CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DE ANGOLA

Exmo. Senhor Presidente:

Dirigimos-lhe de novo um apelo, quem sabe pela insistência se obtenha a ansiada resposta que aguardamos há anos.

A nossa memória é perene e, passados trinta e três anos, a tragédia que desabou em Angola a 27 de Maio de 1977, insiste em estar presente. Se o seu silêncio, por demais continuado, acarreta o esquecimento, em nós, pelo contrário, incute perseverança, até que colhamos da vossa parte o sinal de vontade em dispensar tratamento digno a tão pungente assunto.

Nós, sobreviventes e familiares dos desaparecidos, sustentamos uma opinião contra o esquecimento, da qual lhe demos sempre conhecimento, por o considerarmos um singular conhecedor, sobrevindo a relevante posição que detém na hierarquia do Estado e da Nação. Assim foi que, na primeira carta aberta que lhe endereçámos, decorria o ano de 2003, sugeríamos a criação de uma entidade pública e independente confiada a apurar os factos que viessem a sustentar a verdade, a responsabilizar os infractores, recaindo sobre eles o ónus da justiça, e que por fim se empenhasse na reparação dos danos. Serve de exemplo o que foi praticado noutros lugares, lá onde as sociedades se depararam com idêntico legado, tendo os processos que conduziram à verdade e à justiça decorrido pública e de forma transparente, antecipando-se sempre a uma eventual reconciliação/perdão.

Considerado o nosso parecer, é nossa convicção que daí em diante, ao lembrarmos a passagem de mais um 27 de Maio, poderá a Nação Angolana sentir-se orgulhosa por se ter encetado o ajuste de contas com a História. Assim sendo, os relatórios das organizações internacionais pelos direitos humanos anunciarão progressos, as certidões de óbito estarão por fim entregues, será público o rol dos desaparecidos, identificados estarão também os locais onde jazem as vítimas, conhecidos os seus autores, a sua prática e os seus propósitos, os mortos terão sido exumados para lhes ser dada sepultura digna, a verdade contada, a justiça exercida e, quem sabe, num gesto de preservação da memória, um monumento erigido às vítimas. O dia será de luto.

Pelo exposto, apelamos uma vez mais à sua consideração. Da nossa parte continuaremos a lembrar para não esquecer.

Lisboa, 27 de Maio de 2010

A Associação 27 de Maio

Edgar Valles
Jorge Fernandes
José Fuso
José Reis

You may also like...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.