No país onde a culpa morre solteira

No país onde a culpa morre solteira

1 – Não deixar passar em branco a data do 27 de Maio, foi o compromisso que assumimos com a nossa sombra, de há uns anos a esta parte, desde que o país quebrou as algemas do totalitarismo, com o consequente enterro do partido único e de toda a sua parafernália ideológica e institucional.

São, contudo, ainda muitas as sequelas do “mono” que se mantêm bem vivas a condicionar o nosso comportamento, o nosso pensamento, as nossas escolhas, os nossos almoços e os nossos jantares.
Este ano resolvemos associar o nosso nome a um projecto tecnicamente simples (um almoço de confraternização) mas que desde logo se adivinhava politica e psicologicamente complicado.

Devido a hora do fecho deste semanário, só na próxima edição estaremos em condições de reflectir sobre os resultados desta iniciativa que foi inicialmente recebida com um misto de satisfação e desencanto, por motivos distintos, sendo o factor preço, o que terá pesado mais nos bolsos completamente deskwanzados da maior parte da malta que conseguiu sair com vida das celas e dos campos de concentração da DISA.

Não nos foi possível encontrar uma outra solução compatível com os nossos afazeres nesta primeira tentativa de reunir anualmente a malta toda num almoço confraternização com o único propósito de recordar os maus tempos passados juntos entre os muros da mais completa incerteza quanto à nossa própria sobrevivência.

O sublinhado tem a ver com a necessidade de esclarecer eventuais dúvidas que terão surgido na cabeça de algumas pessoas em relação aos reais motivos desta iniciativa que partilhei com o Macau. De facto trata-se apenas de uma confraternização para recordar tudo e todos. Para lutar contra o esquecimento.

Recordar sobretudo os que foram engolidos pela gigantesca onda da intolerância, do ódio ao próximo e da raiva sem limites, como foi o caso do Rui Coelho, cuja fotografia faço questão de publicar nestas colunas em jeito de homenagem à sua pessoa.

Maus tempos que lamentavelmente persistem no quotidiano de grandes dificuldades socio-económicas com que os angolanos se confrontam 28 anos depois do 27 de Maio 1977 ter passado por aqui.
A experiência adquirida com este almoço servirá, certamente, para no próximo ano pensarmos num esquema mais de acordo com as possibilidades do pessoal poder contribuir com o mínimo.

O que é importante mesmo é manter esta iniciativa ao lado de várias outras para anualmente marcarmos a data com a nossa presença a sinalizar um dos momentos mais trágicos do pós-independência.

Esta sinalização continua a ser absolutamente necessária, enquanto calmamente aguardamos sentados pelo dia do reencontro com a verdade dos factos, para que, finalmente, a história possa ser escrita, com a participação de todos, numa síntese que desde já se adivinha extremamente difícil e complexa.

É o desafio que temos pela frente, cuja concretização se tem vindo a adiar com a esperança, alimentada sobretudo por aqueles que comandaram a repressão, de que o assunto cairá um dias destes no esquecimento das valas comuns que eles espalharam por este país inteiro.

2 – Passaram-se 28 anos desde a data que alterou completamente a história deste país, com o enorme banho de sangue que se conhece e que, com todo o mérito (justiça seja feita), colocou Angola na lista dos países onde foram feitas mais execuções extra-judiciais por razões políticas.

Trata-se de um lugar que “a Angola do MPLA” jamais poderá abandonar, por mais que os seus especialistas em cosmética política se esforcem por dourar a pílula ou por nos fazerem esquecer o passado.
De salientar a particularidade “interessante” desta carnificina ter sido praticada no seio do mesmo clube, que então era o “nosso Flamengo”, transformado depois no “PT deles”, criado sob “olhar silencioso de Lenine”.

A montanha comunista forjada a três pancadas num congresso de triste memória, viria anos mais tarde a parir um ratinho social-democrata e neo-liberal em que se transformou o MPLA dos nossos dias, preocupado apenas com a classe média e com a criação de uma burguesia nacional, num país onde mais de 70% da população sobrevive graças a verdadeiros milagres do pão e do peixe.

Foi uma trajectória alucinante que teve no famigerado “Movimento de Rectificação” a sua expressão mais estalinista, do ponto de vista dos procedimentos internos de um partido desnorteado que então emergia da sua mais profunda crise com rosto puro e duro do marxismo-leninismo.

O “Movimento de Rectificação” acabou por ser o prosseguimento da purga interna entre os tidos como fiéis, com a utilização de métodos mais suaves do ponto de vista físico. Era preciso aprofundar a pesquisa. Descer ao pormenor. Ultrapassar as aparências de fidelidade para se saber exactamente quem era quem no nosso seio.

O referido movimento, a que foram submetidos todos os militantes do MPLA da época que não foram parar às cadeias conotados com o “fraccionismo”, parece ter sido inspirado pelas mesmas mentes que elaboraram a estratégia da eliminação física de todos os “nitistas”, como uma espécie de “solução final” para se cortar o mal pela raiz.

O mal era pensar de forma diferente. Era questionar. Era ter dúvidas. Era não ser carneiro.
O “Movimento de Rectificação” visou pois “purificar”, pela via da denúncia e da confissão, as fileiras do PT de todos os “infiltrados” que, eventualmente, tivessem escapado da monumental caça às bruxas que se seguiu ao 27.

As sessões “rectificadoras” eram verdadeiros “shows” de inquisição medieval adaptados aos nossos tempos, com amigos a denunciarem amigos por eventuais falhas cometidas aqui e acolá, onde até se incluíam pormenores da vida mais privada.

Era grande o alívio e a satisfação dos candidatos a uma vaga de militante no PT, após a conclusão do seu “processo rectificador” com sucesso.

Havia mesmo lugar para festa, com gritos de alegria: “Já fui rectificado!”
Após esta passeata com a chapa ideológica do PT que durou cerca de 14 longos anos, o MPLA, estafado, regressou no inicio dos anos 90, à primeira forma com o estranho conceito da “grande família”.

Estranho, sobretudo, por ser uma família onde é proibido chorar os entes queridos que partiram não se sabe bem porquê, nem para onde.

É escrever a carta a pedir a readmissão, entrar, receber o cartão, vestir a camisola e… esquecer.


Que família é esta?

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