O Guerrilheiro

O Guerrilheiro
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Parte I

Nos anos sessenta, muitos jovens tinham, nos seus quartos, pendurado numa parede, um retrato de duas cores (vermelho e negro) de um guerrilheiro nascido na Argentina e renomado em Cuba: João Ernesto, o Che Guevara.

Aquele rosto audacioso e generoso, a sua história como jovem de uma camada social favorecida, com um futuro auspicioso na medicina, que troca o certo pelo incerto, o bem-estar pela privação, o individual pelo colectivo, a alienação pela libertação, galvanizou gerações e, ainda hoje, empolga milhões, em todo o mundo.

Em Angola, não encontrei o Che, pois as balas do exército colombiano já tinham ceifado a sua vida, anos antes. Mas encontrei uma imagem semelhante de guerrilheiro, cuja figura e generosidade perdura na minha memória. Quem era esse guerrilheiro? Alves Bernardo Baptista, cujo nome de guerra era Nito Alves.

Nascido no Píri, Uíge (no Norte de Angola), fez os seus estudos primários e os primeiros anos do secundário. Muito jovem, nos anos sessenta, ingressou na guerrilha, pertencendo à Primeira Região Militar do MPLA, no Uíge.

Os guerrilheiros da Primeira Região estavam cercados e isolados, sem abastecimentos, quando surgiu o 25 de Abril.

Conheci-o, pela primeira vez, em Março de 1976, em Luanda. Era, então, Ministro da Administração Interna, no primeiro governo de Agostinho Neto. Na Primeira Região, as duras condições de sobrevivência não permitiam o acesso a livros de grande profundidade, mas Nito devorara os que encontrava.

Com da chegada a Luanda, após o 25 de Abril, leu milhares de obras de economia, filosofia, história e política, procurando, também, adquirir conhecimentos, privando com intelectuais e homens de cultura. A sua ascensão política tornava-o o sucessor natural de Agostinho Neto. Nos comícios então frequentes, empolgava as multidões, com a sua emotividade e capacidade oratória.

Enquanto Neto se expressava pausadamente, sem chama, como se cansado tivesse nascido, Nito vibrava e galvanizava. Neto era a pasmaceira, Nito o alvoroço.

Apesar da multiplicidade de actividades, inerentes ao cargo de Ministro da Administração Interna e às funções partidárias como membro do Bureau Político, a sede de conhecimentos levou-o a matricular-se na Faculdade de Economia, cujas aulas frequentava à noite.

Mas o que mais atraía em Nito Alves era a sua generosidade, o seu empenhamento no prosseguimento dos ideais que o tinham levado a abandonar a cidade para pegar em armas.

Enquanto a maioria dos dirigentes do MPLA se tinha deixado fascinar e dominar pelo conforto proporcionado pelo acesso rápido a toda a sorte de bens de consumo e à qualidade de vida de uma camada dirigente próspera e em ascensão, Nito Alves mantinha a austeridade. Os automóveis luxuosos, o whisky generoso e as aparelhagens sofisticadas não o fascinavam.

Não lutamos para nos substituir aos colonos, mas para melhorar a vida do povo. É um crime abandonar agora a luta, hoje que podemos utilizar o poder”, disse-me ele, na primeira vez que nos encontrámos, no seu gabinete de Ministro da jovem República de Angola.

Com os olhos brilhantes, transmitiu-me o seu sonho para Angola: “Este País é rico, muito rico. Temos tudo, petróleo, diamantes, riquezas naturais. Mas se não soubermos trabalhar, isto pode ser a nossa perdição“.

Que palavras premonitórias, agora que olhamos para a Angola do ano 2007, em que dirigentes corruptos, com contas milionárias na Suíça e outros países europeus, se riem da miséria do povo, enviando os seus filhos para as melhores universidades estrangeiras e pondo as suas mulheres a passar fins-de-semana no BrasiL…

Já em 1976 a corrupção começou a enfraquecer a governação e a emperrar o desenvolvimento. Nito Alves apelou à mobilização de esforços e ao reforço das estruturas partidárias. Os seus discursos, com forte conteúdo político, eram adulterados pelos seus detractores.

