Pela passagem dos 28 anos do 27 de Maio

E assim se fez o almoço de confraternização no São João

Pela passagem dos 28 anos do 27 de Maio

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Pouco mais de trinta pessoas compareceram ao “local do crime”.
Foi de facto e de jure muito pouca gente para as dezenas de milhares que sobreviveram, sem falar das centenas de milhares de familiares e amigos que por aí andam e sem nos esquecermos, obviamente, de todos aqueles que foram engolidos pela fúria e pela raiva sem limites.

Era previsível. Não houve qualquer surpresa. O factor preço ($50) pesou bastante nos bolsos furados da maioria que manifestou interesse em associar-se a iniciativa, que no próximo ano vai ter certamente em conta este obstáculo.
Para o efeito contamos já com um patrocínio de peso tendo em vista uma acentuada redução dos custos do projecto de modos a torná-lo mais acessível e abrangente.

A explicar a reduzida afluência das massas ao local da gastronómica manifestação houve, certamente, outras razões mais subjectivas relacionadas com a “grande família” e outros receios que tais ligados à estabilidade e ao sucesso das carreiras.
Poderíamos encontrar no medo de nós mesmos e na auto-censura que, desde então, passaram a ser os nossos mais fiéis companheiros, outras justificações para explicarem o retumbante “fracasso”de que muito nos orgulhamos.

Para quem gosta de paradoxos a iniciativa reuniu, contudo, todas as condições para fazer a sua entrada na história, como um grande sucesso de bilheteira, a marcar o pontapé de saída daquilo que poderá vir a ser o surgimento de uma nova “ONG”, que os seus fundadores resolveram chamar de “Almoço Anual (AA)”. Simplesmente… em Maio, todos os anos com o mesmo propósito “criminoso”.

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O “crime” era e vai continuar a ser a preservação da memória no espaço de um imenso território nacional que foi testemunha de um massacre de inocentes há 28 anos.
Estamos a falar de um país onde ainda é mais importante editar e dar publicidade enganosa a determinadas “memórias” dominadas pela amnésia de conhecidos protagonistas que não se querem lembrar do seu papel na tragédia que foi a brutal repressão que se seguiu ao 27 de Maio de 1977.

Preferem passar ao largo, na maior das calmas, como se nada de grave tivesse acontecido durante o seu consulado, sob as suas ordens, sob a sua inspiração propagandística ou sob a sua batuta de maestros de uma afinada orquestra de extermínio massivo de antigos e novos camaradas.
Garantem-nos hoje a pés juntos, quase com uma lágrima no canto do olho, que a tal orquestra nunca existiu. Foi tudo obra da imaginação dos nossos (deles) detractores.

Afinal de contas podemos ler nas tais memórias póstumas, recheadas da mais pura e premeditada amnésia, “só despachamos uns poucos, que não terão ultrapassado a casa das duas centenas”.

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O “crime” era e vai continuar a ser a luta contra o esquecimento com a promessa de, dentro dois anos, por ocasião do 30º aniversário, podermos dar à estampa algo parecido com um livro branco dos direitos humanos violados e vilipendiados em Angola, numa determinada etapa da sua história, que não pode ser retirada da trajectória deste país, apenas porque uns não querem falar dela, por razões de mero desconforto político.

O projecto terá por base depoimentos escritos por cada um dos interessados em fixar para a posterioridade a sua visão dos acontecimentos que estiveram na origem daquela fatídica manhã de quinta-feira, o seu relato dos factos vividos, a sua apreciação das consequências produzidas, a sua avaliação sobre o impacto que o 27 teve nos rumos que o país trilhou.

Haverá certamente, no final do tal livro, uma moral a retirar de toda esta história que nos enche da mais profunda mágoa e tristeza.
É triste, mas aconteceu neste país há 28 anos.

Foram de facto ultrapassados todos os limites que a própria imaginação poderia projectar na tela gigante de qualquer filme inspirado pela problemática da repressão politicamente motiva, vulgo, caça às bruxas.


27 de Maio - 28 anos

Wilson Dada
Abril de 200
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Sugestões

1 Response

  1. José Fuso diz:

    Saúdo a iniciativa e a coragem dos que se juntaram para não esquecer aí em LUANDA.
    Esta ideia da “Autocensura” que Wilson Dada lançou em artigo, é sem dúvida uma metáfora que infelizmente traduz muito bem o comportamento dos que connosco sofreram e que hoje ainda se calam.
    Certamente sofrem ainda no seu íntimo também porque não podem falar abertamente sem por em causa a estabilidade das suas vidas, já porque mais ou menos dependentes do sistema dos privilégios que lhes aguenta a vida. Sei que cá fora no exterior é mais fácil falar.
    Porém, eles também poderão ainda dar no momento actual um contributo para a verdade, fazendo algo mesmo no seu silêncio para o mediático, pois com acesso directo a quem de direito poderão mostrar que não se pode tapar a verdade e que é mesmo preciso apaziguar a Sociedade tratando os problemas como deve ser.
    Crie-se a ENTIDADE INDEPENDENTE.

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