A Avenida dos Mortos

A Avenida dos Mortos
A Avenida dos Mortos

A Avenida dos Mortos

Não fui acometido por nenhum achaque, de tão habituado estar, ao presenciar na TPA – Televisão Pública Angolana, mais um espetáculo dantesco da autoria do ministério da justiça e dos direitos humanos de Angola, representado pelo próprio titular, técnicos forenses do mesmo, coveiros do Cemitério da Mulemba, também designado “Cemitério do Catorze” e a conhecida retro-escavadora amarela, com a sua enorme gadanha de ferro, a cavar um imenso buraco com quatro metros de profundidade e vários outros de largura e comprimento.

Esta cova, aberta para esconder seres humanos foi, depois de fechada, disfarçada por uma estrada, qual “Avenida dos Mortos’, assim lhe chamou a minha amiga Mila. Não fui tomado por uma qualquer indisposição, habituado que estou a assistir à ignomínia e ao total desrespeito pelas famílias dos até hoje desaparecidos. Como convém, lá se encontrava também, garboso e impante para a ostentação frente às câmaras da televisão, o diligente colaborador e forjado general Silva Mateus, a figura de proa da “fundação 27 de Maio”. Esta “fundação” é uma associação que adoptou o nome de fundação, foi engendrada por duas personagens que se autopromoveram generais.

Não consta ter qualquer um deles malhado com os costados na cadeia, tão pouco tenham sido incomodados na sequência do “27 de Maio de 1977”, não havendo nenhum sobrevivente que se tenha cruzado com eles nas cadeias, ou nos campos de trabalho forçado. O anterior ministro da Justiça e dos direitos humanos, preparou o embuste com a devida antecedência, temendo o dia em que sobreviventes e familiares viessem a ser chamados para uma qualquer auscultação, quem sabe, uma comissão de verdade.  Então, seria esta “fundação” a responder por nós, pois foi ela a legitimada e preparada para nos substituir, o que de facto veio a acontecer logo que foi criada a CIVIOP, e que, a 28 de Janeiro de 2022,  num requintado golpe baixo, se constituiu para se confundir com a “Associação 27 de Maio, fundada em 2005”, a original representante dos sobreviventes, familiares e amigos das vítimas. 

Façamos agora um pequeno exercício: 

Há muito tempo que é do conhecimento público a existência de uma vala comum, no cemitério do catorze, por isso num dos seus muros alguém grafou; “Aqui jazem vítimas de 27 de Maio de 1977”, durante anos a dita fundação promoveu romagens a esse local, com a anuência das forças policiais que nessa altura reprimiam manifestações pacificas, o banner do nosso site “27 de Maio – Associação fundada em 2005”, usa uma fotografia do citado muro. Então, houvesse vontade do Estado Angolano, um simples pedido, e acaso houvesse recusa, uma ordem judicial, obrigaria quem praticou os crimes pela calada da noite, gente com nome e este por demais conhecido, a darem conhecimento às autoridades do lugar do crime. 

Então, faz sentido a pergunta:

Para que foram precisos quarenta e nove anos para o Estado Angolano se interessar pela conhecida vala comum cavada no “cemitério do catorze”? Porquê só agora é mostrado o rol das seiscentas e duas vítimas, fazendo-o de modo grosseiro, sem o menor respeito pelos sentimentos dos familiares, uma lista de nomes, alguns deles que se sabe terem sido mortos em lugares bem distantes deste “catorze” e que testes de ADN foram feitos para haver correspondência entre o nome na lista e a vítima na vala comum?

Esta história está muito mal contada e conhecendo eu quem a conta, prevejo mais uma intriga na forja.

José Reis 

Sobrevivente do 27 de Maio de 1977

27 de Maio - 49 anos

José Reis


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