Uma das frases mais polémicas consistiu na referência de que “os brancos também têm de varrer as ruas“. A frase não foi feliz, mas o que o dirigente pretendia dizer era que não havia funções reservadas para negros e outras para brancos e que numa sociedade multirracial e harmoniosa haveria pessoas de várias cores a exercer funções similares. A frase, manifestamente infeliz, só podia ser apreendida no contexto do discurso. Mas tanto bastou para que os seus adversários o acusassem de “racista”.

A generosidade de Nito Alves correspondia à figura de Che Guevara. O seu destino, igualmente trágico, fez perdurar o seu nome. Não foram as balas do exército colombiano que o impediram de concretizar o sonho, mas algo mais sinistro, como veremos na próxima crónica.

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Parte II

Nito pressentiu o seu destino, como se lê no poema que escreveu.

Em 1974, no Congresso de Lusaka, Agostinho Neto, ferozmente atacado por uma tendência interna do MPLA, estava prestes a demitir-se, quando Nito Alves pediu a palavra. Num discurso empolgante, defendeu Neto e criticou veementemente os seus opositores.

As palavras de Nito foram secundadas por outros militantes do interior, designadamente José Van Dúnen e Eduardo Santana Valentim (Juka Valentim). Neto, vacilante, sentiu-se renascer e acabou por não desistir. O MPLA, renascido das cinzas, militarmente denotado nas vésperas do 25 de Abril, galvanizou-se e acabou por se tomar a força dominante em Angola. Em 11 de Novembro de 1975, foi proclamada unilateralmente a independência de Angola, num ambiente de guerra civiL.

Nito, cujas qualidades e méritos conduziram a uma ascensão meteórica no reduzido universo de dirigentes angolanos, foi chamado a desempenhar o cargo de Ministro da Administração Interna no primeiro Governo. Ocupado nas tarefes governativas, não tinha tempo de se opor à actividade de Lúcio Lara, que ficara à frente do aparelho do movimento e que iniciara um processo de afastamento dos militantes mais destacados.

Na sequência dessa ofensiva, o Bureau Político do MPLA tomou a decisão de afastar todos os militantes que tinham nacionalidade portuguesa de nascimento, sem atentar no seu passado histórico.
Lara chegou a dizer que iria “expulsar os portugueses a pontapé”.

A nível militar, foram afastados ou colocados em segundo plano comandantes destacados, como o Monstro Imortal.

Lara, secundado por outros dirigentes, estimulou boatos tendentes a apresentar Nito como “racista, que até estuda para ser doutor” (alusão ao facto de ser o único elemento do Comité Central a frequentar o ensino universitário), um “ambicioso que quer o lugar de Neto”.

Na III Reunião Plenária do Comité Central, em Outubro de 1976, Nito, secundado por outros dirigentes (como José Van Dúnen, Monstro Imortal e Bakalov), pediu a palavra e solicitou a instauração de um inquérito para apurar a veracidade das acusações contra si formuladas.

Neto pareceu defender Nito, formulando esta pergunta: “Mas que forças sociais estão interessadas em afastar o camarada Nilo Alves?

Foi aprovada a instauração de um inquérito, destinado também a apurar a existência de outra acusação deduzida contra Nito: a existência de fraccionismo, ou seja, uma organização paralela dentro do MPLA. No período subsequente, aumentou a repressão contra os elementos ligados a Nito Alves.

Os trabalhos da Comissão de Inquérito foram apresentados à Vª Reunião Plenária do Comité Central, em 19 e 20 de Maio de 1977. A Comissão, liderada por José Eduardo dos Santos, omitia qualquer conclusão sobre a existência de fraccionismo.

Nito atacou directamente os seus opositores, em vez de se calar.

Face à clivagem existente, Agostinho Neto, que já estava envenenado por aqueles que diziam que Nito queria o seu lugar, afastou-se da cadeira presidencial e declarou: “A partir de agora deixou de haver Presidente. Temos dois grupos em confronto e vai ganhar o mais forte!

A reunião terminou no dia 20, sexta-feira, sem conclusões.

No dia seguinte. Neto convidou Nito Alves e José Van Dúnen para um almoço no palácio presidencial. Face ao pedido de Neto para fazerem uma auto-crítica pública, os dois dirigentes recusaram-se. Neto concluiu o almoço, dizendo, ameaçadoramente:
A partir de agora, deixo de responder pela vossa segurança!

