Nito Alves e a Revolta Activa. O passado e as omissões de uma história mal contada

05.06.2008

No texto que o João Melo (JM) assinou a 26 de Maio do corrente ano (2008) no Jornal de Angola sobre “O 27 e o 28 de Maio” há uma referência histórica feita por ele que me chamou particularmente a atenção.

Em causa está uma omissão que é sintomática da forma como determinadas figuras e factos do passado são tratados no presente por determinados autores que depois acusam os outros de serem revisionistas.

A omissão está relacionada com a transmissão da ideia segundo a qual Nito Alves terá sido o único alto dirigente do MPLA da época a manifestar indisponibilidade para qualquer acordo com a Revolta Activa (RA) no sentido da sua reintegração como era desejo da maior parte dos membros que integravam aquela tendência do MPLA.

Com base numa breve investigação que a propósito realizei sobre o assunto, tendo como fontes elementos afectos à própria Revolta Activa cheguei a outras conclusões.

Primeiro não foi possível o acordo porque os representantes da Revolta Activa que estavam a negociar com a direcção do MPLA recusaram-se sempre a fazer uma autocrítica pública.

Não creio que esta condição preliminar fosse uma exigência da exclusiva lavra de Nito Alves, por mais poder que ele tivesse na época conforme relata JM.

De acordo com o depoimento de Adolfo Maria um dos membros da Revolta Activa que participou em algumas das reuniões de aproximação, a exigência da autocrítica foi formulada logo no primeiro encontro que contou com a presença do próprio Agostinho Neto no inicio das discussões.

A delegação da direcção do MPLA era composta por Lúcio Lara, Iko Carreira e Nito Alves, enquanto a RA fazia-se representar por Mário de Andrade, Amélia Mingas e Adolfo Maria.

Adolfo Maria refere a propósito que “a direcção propunha que nós fizéssemos uma autocrítica individual e depois poderíamos reintegrar o movimento…”

Em todas as reuniões que depois se seguiram (terá havido mais duas ou três) a exigência da autocrítica manteve-se até à ruptura definitiva que culminou com a prisão da maior parte dos membros daquela tendência do MPLA pela DISA.

Nas últimas duas reuniões, segundo a mesma fonte, Nito Alves esteve sempre acompanhado por Carlos Rocha Dilolwa (ambos já falecidos), que nunca fez qualquer pronunciamento dissonante. Antes pelo contrário.

Ao que me foi dado a saber Dilolwa e Nito Alves terão sido os dois membros da direcção do MPLA que mais se bateram pela exigência da autocrítica. Curiosamente Dilolwa viria a autocriticar-se meses mais tarde após ter reconhecido desvios de esquerda na sua conduta na sequência da sua militância paralela nos banidos Comités Amílcar Cabral (CACs).

Não foi só Joaquim Pinto de Andrade que não foi preso na época. Para além dele sabe-se que Spartacus Monimambo e Amélia Mingas também não foram encarcerados.

Joaquim Pinto de Andrade terá escrito nessa altura uma violenta carta de protesto dirigida a Agostinho Neto chamando-lhe de Cônsul e alertando-o para o efeito de boomerang da repressão, que o regime do MPLA estava a levar a cabo contra os seus adversários.

As cadeias em Angola nunca estiveram vazias.

Estas e certamente muitas outras informações que andam por aí, falam bem da impossibilidade de se contar a história de Angola tendo apenas em conta uma versão dos factos.

Enquanto os interesses políticos comandarem a “investigação” histórica, vamos continuar a discutir nos jornais o passado, o que já não é nada mau, se tivermos em conta o pretérito mais do que imperfeito (asfixiante) deste país.

Aqui graças à liberdade de imprensa (que estamos com ela) já posso dizer que estamos sempre a subir.

Ainda muito lentamente, mas estamos.

 

Wilson Dadá (Jornal Angolense)

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Comentários

8 Reacções a “Nito Alves e a Revolta Activa. O passado e as omissões de uma história mal contada”

  1. patricio 17.06.2008 - 23:57:23

    a muito gostaria saber a verdade sobre o 27 d maio

  2. henrique 21.09.2008 - 13:00:24

    O PRESIDENTE AGOSTINHO NETO TAMBÉM QUIZ NEUTRALIZAR FISICAMENTE OS MEMBROS DA REVOLTA ACTIVA NO PERIODO QUE CICUNDAVA A CONFERÊNCIA DE LUSAKA.
    UMA DAS PROVAS FOI O ASSALTO DA SEDE DA REVOLTA ACTIVA EM BRAZZAVILLE ,REP DO CONGO ONDE ESTAVA ALOJADO O MARIO PINTO DE ANDRADE.
    NUMA NOITE EM QUE O MARIO PINTO DE ANDRADE NÃO SE ENCONTRAVA LÁ HOSPEDADO POR RAZÕES DE SEGURANÇA FOI INVADIDIDO POR POR UM INTRUSO QUE CONSEGUIU ENTRAR COM UMA CHAVE FALSA E POR E POR POUCO ENTRARIA NOS APOSENTOS ONDE COSTUMA ESTAR O MARIO PINTO DE ANDRADE,QUE NESTA NOITE NÃO PERNOITO NESTE LOCAL.
    O INTRUSO FOI SURPREENDIDO COM UMA REACÇÃO VIGUROSA DOS MEMBROS DA REVOLTA ACTIVA QUE SE ENCONTRAVAM NESTA INSTALAÇÃO QUE SENTIRAM UMA CHAVE FALSA A RODAR A FECHADURA.
    AO SOM DO PRIMEIRO TIRO QUE NÃO ACERTO O INTRUSO E A SEGUNDA BALA TER INCRAVADO ELE CONSEGUIU FUGIR.
    PERANTE O DESEJO DE NETO EM LIQUIDAR OS MEMBROS DA REVOLTA ACTIVA O PRESIDENTE MARIEN NGUABI QUIZ EXPULSAR O NETO E OS SEUS SERVENTUARIOS DO CONGO BRAZZAVILLE.

