Envolvimento na repressão de 77

Envolvimento na repressão de 77

Pepetela confessa-se sem admitir rigorosamente nada

Não sei bem porquê, mas sempre tive nas minhas previsões meteorológicas sobre a evolução do clima político angolano, que Artur Pestana, vulgo Pepetela, seria o primeiro a “confessar-se”, na sequência do furacão que em Maio de 77 retirou a vida à dezenas de milhares de jovens do meu país.

Tudo aconteceu, como se sabe, pela força bruta de um processo de eliminação física de antigos camaradas, sem paralelo na história politica africana.

O carácter singular deste processo, não me canso de salientar sempre que toco no dossier, tem a ver com o facto dele ter ocorrido dentro do mesmo espaço político-afectivo, o que o transformou numa manifestação da mais pura antropofagia partidária dos tempos modernos.

A minha previsão, finalmente, confirmou-se, embora de forma muito parcial, porque de facto não houve qualquer confissão da parte de Pepetela. Antes pelo contrário. Pelo que está escrito pelo seu punho, ficamos quase convencidos que ele faria o mesmo se a história voltasse para trás.

Esperava, sinceramente, que o antigo Vice-Ministro da Educação da República Popular de Angola fosse o primeiro a reconhecer, no mínimo, a irracionalidade que se apossou de todas as cabeças pensantes que gizaram e executaram toda aquela estratégia repressiva, que se prolongou por mais de um ano, na vertente relacionada com a eliminação física dos supostos implicados.

Este prolongamento no tempo é uma outra particularidade que reforça o carácter singular do processo Maio/77 no contexto africano.

O internacionalmente aclamado escritor limitou-se a confirmar o que todos nós já estávamos carecas de saber, embora mesmo assim, a sua declaração se revele da maior importância para constar no processo histórico que um dia destes será feito.

Pepetela confirmou que houve uma comissão a que ele emprestou o seu “know-how”, enquanto analista de depoimentos de pessoas torturadas para efeitos de divulgação pública.

Pepetela ignorou de forma ostensiva e chocante a condição das pessoas que prestavam esses depoimentos, tendo resumido o seu trabalho ao de um militante que serviu desinteressadamente o seu partido em todos os momentos. O partido que hoje lhe volta as costas.

É evidente que mesmo assim, a história da tal comissão está muito mal contada, pois toda a gente sabe que os seus membros, mais de uma dezena segundo Pepetela, foram activos interrogadores dos detidos, com recurso a vários tipos de violência, onde se incluía a promessa da vida a troco de confissões mesmo que falsas por parte dos supostos fraccionistas.

O que era preciso era falar e muito. Contar tudo o que se sabia e o que não se sabia. Só assim, aconselhavam os membros da tal comissão, haveria uma possibilidade remota de safarem o pêlo.

Com todo o respeito que temos pela opinião dos outros, não pode haver bom-nome a defender num processo a que Pepetela associou a sua pessoa e que se saldou em dezenas de milhares de vítimas inocentes.

Pepetela, quer queira quer não, deixou as suas impressões digitais em todo este processo, que agora ficam muito mais visíveis com o seu elucidativo depoimento.

Pepetela não precisava sequer de desmentir a sua participação como membro de algum tribunal da época, porque em todo este processo os tribunais foram os grandes ausentes.

Tudo se passou à margem da Declaração Universal dos Direitos Humanos por força da tristemente célebre “orientação legal” de Agostinho Neto que foi cumprida à risca pelos seus subordinados, com rasgos de uma “imaginação criadora”que ultrapassou todos os limites da bestialidade.

Não haverá perdão para os implicados. O processo será especial.”- assim se pode sintetizar a referida orientação que determinou o rumo dos trágicos acontecimentos que se seguiram ao 27 de Maio de 1977.

Seja como for, ainda estamos esperançados que Pepetela volte ao assunto e nos conte toda a verdade, como escreveu José Fuso a partir de Lisboa, num texto que fazemos questão de publicar nesta coluna.

Ainda estamos esperançados que o Prémio Camões de Literatura reconheça quão negativo foi o papel dos intelectuais do seu partido na época, porque, com um pouco mais de coragem, bem poderiam ter ajudado a evitar a catástrofe que se abateu sobre o país.

Todos sabemos que é fácil falar e dar conselhos a esta distância temporal dos acontecimentos, mas todos nós também sabemos que é, sobretudo, nas conjunturas de profunda crise, que emergem os grandes homens que ficam na história com gestos largos.

Em Angola somos um pouco o país da “Maria vai com as outras”, onde as sucessivas conjunturas de crise raramente souberam produzir estas figuras de referência, o que explica, em parte, a situação depressiva em que nos encontramos, trinta anos depois do país se ter tornado independente.

Angola tem sido de facto, como escreveu Manuel dos Santos Lima, um país de anões e mendigos, embora alguns apareçam como gigantes nas telas de uma comunicação social míope e bajuladora.


27 de Maio - 30 anos

José Reis
Fevereiro 2008


Sugestões

3 Respostas

  1. Nando diz:

    Por que será que ninguem comenta?Aliás por que será que tantos artigos escritos não motivam as pessoas a escrever o que pensam?Por medo?é possivel.Em minha opinião essa não é a razão principal.É o tom com que muitos destes senhores continuam a escrever a história como se fosse o lobo e o cordeiro.Quem estava em Angola e acompanhou esta inarrável desgraça sabe que não foi assim.Não colhe nenhum argumento que justifique a matança inqualificável,até porque é sabido serem grande parte das vitímas completamente inocentes,e aos culpados deveria ter sido dada a possibilidade de se defenderem num tribunal,mas um tribunal de verdade e não uma aberração ao velho estilo Stalinista.A forma vil da mais extrema violência como foram ceifadas tantas vidas, não tem nada, absolutamente nada que o justifique.Se tudo isso é verdade,não menos o é que a tentativa de golpe de Estado(não vale a pena negar a evidência)foi planificada e tentada matando inocentes.Como não vale a pena negar que se os revoltosos tivessem vencido muito sangue correria,mas como é evidente seriam outras as vitímas.Não basta passar a vida a exijir reconhecimento de culpa,coragem para confessar etc etc,é preciso assumir com frontalidade que retirando quem era inocente (e foram muitos)houve gente que forneceu aos carrascos o cordão detonante que resultou em tamanha explosão de desumana violência.

  2. Zito Mabanga diz:

    “não vale a pena negar que se os revoltosos tivessem vencido muito sangue correria” – essa afirmação é completamente descabida e absolutamente especulativa, baseada em nenhum dado concreto. é o equivalente de afirmar “se os Africanos não tivessem sido escravizados e colonizados pelos Europeus, as coisas ter-se-iam passado no outro sentido”.
    Tanto no caso da sua afirmação, como na analogia que fiz, nada garante que tal viesse a acontecer.
    De qualquer modo, essa suposição acaba por legitimar a carnificina que foi perpetrada, numa espécie de logica ” ou eles ou no’s ” ! Sera’ isso que pretendia o caro amigo Nando?

  3. Estaline diz:

    Peço desculpa, mas a espiral de violência começou muitos anos antes. Todos os Movimento sde Libertção cultivavam a violência absoluta, incluindo o MPLA. Basta ler as inefáveis 13 testes escritas por Sita Vale e lidas por Nito Alves, para compreender a raiz do ódio e da violência absoluta. Não há santos nesta hecatombe humana. O facto desta circunstãncia não ser assumida, é que tanto de um lado como do outro, as pessoas têm consciência clara do mal que fizeram aos outros e a si próprios. Todos e sem excepção.

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