Até Sempre Camarada Manuel Vidigal

Até Sempre Camarada Manuel Vidigal
Até Sempre Camarada Manuel Vidigal

Camaradas, amigos, familiares, sobreviventes e lutadores pela verdade,

Hoje, a nossa Associação 27 de Maio curva-se perante a memória de um dos seus. Manuel Vidigal partiu. E com ele levamos um naco da nossa história, um pedaço da nossa luta e uma referência inabalável de rectidão.

Neste momento de dor, somos tomados por essa estranha mistura de vazio e gratidão que só a perda dos grandes homens nos traz, porque Manuel Vidigal foi, para todos nós, um grande homem. Não dos que ostentam títulos ou buscam holofotes, mas daqueles que constroem silenciosamente os alicerces sobre os quais uma causa justa se sustenta.

Quando o Manuel Vidigal se integrou na Associação, sabiamos que estávamos perante alguém especial. Alguém para quem a luta pela verdade histórica não era um passatempo de reformados nem uma militância de circunstância. Era a própria razão de ser. Filho de Goa, coração angolano, Manuel Vidigal dedicou a sua vida a duas causas que, para ele, eram uma só: a medicina, como expressão máxima do humanismo, e a defesa intransigente da memória dos que tombaram na maior tragédia que o nosso país conheceu.

Quem o ouvia falar da Primeira Região Político-Militar do MPLA, da epopeia dos comandantes que lutaram nas matas, percebia que não estava apenas diante de um contador de histórias ou de um simpatizante da causa da libertação. Estava diante de alguém que trazia aquelas histórias na pele, na memória, na alma. Ele sabia, como poucos, que a verdade sobre o 27 de Maio não se encontra na Informação do Bureau Político nem noutros comunicados oficiais, mas sim nas vozes dos sobreviventes, nos corpos desaparecidos, nas lágrimas das viúvas e dos órfãos.

A sua luta, aqui na Associação, foi sempre clara: não à reconciliação sem verdade. Não ao perdão sem responsabilização. Não às cerimónias de fachada enquanto os restos mortais dos nossos continuam por identificar, enquanto as valas comuns permanecem anónimas, enquanto os algozes passeiam impunes . Manuel Vidigal repetia, com a serenidade dos justos, que “este tipo de crimes não prescreve”. E que, se a justiça nacional continuasse a fechar os olhos, o recurso às instâncias internacionais seria não um direito, mas um dever.

Manuel Vidigal

Lembramo-nos de vê-lo, nas reuniões da direcção, sempre ponderado, mas sempre rigoroso. Homem de ciência, trazia para o debate político a mesma exigência de precisão com que tratava os seus doentes. Não se contentava com versões, não aceitava meias-verdades, não se deixava iludir por promessas vazias. Quando o governo encenou aquelas pseudo-homenagens, quando a CIVICOP apresentou ossadas que em nada correspondiam às famílias que esperavam há décadas por um corpo para chorar, Manuel Vidigal esteve sempre firme a denunciar a farsa.

Porque ele sabia, como nós sabemos, que a ferida do 27 de Maio continua aberta. Que não há cicatrização possível sem conhecimento pleno dos factos. Que enquanto houver um filho que não sabe onde o pai foi enterrado, enquanto houver uma mãe que não pôde velar o filho, não há reconciliação que valha.

Mas Manuel Vidigal não foi apenas o lutador incansável pela verdade. Foi, acima de tudo, um humanista. Médico de profissão, cuidou de corpos e almas com a mesma dedicação. Solidário até à medula, nunca deixou de estender a mão a quem precisava. Na direcção da Associação, era muitas vezes a voz da ponderação, mas também o primeiro a oferecer apoio, a ouvir um desabafo, a partilhar um conhecimento. A sua casa era aberta, o seu coração era grande, a sua palavra era quente.

Há quem diga que os homens passam e as obras ficam. A obra de Manuel Vidigal está escrita nos arquivos desta Associação, nas entrevistas que deu, nos artigos que escreveu, nas palestras onde fez questão de marcar presença até quando o corpo já pedia descanso. Mas a sua obra maior é invisível: é a semente de dignidade que plantou em cada um de nós. É a certeza de que a luta continua, e que não a podemos abandonar, sob pena de trairmos a sua memória.

Nestes dias que correm, em que o revisionismo ameaça engolir a história, em que se tenta “passar uma esponja” sobre os massacres que vitimaram dezenas de milhares de angolanos, a falta que Manuel Vidigal nos faz é imensa. Mas a sua herança é maior. Porque ele nos ensinou, com a sua vida, que a verdade é como a saúde do coração que tratou durante décadas: ou se preserva com rigor, ou o organismo inteiro morre.

Camarada Manuel Vidigal, Amigo Manuel Vidigal, podes descansar. A tua luta não foi em vão. Os comandantes da Primeira Região, os sobreviventes que ainda esperam justiça, os órfãos que nunca conheceram o rosto dos pais, todos eles terão, em nós, a continuação do teu combate.

Não vamos desistir. Não vamos pactuar com o esquecimento. Não vamos aceitar a paz dos cemitérios enquanto a verdade não vier ao de cima.

Até sempre, camarada. A tua memória será bandeira.

A Associação 27 de Maio,

com profundo reconhecimento e dor.


ASSOCIAÇÃO 27 DE MAIO

28 de Fevereiro de 2026


27 de Maio - 49 anos

Associação 27 de Maio


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