  3. PEPE 21.09.2008 - 17:34:49

    num discurso de agradecimento a um prémio, a dada altura,a propósito da demolição do palácio DONA JOAQUINA, PEPETELA diz: “TEMOS O DIREITO E O DEVER DE EXIGIR QUE UM INQUÉRITO PÚBLICO SEJA FEITO E AS SUAS CONCLUSÕES DIVULGADAS NO MAIS CURTO ESPAÇO DE TEMPO. E QUE OS CRIMINOSOS SEJAM CASTIGADOS, SEJAM QUEM FOREM.” porque será que PEPETELA nunca exigiu que os criminosos que fizeram O 27 DE MAIO fossem castigados?

  4. NDU 21.09.2008 - 17:57:20

    no livro “PORTANTO…PEPETELA”, das edições CHÁ DE CAXINDE, na pag 83, NDUNDUMA diz: “ASSIM, QUEM SABERÁ DIZER UM DIA Q TAMBÉM PEPETELA TRAVOU POR ANGOLA COMBATES NO CHONGORÓI, NO LOBITO E NOUTRAS LOCALIDADES DA BENGUELA DE ANGOLA? QUEM ERAM OS SEUS COMPANHEIROS DESSES DIAS? E NO LESTE E EM CABINDA? (…)E NA TRAGÉDIA DE MAIO? (…)” NDUNDUMA, queixa-se de não haver pessoas interessadas em fazer a história verdadeira de Angola. è caso para perguntar pq não começa ele a escrever e a contar em fascículos como fez nos idos anos de 76/77?

  5. JUJU 21.09.2008 - 18:02:49

    portanto … meus caros PEPETELA, NDUNDUMA, JUJU, ABRANCHES, LUANDINO, RUY, JOÃO MELO E OUROS Q HOJE SÃO NOMES IMPORTANTES E COM TANTOS PRÉMIOS, POR FAVOR E POR RESPEITO PELOS VOSSOS FILHOS, TENHAM A DIGNIDADE DE ESCREVER SOBRE O 27 DE MAIO, MAS SEM METÁFORAS PARA Q TODOS ENTENDAM REALMENTE O Q SE PASSOU E NÃO COMECEM A DEITAR A CULPA PARA O VIZINHO POIS TODOS VOCÊS SÃO CONIVENTES DE UMA GRANDE MONSTRUOSIDADE. POR AMOR À LUÉJI, ONDJAKI E OUTROS

  6. Olinda humildade 29.01.2009 - 23:55:27

    Sou filha d um revolucionario d 27d maio apartir da disa secretario d nito alvez tenho 34anos o q me dizem quem matou meu pai? Se voces existem resposta urg. Quem matou o humildade?

  7. Calupeteca 30.01.2009 - 10:38:16

    Pela informação que colhi, pelo que li, PEPETELA participou nesta repressão, julgamentos que levaram ao fuzilamento de muitos compatriotas. Portanto, creio que só depois de um célebre e sério interrogatório a ser dirigido por uma investigação independente, imparcial (um dia desses se os homens de boa vontade se empenharem no caso) se saberá concretamente o que aconteceu. Como eles há muitos. Muitos dos carrascos ainda estão em vida (Onambwe, Mendes de Carvalho, Kundy Pahama, JES, Higino Carneiro e tantos outros que hoje constituem a elite da Nação Angolana).

  8. BEN BEN -ITALIA 08.05.2009 - 16:36:25

    caros angolanos e compatriotas,sou um cidadao que gostaria que a nossa era seja contada a verdade,sobre o 27 de maio,em qual,homens de grande coragem combateram os colonialistas e deram as vida e o sangue para a nossa patria.o desaparecimento fisico desses homens que os podemos definir herois nacionais,cuja a causa,continua a ser misterio.faz parte da nossa historia,tudo que foi o contributo desses herois nacionais.o povo angolano deve saber a verdade desses herois,nunca vai passar no silencio,mesmo se as novas geracoes nao sabem,mas irao de saber o que passou esatamentedo 27 de maio 1977.o governo angolano,e as instituicoes,podemos comemorar nessa data,tambem lembrando o soldado disconhecido,seja um dever moral historica do povo angolano.o povo angolano,nunca odem esquecer quem combateu dia e noite para a nossa liberdade,e a todos os povos oprimidos do mundo.nito alves e tantos outros ;a vossa luta foi justa,sois os nossos martirs da nossa revolucao,a vossa historia sera contada nas nossas futuras geracoes quanto sacrificaram para o nosso povo e a nossa republica..a historia nunca se pode mudar,viva os herois e vivem na nossa memoria pra sempre.viva angola e os angolanos,a revolucao continuara…e as nossas historias,havemos de lembrar.

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