, em Luanda. Essa pessoa tem nome e felizmente escapou à morte, o mesmo aconteceu às outras 3 que constam da lista e que bem conheço. Estamos perante o milagre da ressurreição forense!

É uma farsa identificar restos mortais por exclusão de partes: Incluir pessoas vivas numa lista de “vítimas mortais” (mesmo que a título provisório) prova que a CIVICOP está a fazer tudo ao contrário: primeiro define a narrativa que interessa politicamente, depois molda os “factos” para caberem nela.


José Reis

20 de Junho de 2026

27 de Maio - 49 anos

José Reis


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