Tinha sido proferida a sentença. Faltava a bala, referida no poema, que a executaria…

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Parte III

No dia 21 de Maio de 1977, Agostinho Neto convidou Nlto Alves e José Van Dunem para um almoço no palácio, solicitando que estes fizessem uma “autocrítica pública”. Face à recusa. Neto ameaçou: “A partir de agora, deixo de responder pela vossa integridade física!”.

Nesse mesmo dia, à tarde, realizou-se um comício do MPLA, em que foram anunciadas as deliberações da reunião aos militantes. Num ambiente de grande tensão, foi anunciada a “decisão do Comité Central do MPLA de afastar das suas funções membros do Comité Central os camaradas Alves Bernardo Baptista (Nito Alves) e José Van Dunem (Zé Van Dunem).

Alguns militantes tentaram questionar, sendo imediatamente presos. Neto deu também indicações para a prisão dos dois dirigentes afastados.

Entretanto, surge a informação, a partir de fontes da própria polícia política (DISA), que havia indicações para eliminar fisicamente Nito Alves, José Van Dunem e Sita Valles.

No seu livro “A dialética e a guerrilha”, publicado em 1976, Nito Alves escrevera que “o golpe de Estado, o putch, é totalmente alheio ao socialismo”. Mas perante a iminência de assassinatos políticos, que fazer?

No dia 23 de Maio, segunda-feira, os militares da Nona Brigada reunidos em plenário, rejeitam o afastamento de Nito Alves. Em vários bairros da Capital são aprovadas moções contra a medida tomada. Surge uma divisão entre os partidários de Nito Alves. Uns, consideram “anti-marxista” um golpe de Estado, enquanto outros defendem que é a única solução.

Chegou-se a uma solução de compromisso, que consistia em colocar o povo na rua, sem, no entanto, derrubar Agostinho Neto. Ou seja, a pressão das “massas populares” iria originar uma alteração na relação de forças.

Nos dias anteriores ao dia 27 de Maio de 1977, responsáveis soviéticos confidenciaram a Nito Alves que existiam em Angola condições objectivas e subjectivas para a tomada do poder político e que a União Soviética apoiaria o novo regime.

O dia 27 de Maio acabaria por ser um dos dias mais trágicos de África.

O que seria um golpe de Estado vitorioso acabou por se tomar uma carnificina. O regime de Agostinho Neto acabou por ceifar a vida de cerca de 20 000 angolanos, acusados de serem partidários de Nito Alves.

Às 4 horas da madrugada, o destacamento feminino das Forças Armadas, partidário de Nito Alves, forçou a entrada nas prisões de S. Paulo e na Casa da Reclusão, onde se encontravam detidos destacados dirigentes “nitistas“. Após a libertação dos presos, cerca das 6 horas da manhã, a Rádio Nacional começa a emitir música revolucionária e a apelar à população para uma manifestação em frente à própria emissora. Milhares de pessoas corresponderam ao apelo e vieram para a rua. Agostinho Neto refugiou-se no Futungo de Belas.

Em vez de se dirigir para o palácio, a multidão dava azo à sua alegria, cantando e gritando palavras de ordem. Só muito tempo depois, veio a palavra de ordem para a manifestação se efectuar em frente ao palácio.

Cerca das 10 horas da manhã. Neto consegue entrar em contacto com Fidel Castro, a quem suplica ajuda, a intervenção das tropas cubanas. Às 11 das manhã, os cubanos, contra todas as previsões, intervêm. Uma companhia de blindados (carro T-34) desencadeia uma ofensiva contra os manifestantes, disparando sobre os populares. Centenas de pessoas morrem.

A partir daí, os dados ficaram lançados. A guarda presidencial, que estava em fuga, reorganiza-se e desencadeia-se a repressão intensa sobre os revoltosos.

Como se verá no próximo número, raras foram as famílias que não perderam elementos…

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Parte IV

A chacina de centenas de manifestantes rapidamente se espalhou por Luanda, gerando o pânico. Muitos não acreditavam: como era possível os generosos e internacionalistas cubanos terem disparado sobre população indefesa, desarmada? Sob o impulso dos cubanos, a guarda presidencial e a polícia política (DISA) tomaram a iniciativa, efectuando numerosas prisões.

O erro dos partidários de Nito Alves foi não terem assumido a necessidade de um plano cuidadoso de tomada do poder político. Ficaram com a fama, mas sem o proveito. Com a invocação de que tal era contrário aos princípios do marxismo, os “nitistas” consideraram que o importante era levar a população para a rua. E quando a população foi dizimada, gerou-se o desastre.

