27 de maio em Angola: pedir perdão chega?

27 de maio em Angola: pedir perdão chega?

Este pedido público de desculpas e de perdão não se resume a simples palavras, ele reflete o nosso sincero arrependimento e vontade de pôr fim à angústia que ao longo destes anos as famílias carregam consigo por falta de informação sobre o destino dado aos seus entes queridos“, declarou o Presidente de Angola, João Lourenço, no ano passado, referindo-se diretamente às vítimas do 27 de maio de 1977. Recordemos que mais de 30.000 angolanos perderam a vida no que foi considerado o segundo maior massacre da África pós-independente.

Pretendeu o Presidente dar por encerrado um capítulo da História recente de Angola, cujo ponto final seria a entrega dos restos mortais de algumas das vítimas às suas famílias.

O perdão significaria a reconciliação, com abraços calorosos envolvendo vítimas e algozes, neste ano de comemoração do centenário do nascimento do Pai da nação, Agostinho Neto, que sairia, assim, incólume da carnificina que desencadeou no seu reinado.

Mas pedir perdão e entregar os restos mortais de alguns será suficiente? Há quem me diga que sim, que não é possível dar vida a quem já não está cá (forma suave de se referir a quem foi assassinado) e que me devo conformar, pois chegou a altura de obter a tão almejada tranquilidade de espírito, afastando as angústias, insónias e pesadelos de quem perdeu os seus dois irmãos.

No entanto, por mais dolorosa que seja a persistência, há questões essenciais por resolver e que me levam a não abdicar deste combate que, muito possivelmente, continuará depois de mim: a luta pela verdade histórica, a identificação dos responsáveis e uma efetiva homenagem a todas as vítimas.

Durante muitos anos, prevaleceu a verdade oficial dos vencedores, que imputava aos vencidos a autoria de uma “tentativa de golpe de Estado contrarrevolucionária“, ao serviço do imperialismo. Esta versão, criada quando o MPLA se afirmava como um partido marxista-leninlsta, acabou por ser relegada para segundo plano, para se passar a aludir, com indisfarçável pudor, aos “acontecimentos do 27 de Maio“. 

Porém, o regime recusa permitir uma investigação histórica sobre o que efetivamente se passou naquele fatídico dia, abrindo os arquivos do Estado e inquirindo personagens relevantes em todo o processo. Ou seja, com a intenção manifesta de não manchar a imagem de quem deu a ordem para matar e não afetar a credibilidade do partido no poder, opta-se pelo silêncio, pelo tabu.

Quanto à identificação dos responsáveis, ela é necessária, não com intuitos persecutórios, mas para se saber a quem se perdoa. Nos processos de reconciliação, como o da África do Sul, o pedido de perdão foi formulado pelos autores dos crimes, que manifestaram arrependimento efetivo.

Finalmente, a efetiva homenagem às vítimas é indispensável. Não chega entregar os supostos restos mortais de alguns “notáveis“. Importa que o processo seja rigoroso, com exames forenses sérios e que, também, a entrega se estenda ao maior número possível de vítimas.

Por todas estas razões, apesar de louvável, o pedido de perdão no 27 de maio de 2021 continua a ser manifestamente insuficiente. Veremos se nesta sexta-feira surgirá algo mais…

27 de Maio - 45 anos

Edgar Valles – Advogado
in Público

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