Comunicado da Associação M27 sobre a descoberta da vala comum no Cemitério do Catorze

Comunicado da Associação M27 sobre a descoberta da vala comum no Cemitério do Catorze
Comunicado da Associação M27 sobre a descoberta da vala comum no Cemitério do Catorze

A M27 manifesta a sua profunda preocupação perante as informações recentemente  divulgadas sobre a descoberta de uma vala comum em Angola e, sobretudo, perante a  forma silenciosa, pouco transparente e profundamente desumana como este processo  está a ser conduzido.  

Estamos perante uma questão de enorme sensibilidade humana, histórica e moral. Por  essa razão, é incompreensível e doloroso que as famílias das vítimas não tenham sido  previamente informadas nem devidamente envolvidas num processo que lhes diz  respeito diretamente.  

Acresce a isso a ausência quase total de esclarecimentos públicos sobre os contornos  que levaram ao desaparecimento dos nossos pais e familiares, as circunstâncias das  suas mortes e os critérios utilizados para a identificação dos restos mortais  encontrados.  

É igualmente perturbador que existam referências a familiares desaparecidos em  diferentes províncias do país cujos nomes surgem agora associados a uma vala comum  localizada em Luanda, sem que até ao momento tenham sido dadas explicações claras,  rigorosas e credíveis às famílias e à sociedade angolana.  

Mais preocupante ainda é o surgimento de uma lista de nomes alegadamente  correspondentes aos perfis das ossadas encontradas no Cemitério do 14, sem que  tenha sido explicado de forma transparente à sociedade e às famílias de onde provém  essa lista, quais os critérios utilizados, quais os elementos probatórios existentes e que  metodologia científica sustenta tais associações. Esta opacidade apenas agrava a  desconfiança, o sofrimento das famílias e a perceção de que o processo está a ser  conduzido sem o rigor e a transparência indispensáveis.  

Ao longo deste processo, a M27 e muitas famílias afetadas têm feito um esforço  sincero de paciência, contenção e boa vontade para manter o diálogo e contribuir de  forma construtiva para um processo de verdade e reconciliação. Infelizmente, essa  abertura não tem encontrado reciprocidade. Pelo contrário, continua a prevalecer o  silêncio, a exclusão e a ausência de transparência.  

A recente reportagem divulgada sobre a vala comum provocou profunda dor e  consternação entre inúmeras famílias, que se sentiram emocionalmente devastadas  pela forma insensível como um assunto tão traumático e delicado foi exposto  publicamente, sem preparação, sem acompanhamento e sem respeito pelo sofrimento  acumulado ao longo de décadas.  

Nenhuma nação constrói uma reconciliação verdadeira sobre o silêncio, o secretismo  ou a exclusão das famílias. A verdade histórica exige coragem, humanidade, 

transparência e respeito pela memória dos nossos pais, familiares e de todos aqueles  que perderam a vida, bem como daqueles que continuam, décadas depois, à procura  de respostas.  

A M27 não procura alimentar divisões nem instrumentalizar esta tragédia. O que  defendemos é simples e fundamental: que este processo obedeça rigorosamente aos  padrões internacionais aplicáveis à investigação de valas comuns e desaparecimentos  forçados, incluindo a participação das famílias, a preservação adequada das provas, a  identificação científica dos restos mortais, o acesso à informação e o acompanhamento  por entidades independentes e organismos internacionais especializados.  

Só um processo conduzido com transparência, rigor, imparcialidade e credibilidade  poderá merecer a confiança das famílias e da sociedade angolana.  

As famílias merecem verdade. Angola merece verdade. E a história do nosso país  merece ser tratada com responsabilidade, sensibilidade e respeito. 


M27 – Associação de órfãos. Pela Memória, Verdade e Justiça 

Luanda, 10 de Maio de 2026


27 de Maio - 49 anos

Grupo de Sobreviventes do 27 de Maio


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