A repressão ultrapassou o imaginário, em todo o País.

Em Luena, capital da província do Moxico, foram assassinados, nos primeiros dias de Junho, cerca de 150 suspeitos de “fraccionismo”, designação que passou a ser atribuída aos partidários de Nito Alves. Contam-se, entre outros, Virgílio Saraiva de Carvalho e Assis (sobreviventes de S. Nicolau), Faceira, Paulo Cadavez, Paulo Jorge, Paixão e Quim Figueiredo. Em N’gunza, capital do Kwanza Sul, foram fuzilados na noite de 6 de Agosto, 204 “suspeitos”. Em Luanda, Capital do País, foram feitas, nos dias posteriores ao 27 de Maio, execuções sem conta.

Em princípios de Junho, no cemitério da estrada da Cuca, após as mais cruéis sevícias da DISA, foram assassinados 300 “fraccionistas”, sobretudo elementos das Comissões Populares de Bairro. Entre eles, Rui Malaquias, Nany, Virinha, Xico Zé, Charulla de Azevedo (com apenas 17 anos de idade).

Em Benguela, Malange, Cabinda, Bié, Zaire, Moçâmedes, Huambo e um pouco por todo o País a repressão atingiu foros de inimaginável, afectando sobretudo os sectores mais radicais dos trabalhadores, nos bairros, nas empresas, nas forças armadas, mas alastrando-se a todas as camadas da população.

Nas FAPLA (Forças Armadas Angolanas), a maioria dos comissários políticos (representantes do MPLA) foi vitimada. Contam-se Bakalov (comissário político nacional e membro do Comité Central), Pedro Santos (comissário político do Estado Maior da Frente Sul), Sianouk (comissário político do Estado Maior da Frente Centro), Paixão, Nado e Galiano.

Na Juventude, Luís Kitumba e Paulito, secretários da Comissão Executiva do Comité Central da JMPIA para a Informação e para as Relações Exteriores.

Do sector intelectual, foram assassinados Rui Coelho, Juka Valentim (“recordista” dos presos políticos durante o fascismo, em Portugal e nas colónias, pelo número de cadeias onde esteve: Tarrafal, Caxias, S. Nicolau, Foz do Cunene, S. Paulo, Casa de Reclusão, entre outras), Sita Valles (médica), Ademar Valles (Director Nacional da Indústria Pesada, Aires Machado (Minerva – Ministro do Comércio Interno), Joaquim Maria, entre outros. Entre os 30 membros do comité central do MPLA, foram assassinados Monstro Imortal (Bureau Político), Nito Alves, Bakalov e José Vau Dunen – Sujeitos a inquérito, Aristides Van Dunen e Xi-Cota.

Calcula-se em 20 000 o números de angolanos assassinados e enterrados em valas comuns, sem quaisquer direitos de defesa.

Poucas famílias ficaram incólumes, nessa caça às bruxas. Dos sete irmãos Kitumba, apenas dois sobreviveram. Dos irmãos Valles, apenas um, por se encontrar fora de Angola. A escrever agora, trinta anos depois, estas linhas, em exorcismo. O que é espantoso é que centenas de patriotas angolanos resistiram às torturas da PIDE, no período colonial, para serem assassinados, depois da independência, por um regime que se proclamava partidário do marxismo e defensor das liberdades.

Indescritíveis foram as torturas aplicadas aos presos. Dos espancamentos a todos os órgãos do corpo, com armas, martelos, barras de ferro e cavalos-marinhos, ao nguelelo, passando pela “roleta russa” e pelos fuzilamentos simulados, tudo foi aplicado.

Em que consistia o nguelelo? O preso ficava com os pés atados às mãos, por meio de cordas molhadas, ligadas aos testículos. O calor tórrido fazia esticar as cordas e o mínimo movimento originava forte pressão, dolorosa, nos testículos. A completar, um torniquete, ligado a dois paus, junto às têmporas. Apertava-se o torniquete, causando, além das dores, redução da irrigação sanguínea ao cérebro.

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27 de Maio - 30 anos

Edgar Valles
In “Odivelas Magazine”
Crónica | Memórias 2007 – Janeiro/Fevereiro/Março/Abril
2006


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