Do Fundo do Computador

Do Fundo do Computador – Escrever um livro sobre a tragédia, com várias mãos

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No Luena pelo menos uma dezena de jovens angolanos originários da capital foram massacrados por ordem do cacique local, apenas porque, segundo a sua apreciação, tinham sido os de Luanda que tinham morto o Comandante Dangereux que era do Moxico.

O massacre do Luena ficou famoso, entre os vários outros que foram praticados um pouco por todo o país. Foi o massacre dos caluandas que na altura se encontravam a trabalhar naquela província do leste. Segundo pormenores, que nunca conseguiu confirmar, os massacrados até tiveram direito a dar uma volta de carro, amarrados e arrastados pelas ruas da cidade, como se fazia no oeste selvagem.

O que se passou há 23 anos por estas paragens foi de facto muito grave.

O tratamento dispensado a todos aqueles que foram identificados como estando do outro lado da barricada, mesmo que fosse apenas em pensamento, veio introduzir um elemento de grande peso na cultura política angolana. Um elemento que até hoje permanece como uma das suas principais referências. Possivelmente a maior. Provavelmente a mais genuína, pois já há quem não tenha muitas dúvidas em concluir que de facto só mesmo à porrada é que os angolanos se entendem e se desentendem e se voltam a entender.
Trata-se efectivamente do recurso à violência para se resolver as várias diferenças entre as pessoas.

Resolver, salvo seja, porque até agora com todos as grandes e monumentais vitórias de Pirro que se conhecem, ainda ninguém conseguiu fazer este país acontecer, numa altura em que está em curso mais uma violenta campanha de exclusão do adversário.

O recurso à violência tem várias formas e vai-se adaptando em função da conjuntura, mas não deixa de se chamar violência, com todas as letras e acentos.

Uma violência que tem sido a grande e entusiasta companheira destes 25 anos de independência, com um balanço de vítimas que se adivinha monstruoso.
Paremos um pouco neste 27 de Maio para nos interrogarmos sobre quantos angolanos já foram mortos porque não pensavam como nós, porque eram de outro partido, porque faziam parte de uma outra equipa, porque defendiam uma estratégia mais pacifista.

Para já a conclusão a retirar desta reflexão aponta para uma dura realidade: a violência política em Angola já é endémica.

Ela entrou em grande estilo pela porta do 27 e nunca mais de cá saiu. O movimento de libertação nacional foi o grande viveiro desta endemia, onde os seus genes se foram e ganharam consistência. Quando de um lado se matam os “matiasmiguéis” e de outro se executam as “deolindas“, teríamos que ter anos mais os “vinte-setes” e as queimas de bruxas nas jambas.
Hoje até com os jornalistas já se houve falar da necessidade da sua eliminação física. É a solução à “RM“, que já foi aplicada nos últimos dez anos, pelo menos umas quatro vezes.

É por isso e por outras que a reflexão sobre o 27, desgraçadamente, ganha todos os anos uma maior actualidade, sendo por isso difícil ignorar a sangrenta efeméride, porque as tendências em Angola continuam a apontar para o pior em matéria de coabitação política. Tudo o resto é discurso, é cosmético, é falso.

(Maio de 2000)

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(…) A sangrenta e programada repressão que então se abateu sobre os “fraccionistas” obedeceu à lógica fria de cortar o mal pela raiz, dentro da nossa própria casa, tendo em conta o facto do 27 ter sido antes de mais um fenómeno doméstico que afectou profundamente o tecido humano do MPLA.
O “partido dos camaradas” entrou assim para a história das repressões políticas contemporâneas, como sendo provavelmente a formação partidária em África que mais militantes seus liquidou numa purga interna.

A raiz da intolerância em Angola tem assim a sua explicação histórica na própria incapacidade dos militantes das diferentes formações partidárias que foram surgindo com o moderno nacionalismo angolano em coabitarem pacificamente com a diferença.

O MPLA com o 27 de Maio transformou-se num paradigma desta intolerância sistémica, na altura em que a direcção deste partido continua a não emitir sinal mais consistente de que o seu terrível e tenebroso passado.
Embora se “compreendam” , são muito difíceis de aceitar as razões políticas que, de algum modo, explicam este “defensismo” , onde pontua em caixa alta o receio de um tal regresso ao passado se transformar na porta aberta à fragilização do partido.

O 27 de Maio passou por nós este ano com mais algumas revelações de peso, que só podem reforçar em nós a convicção de que muito dificilmente algum dia os angolanos se poderão sentar calmamente nos bancos das escolas para aprenderem uma história consensual de Angola, sobretudo aquela que tem a ver com o período que vai do início da década de 60 até aos nossos dias.
Até ver, estamos assim condenados a tomar apenas conhecimento das diferentes estórias de uma interminável história que para já de apresenta como somatório de várias versões, numa altura em que parte importante dos seus protagonistas ainda está viva.

Sintomaticamente nenhum destes protagonistas parece minimamente interessado em escrever as suas memórias. Até parece que fogem delas como o diabo da cruz, de acordo com o que nos ensinaram.
É de facto sintoma de algo muito estranho, para não utilizarem outras expressões menos eufemísticas a traduzir uma dificuldade estrutural em contar-se a verdade, em dizer como as coisas se passaram efectivamente para lá dos interesses conjunturais e partidários.

É tendo em conta todas estas condicionantes e bloqueios, que achamos que em torno dos trágicos acontecimentos do 27 de Maio de 1977, algo deve ser feiro em termos de recolha das diferentes versões, aproveitando os testemunhos vivos disponíveis de todos quanto estiveram envolvidos no turbilhão.
A ideia é escrever um livro com várias mãos, canetas e lápis, mas sem borrachas, nem borrões, nem tesouradas, nem medos (…)

(Maio de 2001)

Crónica presente no Jornal Angolense de 29 de Maio a 04 de Junho de 2004


27 de Maio - 27 anos

Jornal Angolense
29 de Maio a 04 de Junho de 2004


Sugestões

1 Response

  1. mandalas diz:

    a história deve ser contada. o artigo está super proveitoso. vale para elucidar a nova geração.

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